sábado, 26 de setembro de 2020

"A preta Benedita", conto de Valério Santiago, pseudônimo de José do Nascimento Moraes.

 


(19/03/1882 - 22/02/1958)

Olá beletristas, leitores e amantes de um bom resgate das letras maranhenses, tudo bom? Compartilho com vcs um conto bem famoso do meu bisavô, o escritor, jornalista e cronista José do Nascimento Moraes. Em outro post escreverei falando melhor sobre sua vida e obra. Por ora, deixo-lhes na companhia de um texto inquietante, dramático e analítico no tocante à sociedade ludovicense pré e pós-abolição da escravatura: o conto "A preta Benedita".

**************

A PRETA BENEDITA

 

Conheci a preta Benedita na casa do meu colega de Liceu, Joaquim Alves Leitão. Era uma mulher de estatura regular, cara chupada, de movimentos ligeiros, olhos piscos e voz fanhosa. Benedita morava na casa de Joaquim. A princípio não me interessou a figura de Benedita. Cuidei que fosse a criada da casa.

 

Mas com o se passarem os dias, o ambiente familiar foi quem me desenhou o perfil moral daquela preta.

 

Estudávamos na varanda da casa dele, três vezes por semana, e três vezes na salinha de minha casa, porque os meus livros eram dele, e os dele eram meus.

 

Ao tempo em que andei pelo Liceu quase todos os estudantes da minha turma eram pobres mas muito amigos uns dos outros.

 

Ao princípio do ano, depois que recebíamos dos nossos professores as notas dos livros, reuníamos para dividir as despesas. Em regra geral cada um se encarregava de comprar um livro.

 

Se havia necessidade de comprar um livro caro, como um dicionário ou uma “tábua de Callet”, então o preço do livro era dividido por todos. À medida que íamos avançando no curso, os livros iam passando às mãos de outros estudantes pobres que se aproximavam de nós. E quando terminava o curso, os livros restantes era divididos pelos pobrezinhos, como nós, que vinham ao nosso encalço.

 

Reparei que Joaquim, seus dois irmãos e suas irmãs obedeciam e respeitavam a preta.

 

Benedita não se vexava de lhes passar carão, quando mal se conduziam. A dona da casa, D. Francília, tratava a preta como se fora uma de suas maiores amigas. Não foram poucas as vezes que as vi, debaixo da mangueira, no quintal, conversando a sós. 

 

Um dia, por motivo que não me ocorre agora à memória, falei à minha mãe a respeito da preta Benedita.

 

-      Benedita, respondeu minha mãe, é quem sustenta a casa de teu amigo. D. Francília foi uma senhora muito rica. Os seus pais eram ricos e rico era o seu marido, o coronel Leitão. Os pais de D. Francília empobreceram do dia para a noite.

 

De uma feita, deitaram-se ricos e, ao amanhecer, eram pobres. Os credores da casa comercial do coronel Alves, pai de D. Francília, levaram tudo que ele possuía. Naqueles tempos, a falência de uma casa comercial desonrava os seus chefes. A família Alves fechou as janelas do seu palacete. Naqueles salões não mais entrou a alegria. O piano de cauda ficou mudo. As meninas não frequentaram mais as famílias de suas relações. Iam com D. Francília à missa, pela madrugada. Passaram a trajar com maior simplicidade. As jóias, que eram muitas, foram fechadas numa velha caixa de pau santo.

 

O Coronel poucas vezes saía à rua. E o que mais doía ao coronel Alvez era que ele não tinha a seu lado aqueles velhos amigos do tempo das vacas gordas. Quando o Coronel morreu, D. Francília ainda não havia se casado com o coronel Leitão, que estava na crista da fama.  Era diretor de bancos e sócio de grandes empresas, inclusive uma de navegação.

 

D. Francília era muito bonita e prendada. Não sei como se namoraram. Diziam amigos da família que o namoro principiou no dia em que ele e alguns comerciantes foram ver o sobrado de sua mãe para comprar. 

 

O casamento surpreendeu a todos, porque, segundo constava, o coronel Leitão comprara o sobrado por um preço vil e que dois meses depois, falecera a viúva ralada de desgostos, porque o coronel Leitão se aproveitara de sua pobreza para arrebatar-lhe o único bem que lhes restava.

 

-      Não era o único bem, interrompeu meu pai.

-      Não era?

-      Não. O único bem ficou com a D. Francília.


Minha mãe não compreendeu.

E meu pai, depois de tirar uma cachimbada:


-      O único bem era a preta Benedita que os credores não quiseram avaliar, nem o coronel Leitão quis comprar quando a mãe de D. Francília, a pedido da preta, a ofereceu para ser sacrificada.

-      E depois?, perguntei curioso.

 

Meu pai continuou:

-      Depois o coronel Leitão entregou-se à paixão do jogo. E lá se foi o dinheiro todo. Vendeu tudo para jogar! No casino e numa saleta de sua casa enterrou ele todos os seus haveres. Nem os escravos de duas fazendas que ele possuía no Mearim foram poupados!

 

E depois de refletir um momento, meu pai continuou:


-      O coronel Leitão suicidou-se, vexado pela desonra e pelo descrédito. Num domingo, às 11 horas do dia, encontraram-no morto num sítio de sua propriedade, à margem do rio Cotim, para onde saíra a passeio, pela madrugada. D. Francília ficou com os filhos nessa mesma casa em que ainda hoje se acha, que fora de sua mãe e que o Coronel comprara por um preço vil e onde passara a residir depois de casado. Os amigos dos bons tempos desapareceram, as suas três irmãs, muito pobres, não a podiam ajudar. Casadas com homens pobres e sem posição arrastavam vida angustiada. 

 

Apenas uma criada ficara com ela – a preta Benedita. Chegou o 13 de maio de 1888 e os escravos abandonaram os senhores, a maioria a rogar-lhes pragas tremendas. Em algumas fazendas deram-se cenas desagradáveis. Senhores que eram carrascos foram humilhados.

Muitos feitores perversos e desumanos foram surrados e esbofeteados pelos escravos. Aqui em São Luís bandos de escravos percorriam as ruas gritando a esmo, ou cantando estrofes de cativeiro. Numerosos, embriagados, em grupos, passavam em frente da residência dos senhores e lhe dirigiam insultos e ameaças.

 

Muitas famílias pobres ficaram em uma má situação, porque os poucos escravos que haviam conseguido comprar a custo de muitos sacrifícios e privações, deixaram-nas sem se despedirem. Desses escravos, os homens eram operários e as mulheres trabalhavam em pequenas indústrias domésticas. Escravos e escravas “pagavam a semana” aos seus senhores, que pouco mais ganhavam em pequenos empregos.

 

Pela explicação de meu pai, compreendi que a escravidão, nas cidades, transformara-se num vício social. O não ter escravos era um indício de pobreza e desprestígio nas famílias. Pelo que as famílias pobres – mas que sonhavam com uma posição melhor, pelo casamento das filhas, não mediam esforços nem sacrifícios para possuir meia dúzia de escravos que, trabalhando em seus misteres de artesão, ajudavam-nas com uma contribuição semanal, ficando-lhes um terço do salário para suas despesas particulares ou reservadas.

 

Os agiotas tiveram então, dias de fartura de bons negócios. Empenhavam, amiúde, joias caríssimas que eram cuidadosamente guardadas pelos seus possuidores. Relógios suíços da melhor qualidade lhe eram oferecidos pelos que se viram cobertos de pesadas necessidades.

 

São Luís durante alguns anos depois da abolição apresentou um espetáculo sombrio...


A preta Benedita não se separou de D. Francília. Para ela não houve abolição. D. Francília alimentara-se de seu leite. Ela a carregara aos seus braços, durante a sua meninice. Dera-lhe os cuidados que não encontrara no regalo de sua mãe. Com ela perdera as suas noites, cantando-lhe modinhas para fazê-la dormir. Quantas lágrimas chorara por causa dela! Quantas vezes a arrebatara das mãos de sua mãe que, sem paciência, a queria bater por qualquer coisa!

 

A preta Benedita ficou. Depois que as joias de D. Francília foram para os cofres dos agiotas, levadas por ela, lá também se foram as suas.

 

D. Francília mal sabia ler e escrever, como os seus irmãos e irmãs! D. Francília não sabia trabalhar. Só a preta Benedita era capaz de trabalhar. E a preta multiplicou-se, num trabalho exaustivo. Fazia doces de todas as qualidades e todas as tardes saía a vendê-los num tabuleiro, coberto por uma toalha muito alva e muito fina.

 

Fazia gengibirra que era muito apreciada e de que tinha grande freguesia nas tavernas. Fazia doce de coco e vendia aos quilos nas casas das famílias. A canjica, o pé-de-moleque e o arroz de cuxá, davam bom rendimento.

 

D. Francília ajudava-a na casa, mas não aparecia nunca nesses negócios. A preta Benedita era quem enfrentava a luta. Adquiriu crédito nas tavernas e no mercado. Toda gente queria negociar com ela, porque era séria e pontual nos seus tratos. Por último, um português do Desterro fechou com ela um negócio lucrativo: fornecer o almoço e o jantar para os seus trabalhadores encarregados de vender carvão na cidade. A preta Benedita deu conta do serviço, a contento do português, que passou a emprestar-lhe o dinheiro de que precisava.

 

E as crianças de D. Francília frequentavam escolas particulares, bem vestidas. Não lhes faltavam livros, nem lápis, nem papel, nem caneta e pena. O Joaquim era um rapaz inteligente e estudioso. Era o segundo filho do casal e afilhado da preta Benedita, como todos os filhos de D. Francília. Mas ao Joaquim dispensava uma amizade especial.

 

Era a menina de seus olhos. Quando estudava na varanda, a preta arranjava sempre uma guloseima para nos dar.

 

As meninas precisavam de aprender piano. A professora era uma cantora francesa, casada com um maranhense de boas letras, que nas horas vagas fazia verso. Vivia de um bom emprego e tinha avultada renda de uns dinheiros que lhe deixaram os pais.

 

A francesa, porque não precisasse de ensinar, aos alunos que lhe apareciam, para terem o gabo de se apresentarem como discípulos de uma estrangeira, cobrava-lhes também a vaidade.

 

As moças “lamechas” de São Luís aprendiam com ela.

 

A preta Benedita não consentiu que as filhas de D. Francília aprendessem a tocar piano com outra professora.

 

O Joaquim assim que acabou o curso de preparatório, foi para Recife estudar Direito. Assim o quis a madrinha.

 

Quando a preta Benedita, muito alcançada em anos, morreu vítima de uma beribéri galopante, D. Francília já sabia trabalhar. Era uma senhora cheia de experiências úteis à vida. Sabia fazer tudo, até cozinhar e coser. Auxiliada pelas meninas tomou de conta das pequenas indústrias e negócios com que a preta durante quinze anos sustentava a casa.

 

O Joaquim bacharelou-se e voltou a São Luís, para tomar conta da família. As irmãs por seus merecimentos intelectuais faziam parte da boa sociedade. A professora casou-se com um violonista pernambucano, de grande fama. A pianista casou-se com um notável professor de São Paulo. A mais velha, depois de se casar com um alto funcionário federal, formou-se no Rio em Odontologia. Eram moças sóbrias de gestos, prendadas e de boa conduta.

 

Os dois irmãos de Joaquim colocaram-se bem no comércio de São Luís, de onde saíram como guarda-livros, um para Belém e outro para o Amazonas.


D. Francília ficou em companhia do filho que durante dois anos fez clientela nesta cidade.

 

Por sua morte [da mãe], o Joaquim foi residir em São João da Barra, no Rio. De uma feita, conversando comigo sobre os lances da vida de sua família, abriu a camisa e mostrou-me uma corrente de ouro cravejada de brilhantes e engastado nela um retrato.

 

-      A preta Benedita!, exclamei.

 

O retrato era perfeito. O retrato ele mesmo tirara, no quintal de sua casa, um domingo, pela manhã, para pilheriar com a preta. Ela estava com seu cabeção de mangas curtas, muito justo no pescoço. A cabeça branca contrastava com a pele negra. Os olhos pequeninos, numa expressão de contrariedade. As mãos apoiadas nas cadeiras e o lábio inferior torcido para o lado esquerdo. Ficamos os dois a olhar para a preta e com o espírito transportado para muitos anos atrás.

 

-      Sabes o que ela me disse nesta postura?

-      Não sei...

- “Seu Quinca você quer fazer de mim uma palhaça? Espere que eu vou dizer à sua mãe o pedaço de atrevido que você é!”... E eu por causa desse retrato quase pego uma surra!

 

E guardando o retrato:


-      Cada um de nós tem um retrato deste. Vou mandar ampliar o meu para colocar no meu quarto de dormir.

 

E com muita saudade:


-      Minha mãe Benedita! Minha mãe e minha avó, porque foi também a mãe de minha mãe! Bebemos o teu leite, bebemos o teu sangue, arruinamos as tuas energias e escravizamos a tua alma! O que nos poderia dar mais?

 

E seus olhos, cheios de lágrimas, derramavam-se sobre o retrato da preta.

 

Valério Santiago, a.k.a José do Nascimento Moraes.

 

GLOSSÁRIO ÚTIL:

 

1. gengibirra = 1. espécie de cerveja de gengibre, cuja composição inclui, além de gengibre, frutos, açúcar, ácido tartárico, fermento de pão e água; cerveja de barbante.2. aguardente de cana; cachaça.

2.“tábua de Callet” = referência ao famoso livro de logaritmos do matemático francês F. Callet.

3.beribéri = polineurite devida à carência de vitamina B1 ( tiamina ), caracterizada por distúrbios sensitivos e motores (paralisia esp. dos membros inferiores), circulatórios (formação de edemas, problemas cardíacos) e secretores.

 

4.guarda-livros = empregado do comércio, ou profissional autônomo, que tem por função fazer o registro da contabilidade e das transações de uma empresa de negócios, escriturando seus livros mercantis [Atualmente substituído pelo técnico em contabilidade, ou, quando se exige nível universitário, pelo contador.].

 

5.cabeção = camisa de mulher, inteira e com mangas, usada como roupa íntima.

 

 

Referência: MORAES, Nascimento. Vencidos e Degenerados & Contos de Valério Santiago.São Luís: SECMA; SIOGE, 1982. Edição esgotada. 


Em tempo: Os contos que compõem essa obra foram escritos e publicados originalmente nas primeiras décadas do século XX e em jornais da época, como O Diário de São Luís, A Tribuna e Correio da Tarde. Seu filho, o poeta Nascimento Morais Filho pesquisou largamente a obra de seu pai, reunindo-a e (re) publicando-a postumamente, uma vez que resgates literários precisam ser feitos sob pena de um ingrato esquecimento. Mas eu, como crítica literária, penso ainda além: é necessário resgatar as boas letras para as gerações de leitores que nascem a todo instante, sob pena de renegarmos nossa cultura por meio da ignorância. 


Em tempo 2: Valério Santiago era apenas um dentre tantos pseudônimos utilizados por Nascimento Moraes; por sofrer perseguições políticas e racistas, essa era a estratégia utilizada por ele para sobreviver da "pena" (ou seja, de sua escrita). Outros pseudônimos são: João Sem Terra, João Ninguém, Braz Sereno, Braz Cubas e Zé Maranhense. Com certeza Nascimento Morais Filho teve um grande trabalho ao pesquisar os contos e crônicas de seu pai, vcs não concordam?


Natércia Moraes Garrido

  


terça-feira, 8 de setembro de 2020

"O riso de Inês", conto de Luciana Frank

 


Limpava distraidamente o balcão de madeira envernizado, quando a avistou ao longe. Tirou a mecha de cabelo que impedia uma visão mais completa e pôs-se a contemplá-la. O seu andar elegante, seu porte de bailarina, o caminhar harmonioso na ponta dos pés combinavam com toda aquela beleza.

Soube que ela se chamava Inês assim que a atendeu naquela primeira vez que a viu entrar ali como uma desculpa para fugir da chuva fina que caía. Agora virou freguesa assídua, gostava de ir à padaria pontualmente às cinco da tarde e ele se adiantava para atendê-la. Pedia sempre a mesma coisa: um café preto e um croissant de queijo. Nenhuma novidade além do estilo e da cor das roupas. Usava sempre o mesmo penteado. Cabelo preso em um coque no alto da cabeça que deixava escapar alguns fios sob a nuca, óculos de aros quadrados, carteira de cigarros incompleta, um isqueiro de prata com duas iniciais que colocava em cima da mesa e os constantes suspiros saudosistas.

Notava algo que talvez passasse despercebido para os freqüentadores da aconchegante padaria de arquitetura colonial. Com o papel de pedidos na mão e a caneta segura pela orelha, notou que Inês tinha os olhos mais tristes que já viu em alguém. Grandes e bonitos, mas opacos e sem vida. Ouviu dizer nas entrelinhas das conversas, que antes de tudo acontecer, Inês era outra. Uma moça cheia de vitalidade, que mantinha os cabelos soltos, livres como uma moldura vasta e selvagem no rosto oval. Sua tez era morena, não pálida. Os olhos cheios de alegria e a gargalhada desenfreada e sonora. Espalhafatosa. Um dia seus lábios foram pintados de vermelho e não formavam a linha rígida que se mostrava agora. Inês gostava de rir?

Sim. E alto.

Aliás, a gargalhada que dava era sua marca registrada.

De acordo com algumas informações aqui e acolá, descobriu que era aspirante a cantora e atriz de teatro. Porém, só conseguira soltar sua voz nas noites boêmias em pequenos estabelecimentos esfumaçados e barulhentos. Diziam que cantava bem, de uma forma sensual, lembrava a Elis Regina. Mas o que os homens notavam mesmo era seu corpo cheio de curvas, em vestidos justos, se insinuando atrás do microfone no meio do tablado empoeirado de madeira. No teatro, gostava de encenar mocinhas ou vilãs, bruxas ou fadas, ou o que colocassem para ela fazer. Não possuía aquela ânsia em querer se mostrar mais que qualquer pessoa. Queria mesmo era aquela sensação de estar em um lugar que parecia ter vida própria, respirar com seus próprios pulmões, que palpitava a seus pés. O palco de um teatro. Mesmo que seus olhos vissem inúmeras cadeiras vazias, sua alegria continuava vibrante e a gargalhada solta que chegava a incomodar pela felicidade que transmitia. Cada poro de Inês sorria.

Anos mais tarde, ela se casou. Falaram que foi com um admirador e freqüentador assíduo das peças que participava. Um rapaz de boa aparência e família. Os amigos sentiram sua falta por muito tempo. Inês nunca foi alguém fácil de ser substituída. Sumiu por uns tempos, como se estivesse experimentando outros ares, depois reapareceu completamente diferente do que foi um dia. Arrancaram a pele que recobria Inês, o que viam era o que tinha por dentro. Um coração gelado em uma fajuta postura de mulher casada.

O que ficou sabendo, nas constantes conversas sobre sua mudança, era que seu marido reprovava suas atitudes, sua voz, obrigando-a a calar. Que se incomodava com sua risada, repreendendo seu tom alto, a forma alegre que falava, recriminando-a por parecer infantil, seus cabelos soltos que não lhe davam um ar sério de mulher casada.

Chorava angustiada pela dor de cada pena que lhe foi tirada no silêncio dos olhos que recriminavam. No início, ela teve suas asas disfarçadamente aparadas. Depois, cortadas e arrancadas de forma cruel. Até que o que sobrou foi uma mulher magra, de ossos longos de postura curvada, derrotada, de olhos tristes e fundos. Não mais saía, aprendeu a temer a noite que antes tanto a atraía, enxergava a vida através de uma janela de vidro embaçada pela chuva que caía fora de si e escorria por dentro.

Inês já não era o que foi. Já não lembrava o que a fazia feliz, como se fosse algo que ofendesse quem tivesse a seu redor e por mais que encenasse um pequeno ato na frente do espelho do quarto, envergonhava-se de sua ousadia em voltar a tentar a fazer o que havia sido proibida, a recolher as migalhas de um passado negado.

Todavia, mais tarde veio a separação. Ouviu dizer, aos cochichos, que seu recente ex marido não mais aturava uma alma sem fôlego, uma mulher que não ria, que não conseguira emergir de um mar revolto, um corpo frio e rígido ao seu lado na cama. Assumiu uma moça mais jovem, não em idade, porque Inês ainda era jovem, nem beirava os quarenta. Mas, a outra tinha presença de espírito, a pele corada, viva.

Assim voltou Inês para sua antiga casa e bairro que acolheu sua infância, carregando uma mala de couro e segurando um cachorro pequinês. Encontrara muitos de seus antigos moradores, mas parecia que não os conhecia, acenando por educação, sem querer encompridar o papo. Sempre que a avistava atravessar a rua para entrar na padaria, ele sorria para ela. No início, ela não lhe retribuía. Timidamente, fazia seu pedido como se ele já não o soubesse de cor. Seu olhar inquisidor, ávido, vasculhando o ambiente, porém com uma pequena e derradeira inquietação por detrás da tonalidade incomum de verde. Um sorriso meio de lado, que queria se abrir.

Chegava a ter certeza que a antiga Inês retornaria, assim como a história da Fênix que ressurgia de suas próprias cinzas. Ainda mais bela, com a voz mais bonita e experiente, com o encenar mais incorporado, mais real. Era apenas uma questão de tempo, como o bater de asas de pássaros inquietos presos em um viveiro no meio de um jardim de inverno, que nunca chegaram a ser o azul do céu. Esperando uma brecha, um descuido, um passo em falso, uma oportunidade para alçar voo novamente.

E rir baixinho, até gargalhar. Desta vez, mais alto.












*Luciana Frank é uma jovem escritora maranhense, com uma escrita sensível e tocante. Esperamos que tenham apreciado este momento literário aqui no blog ;)

 Natércia




terça-feira, 1 de setembro de 2020

"Uma noite, Markovitch", romance de Ayelet Gundar-Goshen

 

(São Paulo: Todavia, 2018) Lido no Kindle. 355 pág.

"E tamanho esforço, certamente, não era sinal de indiferença. Era sinal de ódio. Aquela ideia consolava um pouco Iaakov Markovitch, pois ele sabia muito bem que o contrário absoluto do amor não era o ódio, e sim a apatia." (p. 242)

A leitura que vou indicar hoje foi escolhida e debatida mês passado pelo meu clube de leitura, portanto indicada por uma de nossas integrantes, a Sara Serra, que além de ser enfermeira é uma grande leitora. E que indicação maravilhosa! Ela foi ano passado para a FLIP e, dentre outras experiências literárias, Sara conseguiu assistir uma mesa redonda em que estavam duas jovens autoras: a israelense Ayelet Gundar-Goshen e a nigeriana Ayòbámi Adébáyò. Apesar de vindas de culturas diferentes, ambas conversaram sobre a posição da mulher em uma sociedade tradicional, sobre família e sobre como criar laços em meio a conflitos sócio-políticos. Durante a FLIP, Goshen lançou seu romance "Uma noite, Markovitch", que na verdade já havia sido publicado em terras internacionais desde 2012.

"Uma noite, Markovitch" é o romance de estreia de Ayelet Gundar-Goshen. Escrito de forma leve e bastante poética, possui pitadas de realismo mágico, aproximando a narrativa a uma fábula contemporânea. Quando eu digo "leve" não quero dizer que não possui temas conflituosos e espinhosos sendo tratados na história; mas o tom irônico muitas vezes atenua a dor e a desgraça com que as personagens principais vão se deparar em suas sagas. Porque sim, é uma saga, e esta se inicia pouco antes da 2a Guerra Mundial e no contexto de perseguição aos judeus.

Ao escapar de uma aventura sexual e da iminente vingança mortal de um marido traído, Zeev Feinberg, o agricultor mais popular e bonito de uma colônia agrícola da Palestina, foge para a Europa com a ajuda/ intervenção de seu amigo Efraim, o vice-comandante do Irgun (uma organização militar israelense). A proposta de Efraim é que Feinberg integre uma missão de resgate de mulheres judias e case-se com uma delas lá, para depois voltar e divorciar-se da moça em Tel Aviv. Dessa forma ele e tantos outros judeus palestinos estariam ajudando a salvar judias da crescente perseguição nazista. O grande amigo de Feinberg, o insípido e feio Iaakov Markovitch, acompanha-o nesta missão sem nenhuma expectativa, e é por isso mesmo que o destino lhe surpreende com um golpe de sorte: reserva a Markovitch a mulher mais bela do grupo para casar, Bela. O que ocorre é que na volta, ao contrário de seus companheiros que cumprem o acordo, Markovitch recusa-se a se divorciar decidindo manter Bela a seu lado contra sua vontade.

Poderíamos pensar a partir desse fato que Markovitch oprimiria Bela continuamente, porém ele a respeita, mantendo-se inclusive afastado dela, dormindo em cômodos separados da casa, esperando passivamente o bom momento em que nela crescesse a semente do amor. Aceita inclusive que Bela leve a vida que deseja: ela chega até a passar dois anos fora da colônia agrícola vivendo suas próprias experiências. Mas volta pois engravida e percebe que o mundo não é exatamente aquele pintado pelos poetas.

O realismo mágico do qual mencionei se mostra nas sutilezas da narrativa, extremamente sinestésica e  carregada de cheiros: Sonia exala o cheiro da laranja, tão cultivada nas colônias agrícolas de Israel e da Palestina. O bigode de Feinberg parece ter vida própria também. As frutas e a terra tem o cheiro do sangue e da conquista, aspectos intrínsecos à vida dos habitantes daquela região. 

O romance em si narra a saga não só de Feinberg e Markovitch, mas das pessoas que estão à sua volta: a esposa de Feinberg, Sonia; Rachel Mandelbaum e seu marido Avraham, o açougueiro local; e Efraim. Todos eles passarão por traumas que existem ali no contexto que falei anteriormente: o trauma das guerras, das perseguições, das desesperanças e o desafio dos recomeços. Apesar de à primeira vista Markovitch se resignar a um papel secundário nas vidas daquelas pessoas, ele se mostra importantíssimo por suas atitudes e falas; é aí que percebemos suas maiores características: a persistência, a capacidade de amar, de ter fé, de perseverar e sua lealdade. Mas tudo isso não livra Markovitch da solidão permanente que ele terá que enfrentar na vida. 










domingo, 2 de agosto de 2020

Jenipapo, crônica de Vilton Soares

É assim com nossa memória. Numa dentada ela se assanha e fica lá espalhada. Aí vem o desafio de fiá-las e confiar-se nas lembranças... e escrevê-las. De um tempo para cá venho pensando que revisitar e ressignificar o passado é a melhor maneira de subvertê-lo, para mantê-lo vivo... Pois foi assim hoje de manhã...


Jenipapo do café da manhã de hoje

                     Por conta da pandemia e graças ao trabalho remoto pude revisitar minha mãe. Como tudo que se liga a ela é generoso e farto, visitá-la significa reviver três mundos: Recife, Garanhuns e o Sertão, esse cada vez mais verde, perfumado e menos autêntico nas minhas memórias.
(In)felizmente essa fartura também se realiza em mesas cheias e refeições em continuum, como o rio das nossas histórias.
              Julho é mesmo um mês mágico no Sertão... é cheiroso ! Vejo  bodes e cabras brotando de moitas verdes e espinhosas, aves de rapina coloridas saciadas, nuvens carregadas e o caudaloso Velho Chico ainda gerando energia elétrica com um canto raivoso e sofrido... 
               Tudo isso é lindo ! Há um portal mágico formado por sete colinas que protege esse mundo... para dele desfrutar tenho que enfrentar os montes Sinai, Triunfo, Columinho, Ipiranga, Antas, Magano e Quilombo, no planalto da Borborema. Por esse frio jardim edênico penetro um mundo controverso e tenso e que exige de mim muito amor e condescendência para compreendê-lo, um real exercício de alteridade...
                        ... que sempre começa em Recife, passa por Garanhuns e desta vez terminou em um mergulho nas caixas de fotos preto e branco da minha mãe, onde eu procurei detalhes dos ascendentes familiares para colorir a memória e dar liga à minha genealogia. 
Uma mãe ainda menina, com traços fortes e em pose de professora entre alunos circunspectos... nunca poderia imaginar que aos 20 anos uma mulher pudesse tanto no Sertão dos anos 50 e 60 do século passado, mesmo sem poder...
          Em um mergulho mais profundo no tempo fotográfico revelam-se 13 rostos instigantes que parecem prenunciar a minha avaliação 60 anos depois... que diálogo tenso ! Sinto um frisson: (des)culpa, pesar, brio, dignidade e honradez, tudo misturado. 
Com um olhar mais perspicaz vejo os 13 dispostos em duas filas, em dois planos, no segundo, de pé, formada pelos meus tios de terno e gravata, ainda não aparentando nem ter enfrentado 20 verões, e em primeiro plano, sentados, as tias, meus avós, minha mãe e um tio-menino ... curioso ver a distribuição dos que estão no primeiro plano, três à direita e três à esquerda da figura central: minha avó. Cena linda !
                Pronto ! Estou falando da difícil tarefa de compreender a força feminina nesse mundo contraditório... minha avó e 11 filhos, mas ela ao centro. Todos altivos, mas sisudos... majestosos apesar da cultura, da política, da economia, da história, de tudo.
                 Diante de cada foto eu perguntava “mãe, quem é esse ? E essa ? E isso? Quando foi ? Onde foi tirada essa foto?” e as respostas vinham de um lugar orvalhado:   “era a minha melhor aluna, mas fugiu com um homem”, “eu gostava tanto dela, mas nem sei se ainda está viva”, “ele era bruto, mas não nos deixava faltar nada”, “a bichinha sofreu tanto, mas foi feliz”... aí eu ressignificava aquela posição central da minha avó na foto...
               Tudo aquilo jogava luz nas minhas memórias de infância. A construção de grandes hidroelétricas na bacia do Rio São Francisco nos anos 60 e 70 do século passado havia atraído profissionais dos mais variados lugares do Brasil e do exterior, o que criou um cadinho intercultural efervescente em um contexto de muitas tensões traduzidas na escultura do Touro e a Sucuri ou próximas de um Duelo de Titãs. 
 A cidade(zinha) totalmente planejada, cercada e ilhada dispunha de escola com professores e colegas das mais diversas partes do Brasil, o que nos permitia muitas aprendizagens. Nos encontros nos clubes e nas piscinas reabastecíamo-nos de energias e aprendíamos a resiliência e a importância de se lutar contra as fronteiras, que eram muitas. Superar os limites só era possível ao reunir os amigos para ver a chegada de helicópteros afugentando e repelindo as cabras, o calor, as distâncias e a terra seca. Ir ao cinema e prestigiar nomes da cena cultural nacional no clube da cidade eram sopros de esperança na transposição de tantas barreiras ... esse ambiente antinômico punha em contraste a seca e a penúria de um dos Sertões à opulência das águas e abastança, de um outro. 
             Era comum ouvir e ver mulheres em situações de comando, nas casas, na escola, nas usinas, nas aulas de natação do clube, protagonistas em muitos casos de divórcios, histórias de traição... como eu gostava de ouvi-las... muitas assalariadas, conduzindo carros, até mesmo engenheiras, em pequeno número. É difícil (re)ler essas fotos e pensar na condição feminina dentro dessa microssociedade : “ele era bruto, mas não nos deixou faltar nada”, “a bichinha sofreu tanto, mas foi feliz!” ou referindo-se a um “ela não tinha nada” concluía-se com “... e perdeu tudo que tinha”. 
        O Sertão que me constitui e que carrego em mim é discordante, divergente e inverso do que li e ouvi sobre esse mundo, e do que sinto e vejo. Precisa ser reescrito. E, todas essas memórias vieram à tona hoje no café da manhã no “portal do Sertão” quando uma voz doce quebrou o meu deleite com o gole de café quente e me propôs “quer um jenipapozinho? Está na época !”. 
Pronto! Outra memória do baú escondido: Jenipapo ! A fruta in natura,  não é o licor ou o doce ... Ao sentir o cheiro putrefato e tentador, o sabor acrimonioso da fruta crua na boca ... veio todo o Sertão em mim: agrura-deleite, amargo-doce, verde-podre, morto-vivo, satisfação-aflição, vida-morte, (des)encanto ...


Garanhuns - PE, 12 de julho de 2020.

* Vilton Soares (viltonsoares@ifma.edu.br) é Professor de Português e Francês do Instituto Federal do Maranhão - IFMA e Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP); é pernambucano de nascimento e maranhense de coração, onde reside há vários anos. É um ser humano incrível, de sensibilidade e perspicácia aguçadas; por seus olhos e em seu íntimo navegam memórias de tempos de outrora. Espero que tenham gostado desse texto, o qual nos faz retomar memórias e analisar as ambiguidades que constituem nosso complexo ato de existir.

Beijos,

Natércia