domingo, 9 de junho de 2024

"Morrer ... ressurgir", artigo de José Nascimento Moraes.

Referência: MORAES, José Nascimento. Neurose do Medo e 100 artigos de Nascimento Moraes. São Luís-MA: SECMA / CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 1982. 372 pág. Coleção série Reedição.


 "Li, mas não compreendi bem, um famoso capítulo de uma ainda mais famosa obra de Le Dantec*, sobre os ancestrais, no qual nos ensina, numa linguagem algo transcendente, que uma existência se compões de muitas vidas. Concentrando-me, porém, num desses dias em que o espírito precisa de fugir por um preceito de higiene, das sediças preocupações diárias, para se livrar, torturado, num espaço, em que o cerquem nebulosidades a vencer, a penetrar, achei de mim para mim, raciocinando, recordando, que não devia ser muito arrojada a afirmativa do sábio, entregue, por vezes a cogitações tão profundas, que eu, que mal o vislumbro, astro do recanto de um esconso vale, sem amplo horizonte mental, diria, se me perdoassem doutos, que ele, ao par de formosas e rútilas páginas, que seus pares aplaudem, escreve com gênio, uma com metafísica quântica de rebrilhantes traços. 

Por que se há de surpreender o espírito com a envergadura do pensamento de Le Dantec, se nesta existência todo homem que moral e mentalmente progride tem, de verdade e de fato, muitas vidas?

A cada incorporação de novos ideais, de novos conhecimentos que determinem nova orientação na vida de cada indivíduo, não se dá uma decomposição moral e intelectual que é morte de princípios que se desprezam e o ressurgimento nesse mesmo indivíduo de outra personalidade? Esse homem que, ontem, aceitava a ditadura militar como necessidade política ao desenvolvimento de um povo de instituições desorganizadas, que se batia pelo ensino religioso, como o único capaz de bem conduzir a mocidade por largas estradas de cometimentos nobres; que se afadigava pelo divórcio, porque via nele franco acesso à dissolução da família, e que, hoje, é contra o militarismo, é contra o ensino religioso, e é a favor do divórcio, tudo isto por motivos fortíssimos que lhe radicaram no espírito novas convicções - não é positivamente outro homem? Não passou a viver outra vida? Não se nos apresenta com outra personalidade? 

Não morreu nesse indivíduo um perfil moral, uma fisionomia social, uma vibração cívica, por que se impunha dentro da coletividade? Não morreu nesse indivíduo uma ação, uma força? Não desapareceu para sempre uma diretriz? Não surgiu nesse homem outra energia política, dirigida noutro sentido para produzir novos efeitos, para levantar novas construções, para, de diferente modo, impressionar as multidões, para reagir contra aqueles mesmos preceitos que ele dantes houvera pregado com entusiasmo e desassombro, talvez?

Aquele erudito professor, ou douto evangelista que se desapegou de velhas doutrinas e teorias por que explicava o evoluir das gerações que se soterram, a origem do fluxo vital, as articulações e desarticulações das raças, para admitir outras doutrinas, outras teorias, para adquirir outra sistematização filosófica, outro critério científico, - não sepultou uma cultura, sepultando-se com ela, para ressurgir com outra armadura intelectual, aparelhado de novas concepções, com que se impele o espírito de seus dirigidos, adeptos e prosélitos à admiração de novos horizontes, e ao estudo de novas fórmulas, a impressionar-se com outros aspectos, derivando-se de tudo isto outras edificações que se projetam em novos planos?

Assim, a morte é mais que uma renovação. É mais ainda - uma restauração, se ainda não é mais - uma purificação!

Nesse apagar de uma forma moral e social, nessa extinção de uma energia intelectual - conjunto harmônico que forma o invólucro superior da individualidade, e nesse ressurgimento que se lhe segue, dá-se a eliminação completa de falhas estruturais, de protuberâncias anormais, de irregularidades de relevo e perspectivas assim na imaginativa e no engenho, como na linha de procedência moral, cívica e política.

Tudo ressurge no homem à luz de novos ideais, e pensamentos novos, ao poderoso influxo das novas correntes filosóficas e científicas.

Tudo ressurge no homem: a flora e a fauna! O céu, o mar e a terra que nele se refletem, a natureza transforma-se, como por efeito de uma magia extraordinária!

Apenas, de vez em quando, do interior dos misteriosos subterrâneos da alma, ouve-se o rugir dessa tormenta eterna que abala o ânimo e momentaneamente transmuda a fisionomia...

Morrer...Ressurgir!

Só ressurgem e progridem, e crescem e constroem os que morrem assim, pela reforma da cultura mental. Essa morte é uma dádiva da Providência, pois que garante "noutra vida"mais robusta produtividade.

Esses que ressurgem são os que escapam a essa tremenda Morte Moral de Pascal.

Felizes e grandes os que se vitalizam na aleluia dessa Ressurreição! "

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"Nascimento Moraes  pertenceu a uma geração sacrificada não apenas pelo insulamento em que vivia, mas sobretudo pela falta de condições sociais, como até agora ocorre, para o pleno exercício da função de escritor." (Nauro Machado, poeta e crítico literário maranhense)

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* Felix Le Dantec foi um famoso biólogo, pesquisador e naturalista francês do início do século XX, autor de várias obras, dentre elas "As influências ancestrais" (1904).

OBS: Os artigos escritos por meu bisavô, o jornalista e romancista José Nascimento Moraes (1882-1958), foram publicados em inúmeros jornais maranhenses da primeira metade do século XX, a exemplo de O Imparcial, Revista Atenas, Diário do Norte e Diário de São Luís, dentre outros. Grande parte da coleta de seus escritos foi feita, organizada e publicada posteriormente por seu filho, José Nascimento Morais Filho - meu avô.