domingo, 2 de agosto de 2020

Jenipapo, crônica de Vilton Soares

É assim com nossa memória. Numa dentada ela se assanha e fica lá espalhada. Aí vem o desafio de fiá-las e confiar-se nas lembranças... e escrevê-las. De um tempo para cá venho pensando que revisitar e ressignificar o passado é a melhor maneira de subvertê-lo, para mantê-lo vivo... Pois foi assim hoje de manhã...


Jenipapo do café da manhã de hoje

                     Por conta da pandemia e graças ao trabalho remoto pude revisitar minha mãe. Como tudo que se liga a ela é generoso e farto, visitá-la significa reviver três mundos: Recife, Garanhuns e o Sertão, esse cada vez mais verde, perfumado e menos autêntico nas minhas memórias.
(In)felizmente essa fartura também se realiza em mesas cheias e refeições em continuum, como o rio das nossas histórias.
              Julho é mesmo um mês mágico no Sertão... é cheiroso ! Vejo  bodes e cabras brotando de moitas verdes e espinhosas, aves de rapina coloridas saciadas, nuvens carregadas e o caudaloso Velho Chico ainda gerando energia elétrica com um canto raivoso e sofrido... 
               Tudo isso é lindo ! Há um portal mágico formado por sete colinas que protege esse mundo... para dele desfrutar tenho que enfrentar os montes Sinai, Triunfo, Columinho, Ipiranga, Antas, Magano e Quilombo, no planalto da Borborema. Por esse frio jardim edênico penetro um mundo controverso e tenso e que exige de mim muito amor e condescendência para compreendê-lo, um real exercício de alteridade...
                        ... que sempre começa em Recife, passa por Garanhuns e desta vez terminou em um mergulho nas caixas de fotos preto e branco da minha mãe, onde eu procurei detalhes dos ascendentes familiares para colorir a memória e dar liga à minha genealogia. 
Uma mãe ainda menina, com traços fortes e em pose de professora entre alunos circunspectos... nunca poderia imaginar que aos 20 anos uma mulher pudesse tanto no Sertão dos anos 50 e 60 do século passado, mesmo sem poder...
          Em um mergulho mais profundo no tempo fotográfico revelam-se 13 rostos instigantes que parecem prenunciar a minha avaliação 60 anos depois... que diálogo tenso ! Sinto um frisson: (des)culpa, pesar, brio, dignidade e honradez, tudo misturado. 
Com um olhar mais perspicaz vejo os 13 dispostos em duas filas, em dois planos, no segundo, de pé, formada pelos meus tios de terno e gravata, ainda não aparentando nem ter enfrentado 20 verões, e em primeiro plano, sentados, as tias, meus avós, minha mãe e um tio-menino ... curioso ver a distribuição dos que estão no primeiro plano, três à direita e três à esquerda da figura central: minha avó. Cena linda !
                Pronto ! Estou falando da difícil tarefa de compreender a força feminina nesse mundo contraditório... minha avó e 11 filhos, mas ela ao centro. Todos altivos, mas sisudos... majestosos apesar da cultura, da política, da economia, da história, de tudo.
                 Diante de cada foto eu perguntava “mãe, quem é esse ? E essa ? E isso? Quando foi ? Onde foi tirada essa foto?” e as respostas vinham de um lugar orvalhado:   “era a minha melhor aluna, mas fugiu com um homem”, “eu gostava tanto dela, mas nem sei se ainda está viva”, “ele era bruto, mas não nos deixava faltar nada”, “a bichinha sofreu tanto, mas foi feliz”... aí eu ressignificava aquela posição central da minha avó na foto...
               Tudo aquilo jogava luz nas minhas memórias de infância. A construção de grandes hidroelétricas na bacia do Rio São Francisco nos anos 60 e 70 do século passado havia atraído profissionais dos mais variados lugares do Brasil e do exterior, o que criou um cadinho intercultural efervescente em um contexto de muitas tensões traduzidas na escultura do Touro e a Sucuri ou próximas de um Duelo de Titãs. 
 A cidade(zinha) totalmente planejada, cercada e ilhada dispunha de escola com professores e colegas das mais diversas partes do Brasil, o que nos permitia muitas aprendizagens. Nos encontros nos clubes e nas piscinas reabastecíamo-nos de energias e aprendíamos a resiliência e a importância de se lutar contra as fronteiras, que eram muitas. Superar os limites só era possível ao reunir os amigos para ver a chegada de helicópteros afugentando e repelindo as cabras, o calor, as distâncias e a terra seca. Ir ao cinema e prestigiar nomes da cena cultural nacional no clube da cidade eram sopros de esperança na transposição de tantas barreiras ... esse ambiente antinômico punha em contraste a seca e a penúria de um dos Sertões à opulência das águas e abastança, de um outro. 
             Era comum ouvir e ver mulheres em situações de comando, nas casas, na escola, nas usinas, nas aulas de natação do clube, protagonistas em muitos casos de divórcios, histórias de traição... como eu gostava de ouvi-las... muitas assalariadas, conduzindo carros, até mesmo engenheiras, em pequeno número. É difícil (re)ler essas fotos e pensar na condição feminina dentro dessa microssociedade : “ele era bruto, mas não nos deixou faltar nada”, “a bichinha sofreu tanto, mas foi feliz!” ou referindo-se a um “ela não tinha nada” concluía-se com “... e perdeu tudo que tinha”. 
        O Sertão que me constitui e que carrego em mim é discordante, divergente e inverso do que li e ouvi sobre esse mundo, e do que sinto e vejo. Precisa ser reescrito. E, todas essas memórias vieram à tona hoje no café da manhã no “portal do Sertão” quando uma voz doce quebrou o meu deleite com o gole de café quente e me propôs “quer um jenipapozinho? Está na época !”. 
Pronto! Outra memória do baú escondido: Jenipapo ! A fruta in natura,  não é o licor ou o doce ... Ao sentir o cheiro putrefato e tentador, o sabor acrimonioso da fruta crua na boca ... veio todo o Sertão em mim: agrura-deleite, amargo-doce, verde-podre, morto-vivo, satisfação-aflição, vida-morte, (des)encanto ...


Garanhuns - PE, 12 de julho de 2020.

* Vilton Soares (viltonsoares@ifma.edu.br) é Professor de Português e Francês do Instituto Federal do Maranhão - IFMA e Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP); é pernambucano de nascimento e maranhense de coração, onde reside há vários anos. É um ser humano incrível, de sensibilidade e perspicácia aguçadas; por seus olhos e em seu íntimo navegam memórias de tempos de outrora. Espero que tenham gostado desse texto, o qual nos faz retomar memórias e analisar as ambiguidades que constituem nosso complexo ato de existir.

Beijos,

Natércia





16 comentários:

  1. Gosto da crônicas memorialistas...
    As lembranças do passado são sinos para os nossos sentidos.

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    1. Adorei a metáfora dos sinos ... isso mesmo. A gente bate em um deles, sem querer, e aí já acordou tudo, não é ? Heheh ... um abraço.

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  2. Respostas
    1. Obrigado pelo Feedback e pela leitura sensível. Um abraço.

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  3. Dá pra imaginar tudo o que é relatado...deu vontade de provar o jenipapo!

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    1. uma crônica que evoca até nosso paladar ! ;) obrigada pela visita ;)

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    2. Querida Rosifrance, bom saber que você conseguiu sentir o texto ... Sim, o jenipapo in natura evoca muitas coisas ... heheheh ... depois me diga o que vc achou. Abraço

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  4. Sentimento de nostalgia é o que me define, ao ler essa crônica.

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    1. e a nostalgia aí nessa crônica tem cheiro e gosto, não é mesmo? obrigada pela visita!!!

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    2. Ozani, espero que seja uma nostalgia que traga boas recordações para você ... ou o sentimento de liberdade que a ressignificação da nossa história pode sofrer ... Um abraço.

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  5. Texto lindíssimo, Vilton.
    Você sempre me surpreende.
    Bom intérprete, professor e amigo brincalhão e alegre.
    Agora se me apresenta como excelente escritor.
    Nunca estive no sertão, mas, através de tua sensibilidade, posso vê-lo, cheirá-lo e senti-lo.
    Do que já li a respeito, teu texto me remete como alegria a Grande Sertão Veredas e a algumas paisagens descritas em Casa Grande e Senzala.
    Muito obrigada e forte abraço.
    Anna Jácome

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  6. Texto lindíssimo, Vilton.
    Você sempre me surpreende.
    Bom intérprete, professor e amigo brincalhão e alegre.
    Agora se me apresenta como excelente escritor.
    Nunca estive no sertão, mas, através de tua sensibilidade, posso vê-lo, cheirá-lo e senti-lo.
    Do que já li a respeito, teu texto me remete como alegria a Grande Sertão Veredas e a algumas paisagens descritas em Casa Grande e Senzala.
    Muito obrigada e forte abraço.
    Anna Jácome

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  7. Texto lindíssimo, Vilton.
    Você sempre me surpreende.
    Bom intérprete, professor e amigo brincalhão e alegre.
    Agora se me apresenta como excelente escritor.
    Nunca estive no sertão, mas, através de tua sensibilidade, posso vê-lo, cheirá-lo e senti-lo.
    Do que já li a respeito, teu texto me remete como alegria a Grande Sertão Veredas e a algumas paisagens descritas em Casa Grande e Senzala.
    Muito obrigada e forte abraço.
    Anna Jácome

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