domingo, 31 de março de 2019

Coluna da Aurora Elisa - Crônicas tóxicas (DOMINGO 31.03.2019)

Domingou, né gente? E eu aqui, hoje, estou um pouco amarguinha porém continuo irônica, que é o que nos faz seguir adiante sem causar tantos conflitos. Ou não.

Eu já desisti de entender um fato: por que os homens são tão suscetíveis aos sofrimentos das mulheres de fora, e não das mulheres de dentro? Explico. As mulheres de dentro são as mulheres que estão no seu convívio social de rotina - tipo a namorada, a mãe, a tia, a irmã etc. As mulheres de fora são aquelas mulheres que os homens encontram rapidamente no dia a dia ou passam pouco tempo. Então, sem excluir a importância de TODAS, o fato é que, ME parece A MIM que, eles se comovem mais com as vidas sofridas - que é de nós TODAS - das mulheres de fora. As quais eles não tem tanto contato.

Um amigo meu, o Lino, é assim. Uma vez, a então namorada dele, Michele, veio me dizer que ele comprou um par de sapatos de uma colega da faculdade pra ajudar a moça. Detalhe: Lino não tem dinheiro e vive reclamando que está no limite de suas finanças. Outro detalhe macabro: Lino está terminando a faculdade de Economia. Acreditem se quiser. Pena da mãe dele ele não tem, que trabalha dia e noite dando aula na rede pública e paga a faculdade dele. Pena da Michele ele não TINHA, que trabalhava o dia inteiro pra pagar a faculdade de Direito, que ela cursava à noite.

Como a Michele também não gostava da moça que vendia sapatos, quando ela soube disso, ela terminou com o Lino, porque a gota d'água foi ele dizer: "Eu só estava tentando ajudar a moça." Lino, meu filho, pare de tentar ajudar a moça - ou aliás, ajude a moça, mas ajude também sua mãe e sua namorada. Ops, ele não tem mais namorada. E me disse que, apesar da moça-vendedora ser muito bonitinha, ela não tinha ambição, por isso não tinha futuro.

Pois é. Vai entender o Lino. Ou a pena dos homens.

domingo, 24 de março de 2019

Coluna da Aurora Elisa - Crônicas tóxicas (DOMINGO 24.03.2019)

Olá querid@s, tudo bom? Como passaram a semana? Por aqui a semana continuou recheada de toxicômanos - no sentido neurótico da coisa.

Gente, eu sou mulher e gosto de me arrumar e andar de salto etc Tudo bem feminino. Mas tô sofrendo horrores com a minha vizinha do apartamento de cima porque todo dia, às 8h da manhã,  a bicha começa com aquele toc toc infernal! Quem aguenta? Vizinhos tóxicos, essa é a questão. Quem nunca?

E outra: esse problema tem se arrastado já há um ano. Já falei com a síndica, que foi lá chamar a atenção e nada da vizinha parar de andar de salto no apartamento todo. Eu sei quando ela está na sala, no quarto, na cozinha, um inferno! Só de ouvir o barulho irritante do toc toc do salto. 

Mês passado interfonei pro apartamento dela. Toda educada - o que não é meu forte - falei:

"A senhora precisa parar, por gentileza, de andar de salto no seu apartamento, pois está me incomodando muito. Moro no 202 e não consigo dormir mais depois das 8h com esse barulho todo." E sabem o que ela me respondeu com a voz toda fanha, igual a uma atendente de telemarketing? 

"Você está equivocada, não sou eu. O barulho deve vir do apartamento de baixo." Que ódio! Queria subir com o cabo do rodo para dar na cara dela. E jogar todos os sapatos dela lá embaixo. Pelamordedeus, tortura define.

Só tem um período que o barulho melhora: quando o marido dela, que é médico e trabalha no interior, chega. Como milagre, acaba o barulho! Claro, ela não deve andar em casa para não incomodar o bendito. Quando ele passa a semana em casa, não escuto o toc toc.

Mas não foi o caso DESTA semana. Às 8h como sempre, começou o inferno do salto. Decidi agir por conta própria. Eu peguei o cabo do rodo e bati no teto, insistentemente. Ela andava na sala, eu cutucava com o rodo; ela ia pro quarto, eu cutucava com o rodo; e por aí vai. Vocês acham que sou louca? 

Se funcionou? Claro, funcionou. Vai ser assim agora: barulho por barulho. Dente por dente. E agora o rodo dorme no meu quarto. Virou minha arma doméstica.

domingo, 17 de março de 2019

Coluna da Aurora Elisa - Crônicas tóxicas (DOMINGO 17.03.2019)



Oiiiiiiiii seguidores da Natércia! Sou Aurora Elisa Prado, escritora e observadora de um cotidiano cachorro, desses que atropelam a gente todo dia e nem percebemos. Pois é. Quero agradecer esse espaço que a beletrista me deu né, sou tímida por demais e não ia conseguir mostrar minha cara por aí mesmo. Nat, para os íntimos, está fazendo doutorado em SP, tá doidinha a bichinha; ela disse que eu podia usar esse espaço DE VEZ EM QUANDO. Claro, o espaço é DELA  e eu entendo esse apego dela ao blog, que já tem 9 anos. Obrigado Nat. Por sua gentileza. E por exercitar o desapego temporário.

Já que somos amigas, vou falar e sei que ela não vai censurar minha primeira crônica por aqui. Gente,  Nat é muito chata - sabe o tipo de pessoa que você olha e pensa: como é que existe pessoa linda e inteligente nesse mundo, meo deosssss? É de deixar a gente revoltada com o plano superior, porque só existem duas categorias de mulheres pra mim: as feias e inteligentes x as bonitas e burras. Já vi que vocês não vão concordar comigo. A Nat sai do padrão desse pensamento milenar e culturalmente discriminatório porque ela é linda e inteligente. E se você a conhece pessoalmente vai saber que ela ODEIA ser chamada de linda. A VIDA DELA É SER INTELIGENTE. E como ela pratica....

A verdade é que num mundo em que vivemos pelo julgamento do olhar do outro, fica um pouco complicado pensar diferente sabe, pensar fora da caixa. A verdade é que o que sempre existiu no mundo foi mulheres. Quem nos coloca nesses padrões e categorias ridículas e que levam a uma competitividade desnecessária entre mulheres são a cultura, a sociedade, um mundo dominado desde sempre pelos homens. Pensar que seu namorado tá paquerando com a menina do lado e não querer dar um tapa nela é difícil. Porque quem merece o tapa é ele. Pensar que você pode fechar o botão do vestido da colega pra ela não passar vergonha na rua é difícil, porque você quer que ela pareça mal na fita, afinal de contas, quem mandou ela morar sozinha e não ter ninguém pra fechar o vestido? Bem feito pra essa mal amada.

Outro dia fiquei estarrecida com uma história. Tomando café com uma amiga, a Teresa, ocorreu dela abrir uma foto minha no Instagram e perguntar se eu conhecia determinada menina. Nessa minha foto estava um grupo de amigos. Eu disse que sim, que a menina que estava na foto era namorada de um amigo meu, e que não, ela não era minha amiga, mas eu a achava muito legal, aparentemente:

TERESA: Eu ODEIO essa menina aí.
EU: Como assim? De onde tu conhece ela?
TERESA: Meu ex-namorado me trocou por ela alguns anos atrás. Ela ACABOU com a minha vida. Por isso odeio ela.
EU: Olha, se tem alguém que não merece teu ódio, que aliás é uma palavra muito forte, é essa menina. Tu tá odiando a pessoa errada. E outra: se ela não tá mais namorando teu ex e sim o Adelmo, sinal de que teu ex não foi bom nem pra ela. Ódio de mulher por causa de homem é perda de tempo. Vai procurar um psi.

Cortei logo na raiz. Vocês entendem agora como é difícil mudar um padrão de pensamento tão arraigado e tão machista? Eu nem consegui acreditar no que Teresa me dizia, e tenho certeza de que naquele dia ela despertou pra um outro olhar. Um olhar de auto valorização, porque ninguém merece ser odiado por outro sem saber. E ninguém merece odiar uma pessoa sem motivo. Ou por causa de um homem vacilão, que é pior ainda.

Anos pensando de forma tóxica fizeram com que Teresa acordasse para a realidade naquele dia. Porque eu não poupo minhas amigas dos meus pensamentos. Não vou poupar vocês também, a partir de hoje. Eu não poupo nem você, dona Natércia, a rainha da razão. Sua inteligentona. E linda. E chata, claro, porque ninguém é perfeito e ninguém tem sempre razão. Pronto. Disse.

terça-feira, 12 de março de 2019

"A uruguaia" - Pedro Mairal

(São Paulo: Todavia, 2018) compre aqui

"Ninguém é somente uma pessoa, cada um é um nó de pessoas..."

Olá beletristas! Tudo bom, gente? Trago mais uma indicação de leitura que eu tenho certeza que vcs vão gostar - um romancinho curtinho do autor argentino contemporâneo Pedro Mairal: "A uruguaia" (123 pág.) Essa leitura chegou pra mim de uma indicação de uma amiga do clube de leitura (segue lá no Instagram @littlewomen_clubedeleitura) e eu comprei e li no Kindle.

Originalmente o romance foi publicado em 2016 e já alcançou sucesso de crítica, tendo sido traduzido para inúmeros idiomas também. O autor tem 49 anos e é considerado um dos grandes nomes da literatura latino-americana da atualidade. Se a história flui muito bem, a leitura idem, até porque entrega muitas referências do nosso mundo cotidiano, especialmente se vc leitor também tem a mesma idade e os mesmos gostos e desafios do narrador-personagem Lucas Pereyra- coisas de gente que chegou aos 40 anos.

Lucas conta a um interlocutor, de forma despretensiosa, sobre um dia que ele passou no Uruguai a fim de resolver negócios financeiros pois possuía conta bancária lá, e não na Argentina: ele deveria sacar uma soma alta de dinheiro, algo em torno de 15 mil dólares, que foram enviados por 2 editoras como adiantamento para que Lucas escrevesse 2 livros, um de crônicas e um romance. Afundado em dívidas e vivendo um casamento que não lhe satisfazia, o narrador começa a expor suas frustrações e angústias misturadas com memórias de relacionamentos anteriores e de sua vida familiar enquanto aguarda o fim da viagem de ferryboat para chegar em Montevidéu. 

Ficamos, claro, na expectativa de que algo vai acontecer com Lucas quando ele tiver sacado todo esse dinheiro e depois retornar à Argentina - que era o plano inicial. Percebemos, com o desenrolar da história, que Lucas tem mais outros interesses no Uruguai que não sejam apenas os financeiros e profissionais. Por exemplo, (re) encontrar-se com uma bela uruguaia, Magalí Guerra, que do alto de seus 20 anos seduziu Lucas, um quarentão imaturo, alguns meses atrás quando ambos se conheceram em um congresso de Literatura. O que acontecerá nesse dia em Montevidéu, será, sem brincadeira nenhuma, uma grande sucessão de erros, acertos e ingenuidades. E algumas lições.

Mas não pense que esta é uma história amarga e melancólica de um quarentão egoísta que fica o tempo todo reclamando do que não deu certo em sua vida, ou de que não estava preparado pra ser pai, ou do quanto odeia dar aulas porque isso rouba seu tempo, enquanto ele poderia estar escrevendo seu tão sonhado romance; não. A história em muitos momentos se torna mais cômica do que trágica, exatamente. Talvez porque na vida real, as coisas mais inesperadas devem ser encaradas dessa forma mesmo: com menos desespero e com mais lucidez. Mesmo que essa lucidez só chegue beeeem mais tarde, porque acredito que só conseguimos entender e explicar os fatos do passado depois de um bom tempo.

Ler "A uruguaia" é garantia não só de boas risadas (ainda que nervosas); é garantia de uma jornada rumo ao autoconhecimento; te leva a fazer um balanço de vida até aqui, até essa metade da vida que é quando você chega, como Lucas e como eu, aos 40 anos de idade. Você se questiona se realmente fez as escolhas certas e procura o tempo todo algo novo na esperança de que isso te tire de uma rotina desgastante e sem cor. Você corre atrás de aventuras na esperança de resgatar a jovialidade e a coragem do passado. Só não podemos fazer como Lucas e achar que tudo acontece sem consequências ou sem atingir as pessoas ao nosso redor. Como toda época da vida, a maturidade só chega com a experiência.