quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"Autobiografia", romance de José Luís Peixoto

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019) 
Enviado pela TAG Curadoria para seus assinantes em julho/2019
Conheça a proposta da TAG Experiências Literárias AQUI

A vida, que parece uma linha reta, não o é. 
(epígrafe da p.81)

Resenhar um romance de José Luís Peixoto não é fácil, ainda mais quando ele é inédito (foi encomendado especialmente pela TAG ao autor como item de comemoração dos 5 anos do clube de assinaturas). Não foi apenas José Saramago que ainda em vida declarou que Peixoto é "uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa e que é um homem que sabe escrever e que vai ser o continuador dos grandes escritores."* A crítica literária já o considera um dos grandes autores do século XXI e como somos da mesma geração (ele tem 44 anos e eu, 40), me sinto muito bem representada. Portanto esta resenha não me sai fácil, não.

E ainda temos o complicador instigante (gostaram dessa definição?) das boas características de uma prosa contemporânea da qual Peixoto domina todas as técnicas e entremeios. Estamos falando de uma mistura de todas as "metas": metalinguagem, metaficção. Mas também falamos de memória, de alteridade, da literatura em si (escrita/ autoria/ leitor/objeto "livro"/linguagem), do posicionamento desconfortável do leitor diante de um texto que nos "trai" a todo instante, da humanização de grandes pessoas/personagens que tem seu destaque na história de um povo, do questionamento e homenagem concomitantes ao que chamamos de arte literária.** O grande tema do romance Autobiografia (2019) não poderia ser outro mesmo: a própria literatura. E é por essa ousadia que Peixoto é tão genial.

Mas vamos ao seu enredo, se é que eu posso mesmo contar essa história e ao mesmo tempo ser digna da confiança de vocês, né? (olha aí eu manipulando meus leitores hahaha). Na Lisboa de 1997 mora José, um autor que já publicou seu primeiro romance (sem alcançar muito sucesso) mas que não consegue escrever o segundo. Um dia seu editor, Raimundo, procura-o para que escreva uma biografia de José Saramago, algo como um "texto ficcional de cariz biográfico"*** , acreditando que esse projeto possa tirar José de seu bloqueio literário. O jovem autor de 30 anos aceita o desafio, mesmo duvidando de sua capacidade. Essa dúvida só aumenta quando ele se encontra com o próprio Saramago para colher notas sobre sua vida, as quais utilizará para compor a tal biografia.

Com suas múltiplas vozes, a história também narra paralelamente os fatos (serão verdadeiros?) e memórias tanto de José quanto de Saramago, que a essa altura é um autor consagrado, casado com a terceira esposa, Pilar, está terminando de escrever um livro de memórias (Cadernos de Lanzarote) e percebe muito de si em José; além disso, Saramago possui um segredo, o qual quer revelar no momento certo ao jovem e confuso escritor.  

Orbitam a vida de José pessoas que de alguma forma o ajudarão nessa trajetória de redescobrir os meandros da escrita: o colonialista septuagenário Bartolomeu (que odeia o comunista Saramago), a jovem imigrante cabo-verdiana Lídia (que é fã de Saramago) e o alemão dono de livraria Fritz, de quem uma vez José roubou um livro - de Saramago! Cada uma dessas personagens traz suas próprias narrativas e memórias, que se amalgamam à narrativa de José - ou seria de Saramago? Percebem como os fios da metaliteratura nos deixa em território instável, porém instigante, como eu disse no início desse texto? E requer de nós, leitores, olhares mais que atentos: críticos.

Eu imagino que para um assinante da TAG Experiências Literárias, que se depara pela primeira vez com o estilo de José Luís Peixoto, não deve ter sido fácil percorrer este romance de 246 páginas, pois não é para ser lido de forma displicente assim como não dá para prever os rumos que o enredo nos leva. Se você o ler no futuro (já já sai a edição da Companhia das Letras, que fez a parceria com a TAG), sugiro atenção especial ao capítulo 20. É o capítulo mais lindo desse romance, pois aí reside sua essência, a qual gira em torno da eterna pergunta: de que fala a literatura? E como apresentá-la a alguém? Só ouso devanear sobre essas respostas em sala de aula, com meus alunos e professores beletristas.;)

Um adendo: se você também é assinante da TAG Experiências Literárias como eu e leu esse romance, deixa seu comentário aqui abaixo pra gente conversar um pouco, tá certo?


Como posso saber se eu sou eu ou eu? (p.215)

REFERÊNCIAS:

*Revista da TAG Experiências Literárias, p.5.

** Para beletristas que queiram conhecer mais sobre prosa contemporânea e a questão da metaficção, sugiro a leitura dos seguintes teóricos (alô alunos/ professores de Teoria e Crítica Literária):
1. HUTCHEON, Linda. Narcissistic narrative: the metafictional paradox. Canadá: Wilfrid Laurier, 2013.
2. BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.
3. SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. São Paulo: Civilização Brasileira, 2010.

***Essa expressão aparece de forma recorrente no romance Autobiografia.




domingo, 1 de setembro de 2019

Coluna da Aurora Elisa - Crônicas Tóxicas

SOBRE O SILÊNCIO EXTREMAMENTE INQUIETANTE

Não é à toa que muitas pessoas que nos rodeiam vivem um mundo de coisas e fatos a olhos vistos pelas redes sociais. Vivem para um mundo exterior. Mas muitas enfrentam um inquietante silêncio e vazio. Eu observo isso. Observo em mim e nos outros. Em mim consigo curar com os livros - quem sabe lendo-os, eu enxergo melhor o mundo à minha volta. Tem ajudado, claro, mas sei que esse conhecimento e auto conhecimento é inatingível plenamente, porque é interminável.

Eu conheço os silêncios inquietantes da alma. E por isso consigo identificar esse estado terrível nos outros: um ato desesperador de pular de parapente cura sua dor? Alugar uma Mercedes-Benz por um dia te faz feliz? Uma amiga te ligar no meio da noite te pedindo pra ir dormir com ela te deixa menos solitária? Socar um saco de areia na aula de Muay Thai por 5 min sem se dar conta e nem sentir exaustão aplaca sua fúria? Olhar incansável pela janela procurando entender a vida pregressa e ao mesmo tempo olhar pra baixo, sabendo que você está a 1.000m de altura, te alivia?

Não sabemos lidar com os silêncios. E é claro, muitas vezes eles não são silenciosos mesmo, e nem vazios. São cheios de palavras, vida contida, represada e retomada tantas vezes quanto necessário. Existe muita potência num olhar silencioso, numa fala silenciosa e num pensar silencioso. O silêncio nos inunda diariamente porque não sabemos viver com propósitos mais firmes; porque não somos fiéis a nós mesmos e ao que sentimos. Mas sabemos olhar. O que não aprendemos foi a enxergar.