domingo, 15 de outubro de 2017

"Ragtime" - E.L.Doctorow

(1975)

Olá queridos leitores, tudo bom? Já temos nosso canal no YouTube, com o mesmo nome do blog - A Beletrista! Fiz o vídeo-resenha deste romance, Ragtime, em setembro, mas está valendo! Prometo que no início de novembro teremos conteúdo novo lá no canal, assim como aqui também, certo? Cliquem aqui embaixo para assistir o vídeo, se inscrevam no canal, curtam e compartilhem! Até a próxima leitura!



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quase memória - Carlos Heitor Cony

(Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2014)

Não, não poder ser: o papel, o barbante, a tinta com a qual escrevera meu nome, tudo é recente, um embrulho feito em dois, três dias antes. (p.113)

Olá leitores, tudo bom com vocês? Hoje vamos comentar um pouco sobre a obra Quase memória do autor Carlos Heitor Cony. Ele compõe o rol de autores contemporâneos da Literatura Brasileira  - publicou romances, contos e crônicas, além de atuar como jornalista desde a década de 1950. Cony integra a Academia Brasileira de Letras desde 2000 e atualmente é colunista da Folha de São Paulo. Quase memória foi publicada em 1995 e levou pra casa um Prêmio Jabuti e o Prêmio Livro do Ano da Câmara Brasileira do Livro (ambos de 1996). Está bem recomendado, não é? Vamos à história.

Em um dia normal, o narrador-personagem, que é jornalista, recebe um pacote - embrulhado e escrito de um jeito muito particular por alguém bem conhecido: seu pai. A questão é que este pai está morto há 10 anos, o que logo suscita a dúvida em nós leitores: como pode estar morto se parece que o pacote foi embrulhado ontem? O narrador não tem coragem de abri-lo, colocando-o em cima de sua mesa na redação do jornal, e em seguida é tomado por lembranças e memórias deste pai - aquele que tantas vezes o fez "passar vergonha" mas que tinha um jeito todo seu de resolver os problemas que a vida lhe apresentava, sempre com muita criatividade e bom humor.

Apesar de ser meio ficção (não sabemos até que ponto os fatos lembrados são verdadeiros), meio memorialista ( o narrador passeia por sua infância, adolescência e início da vida adulta para contar as histórias sobre o pai), o romance não tem uma característica de ser saudosista ou melancólico - pelo contrário, e foi aí que o Cony me ganhou na leitura. Ao contar de forma bem engraçada sobre os acontecimentos da vida do pai que também era jornalista, o narrador nos leva ao Rio de Janeiro das décadas de 1920, 1930 até a década de 1960 - pois o pai dele trabalhou bastante durante esse período cobrindo os mais variados eventos políticos (a exemplo da ascensão de Getúlio Vargas ao poder por meio da Revolução de 30).

Destaco também que o retrato feito dos bastidores da imprensa é muito interessante. A abordagem sobre a ética profissional, perseguições políticas, coberturas de notícias, movimento nas redações dos jornais - tudo é mostrado de forma com que nós, leitores, percebamos que a imprensa é de fato o 4º poder, mas que ali não tem glamour nem luxo - tem é muito trabalho, sim senhor, e na maioria das vezes sem hora pra acabar! (e pensar que eu queria ser jornalista na época que prestei vestibular, oh céus! Mas tenho muito respeito por essa profissão.)

Em quase 300 páginas, fica cada vez mais claro para nós leitores que o que importa não é saber o que tem no pacote - o mais importante são as memórias que ele suscita. Celebrar os fatos vividos e revivê-los por meio das lembranças, sejam elas fidedignas ou não, nos fazem nos sentir vivos em qualquer época de nossas vidas. Rememorar é viver? Bom, creio que ao acessar o passado, consigo entender melhor como eu fui e como quero ser amanhã. O tempo não é meu inimigo - ele só ajuda, cada vez mais, a me entender como ser humano.

E já que a literatura namora sempre com minha outra paixão, o cinema, quero deixar a dica de dois filmes pra vocês assistirem nesse feriadão. Primeiro o filme produzido pelo meu ídolo Oswaldo Montenegro, O perfume da memória (2016). Você pode assistir no YouTube clicando aqui, e por favor, sem preconceitos! 


O outro é Para sempre Alice (2014), com uma de minhas atrizes favoritas: Julianne Moore:




Viver era mais importante para ele. E ele descobrira que as coisas boas (ou que ele considerava boas) podiam ser conseguidas com pouco ou com nenhum dinheiro. (p.77)

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Tabocas & versos: 5 poemas em resistência à ameaça de descaracterização do Morro do Alecrim.

Foto: David Sousa

Olá leitores do A Beletrista! Hoje cedemos nosso espaço aos queridos poetas caxienses Carvalho Jr., Edmilson Sanches, Isaac Sousa, Jorge Bastiani e Quincas Vilaneto. Os cinco bardos expressam sua resistência em forma de poesia contra a descaracterização do Morro do Alecrim, local histórico na cidade de Caxias (MA) onde aconteceram muitos conflitos da Balaiada. A ideia é bem simples: se não preservamos nosso passado, nossas ruínas, a fim de conhecê-las e transmiti-las à atual e futura geração, como nos reconheceremos ? Nossa identidade reside nos fatos e nas memórias. É assim que nos sentimos pertencedores da história do local onde nascemos. Sou caxiense de coração há 5 anos, por isso não consigo mais enxergar a cidade com olhos estrangeiros.... 

BALAIOS DE SOLUÇOS
///Carvalho Junior///

flecha de mágoas-vivas, corpo de tabocas órfãs,
sou carvão desprezado no alto da ladeira
(o)fendida pela lâmina de silêncios suicidas.

o sonho resiste ao fogo, ao cuspe tóxico dos
homens-cinza e à pedra não lapidada dos
autodidatas da futilidade.

tudo morre diante dos nossos olhos:
o morro, a história, a lucidez...
as borboletas sobreviventes marcham sobre os
balaios de soluços que explodem no jardim.

 A TERCEIRA “GUERRA” DO ALECRIM
///Edmilson Sanches///

“Ímpios sem crença, e precisando tê-la,
Assentastes um ídolo doirado
Em pedestal de movediça areia;
Uma estátua incensastes  [...]
Da política, sórdida manceba “

(Gonçalves Dias, “À Desordem de Caxias”, IV, 
in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 551,
Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959)


E eis que lá no alto do Morro trava-se nova batalha
-- não é mais Alecrim, Duque, nem é contra Fidié:
é luta por causa histórica, onde a verdade assoalha
para o Morro não deixar de ser a Memória que é.

Esse Morro onde habita a História sem fim
e também onde o poeta sua musa canta
pode não mais ser nosso Morro do Alecrim
para ser  -- e muito mais --  “o morro da santa”.

Querem (im)por uma estátua no alto do Morro do Alecrim,
onde a escultura é desnecessária, quiçá conflituosa.
Há opções de valia   -- entre elas o Morro do Barata, sim,
onde, com Fé, renderemos graças à Maria Virtuosa.

Filhos da terra que dizem respeitar a História,
detentores transitivos do volátil Poder,
abusam da condição, desrespeitam a Memória,
louvam a si mesmos por trás da Santa enaltecer.

Estátua, substantivo sem vida nem rima.
Colocá-la bem no Alecrim é turbação.
À essa obra no alto do Morro, lá em cima,
a Santa pede e quer contrição, oração.

Pois é no interior de cada um que se constrói a devoção
e se a confirma na Fé, no Trabalho, no Amor, na luta contra o Mal,
com decência suprindo o povo carente não só de fé, mas de pão
acompanhado de boas doses de ética, fraternidade, moral.

O próprio Deus escolheu o íntimo do ser humano como templo
quando poderia, fácil, por outros meios fazer-se representar.
E certos humanos, incrédulos, desapegados desse exemplo,
o que fazem para a Deus  -- na verdade, a si mesmos, ímpios --  louvar?

Em sítio histórico de Caxias quer-se erguer estátua religiosa;
fazer estátua não só porque os feitores tenham fé, convicção ou crença:
quer-se fazer estátua porque estão, breves, no Poder – coisa perigosa –,
senão teriam construído com humildade, sem alarde ou desavença.

Se têm contas a prestar com a Santa,
se co’ ela têm promessas a pagar,
por que, humildes, como quem ora e canta,
não fazem a estátua em outro lugar?

Digam: Por que foram mexer logo com a Virgem Santa?
Por que assumiu a obra e depois sumiu o Público Poder?
Porque quem tem fé sabe que à Fé incomoda e espanta
o fazer questão de anunciar ao mundo o seu fazer.

Receberam uma dádiva  --  dinheiro, poder, vitória, eleição --
e, cumpridores, querem agradecer com uma o que a outra mão pediu?
Então, munam-se, assim, de reserva, recato, humildade, contrição,
e não se preocupem se todo mundo no mundo todo vê, ou viu.

Pague-se sua promessa sem excessos, ou soberbia, com discrição,
--- pois santo que é santo não precisa de alto-falante para sê-lo.
A Santa, sobretudo porque virginal, materna, estenderá a mão
e grata ficará pela prudência, contenção, amor, fé e zelo.

Basta de revolverem-se as pedras do Morro e sua memória;
cada uma delas é um patrimônio que é nosso, que é seu.
Diz o Poeta: “Cada pedra que i* jaz encerra a história”,
história valente, corajosa, “dum bravo que morreu”.**

Nessas pedras há sangue, há dor, há ideal e há liberdade,
e essa luta, só o Morro do Alecrim deve ser o lugar dela.
Assim, porque soterrar mais ainda a História, quando, de verdade,
há outros lugares para a santa escultura e o que vier com ela?

O caxiense Teixeira Mendes, a partir do Rio de Janeiro,
iniciou uma luta, fez a lei e finalmente conseguiu
separar Igreja de estado  --  pois a Fé, valor verdadeiro,
não deve ser obrigação constitucional no Brasil.

Mas o que um caxiense faz para todo o País outros desfazem em casa.
De modo exposto ou escondido, verbo e verba em variados expedientes,
interesses pessoais são mantidos, decisões e descaso ganham asa
...e História e Patrimônio caxienses  -- sim, ruindo --  cada vez mais doentes.

Depois de portugueses e balaios,
que “mato” e “morro” não tornem a verbos
nesta terceira “guerra” do Alecrim;
que sejam o que são: só Natureza
e História, ambas com seu espaço e beleza,
cumprindo em Caxias seu elevado fim.
Sine ira et studio.
(*) O mesmo que .
(**) “Cada pedra que i jaz encerra a história” e “dum bravo que morreu” são respectivamente o terceiro e o quarto versos da segunda estrofe da primeira parte do poema “Morro do Alecrim”, de Gonçalves Dias (in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 527, Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959).

[MORRO DE SAUDADES DO ALECRIM]
///Isaac Sousa///

Morro de saudades do alecrim.
Morro e teu perfume jaz em mim.
Como um velho feiticeiro
Que invoca pássaros de fumaça.

Morro sete vezes sem perdão
Nas encruzilhadas da canção,
Onde o velho feiticeiro vem
modelar morcegos enevoados.

Nas ruínas gemem ossos litium
Dos tabocais plantados no infinito.
E o poeta em seu cigarro escreve
Suítes de metal e de fantasmas.


EM GUARDA
///Jorge Bastiani///

Sei que nunca é chegada a hora de dizer
adeus.
Também não há hora para se despedir.
Nasci ouvindo histórias,
Até mesmo de assombros
Sobre sombras que
Pernoitamos essas paragens do Morro.
Agora ouço passos, de novo,
Acordando tudo – de novo! –
Para mais uma
Nova batalha.

SÃO RUÍNAS NOSSAS
///Quincas Vilaneto///

Não preciso consultar a bússola
nem tampouco o gandula da fé,
todo o meu chão pode ser visto
à medida que se rabisca nele
e a memória permanece de pé.
Não preciso de uma outra história
criando uma estética às avessas,
as coisas que realmente nos interessam,
devem ser mais do que borras de hóstias.
Não tenho nada contra a religiosidade
nem me interessa o conteúdo da promessa,
só não creio que seja modermo
juntar-se pios com os céticos
e destruir todo um passado impresso.


domingo, 10 de setembro de 2017

Vá, coloque um vigia - Harper Lee

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(Ed. José Olympio, 2015)

Hoje vou ler o capítulo 21, versículo 6, do Livro de Isaías: "Porque assim me disse o Senhor: vá, coloque um vigia, que anuncie o que vir." (p.90)

Olá pessoal, tudo bom? Um feriadão e mais uma dica de leitura, né? Resgato hoje a Literatura Norte - Americana porque essa indicação é bem merecida: Vá, coloque um vigia, segundo romance da autora Harper Lee. Ela nunca escreveu outra obra além do famoso O sol é para todos (1961, ganhador do Prêmio Pulitzer) e de repente, antes de morrer em 2016, seus parentes encontraram e publicaram o manuscrito deste livro que vamos resenhar agora.

Vá, coloque um vigia é ambientado na pequena cidade de Maycomb, no estado sulista do Alabama, durante a década de 1950. Maycomb é a cidade natal da personagem Jean Louise Finch, que retorna de Nova York, onde mora, para passar quinze dias de férias e rever sua família  - o pai Atticus, a tia Alexandra e o tio Jack, além do namorado Hank. Imbuída de sentimentos nostálgicos da infância e adolescência, ao mesmo tempo em que é pressionada para voltar definitivamente à cidade e se casar, Jean Louise percebe ao seu redor que algo está errado - existe uma grande tensão social "gritando" na atmosfera da conservadora Maycomb.

A tensão é reflexo das crescentes lutas por igualdade de direitos civis para os negros bem como para por fim à segregação racial, há tantas décadas respaldada pelas leis sulistas. Contextualizando melhor: a sociedade civil branca sente-se ameaçada pelos avanços conquistados pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor e pelo resultado positivo do caso Brown v. Board of Education , que garantiu, em 1954, que pessoas negras frequentassem as mesmas escolas públicas junto com pessoas brancas. 

O que Jean Louise presencia é a visão de seu pai, o advogado Atticus, e de seu amigo de infância / namorado Hank - que ela acreditava que fossem justos e bondosos - participando de reuniões junto com os homens "respeitáveis" da cidade. Seu mundo "cor de rosa" de menina sulista cai por terra ao escutar um discurso de defesa da raça branca disfarçado de proteção das famílias e bens, revelado num recinto que remonta às velhas reuniões da temida Ku Klux Klan.

O conflito que se segue em sua mente é de que ela nunca de fato conheceu o mundo em que viveu a maior parte de seus 26 anos, até aquele momento de tensão social. Jean Louise terá que amadurecer como mulher e como cidadã. Ela defenderá seu ponto de vista progressista, mesmo que tenha que "cortar na própria carne"ou sucumbirá às antigas tradições de sua gente?

Após ler o romance, uma boa pedida é assistir o filme Histórias Cruzadas (2011), cuja história se assemelha muito ao enredo de Vá, coloque um vigia. Se quiserem, tem resenha do filme aqui no blog! É só pesquisar e clicar pra ler!

Mas você precisa se decidir, Jean Louise. Vai ver mudanças, vai ver Maycomb mudar completamente durante a nossa vida. (p.72)

domingo, 20 de agosto de 2017

O colar de coral - Antonio Callado

(Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2010)

Eu quero apenas fundar uma cidade. Uma cidade anarquista. Começará com duas pessoas, naturalmente, três. Aquilo é zona muito acossada pela seca. [...] (p.221)

Olá meus queridos, como vão? Todos já estão "engatilhados" nos afazeres acadêmicos do segundo semestre? Ainda estou meio "lenta", inclusive com as leituras; creio que é porque este semestre está mais cheio que aquele que passou, mas faz parte da vida de ser professora, né...

Nossa indicação de leitura é todo o livro Teatro Completo do Antonio Callado. Aqui estão 9 peças teatrais que ele escreveu e publicou na década de 1950 e início de 1960. Primeiramente quero dizer que acho impressionante o Callado ser um autor tão pouco mencionado nas aulas de literatura brasileira nas universidades...Um cara que: foi jornalista correspondente de guerra de O Globo - cobriu a 2ª Guerra Mundial e até a Guerra do Vietnã; trabalhou na BBC de Londres, escreveu uma obra emblemática e considerada maldita pelo regime militar (Quarup, 1967), pertenceu à ABL, enfim! Um autor com uma vida dedicada à arte de escrever e de informar e de ter compromisso com a justiça e a igualdade social não poderia desaparecer de nosso cenário cultural.

Dito isto, vamos a O Colar de Coral: a peça foi publicada em 1957 e está dividida em 3 atos. Narra a história de ódio entre 2 famílias, os Monteiros e os Macedos da cidade de Icó no Ceará, que no tempo da peça, ou seja, na atualidade, ambas famílias estão falidas, tendo migrado para a cidade do Rio de Janeiro. Uma noite, Cláudio Macedo adentra a casa dos Monteiro para conhecer Manuela e pedir-lhe um favor; assim como ele, a moça ouve desde criança sobre as tristes histórias de ódio que permeiam as famílias há 200 anos.

Cláudio pergunta se Manuela sabe onde está um cofre que o pai dele carregava no dia em que desapareceu - o cofre continha o colar de coral de Matilde, tia de Manuela, e as esporas de prata de Radagásio, tio de Cláudio. No passado eles se apaixonaram e morreram por esse amor, porém esses pertences haviam ficado com Jovino, pai de Cláudio.

Diante desse pedido e da declaração insistente de Cláudio, de que a única coisa que lhe importa é resgatar o pouco de terra que ainda resta de sua família para fundar uma comunidade anarquista, Manuela se vê em conflito: ela deve acreditar nas supostas palavras sinceras de um Macedo ou deve perpetuar o ódio alimentado por sua avó?

É interessante notar toda a crítica social contida no texto e a coragem de falar sobre anarquismo em plena época de intolerância e Guerra Fria; ao mesmo tempo que faz isso, Callado nos presenteia com falas líricas sobre amor, ódio e família: o que nos une no fim das contas?

Porque isto de ódio é um hábito. Aí é que o amor é diferente. Ódio e amor são feitos de fogo. A diferença está nos materiais consumidos. [...] (p.261)



domingo, 30 de julho de 2017

Orlando - Virginia Woolf

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(São Paulo: Ed. Landamark, 2013)

A mudança de sexo, embora alterasse seu futuro, nada fez para alterar sua identidade. Seu rosto permanecia, como provam os relatos, praticamente o mesmo. (p.67)

Olá meus leitores! Como foram de férias? Recheadas de leituras e aventuras, eu espero né ;) ? Já fazia um tempo que eu estava com vontade de ler Orlando (Orlando: A Biography - 1928), da autora inglesa Virginia Woolf, e nesse mês consegui. Não por ser, eu acho, a única obra que ainda não tinha lido dela, mas porque procurava uma edição que valesse a pena. E essa aqui, da editora Landmark, é bilíngue, então pude ler o texto em português e inglês.

Os críticos em geral dizem que Orlando é a obra que colocou Woolf no patamar de importância literária na Inglaterra, muito mais do que Mrs. Dalloway (meu preferido e publicado em 1925). E entende-se a razão. Orlando é um nobre aristocrata, bem rico, que vive plenamente o período elisabetano, período este caracterizado por ter a rainha Elizabeth I no poder. É o Renascimento inglês, considerado a época de ouro das artes e da economia inglesa (época de Shakespeare e da descoberta do "Novo Mundo"). Pois bem. Orlando possui todas as benesses de um jovem de seu tempo - favores reais, mulheres a seus pés e beleza. Por acreditar que possui tudo, inclusive o amor de todos, ele crê que sua paixão por Sacha, uma nobre russa, tornará sua vida completa. Só não estava contando que a moça só queria se divertir com ele, afinal de contas, para ela era apenas diversão.

A desilusão no amor leva ao descrédito nas pessoas dali em diante, e por isso Orlando resolve se trancar para sempre em sua mansão no campo. Resolve também terminar de escrever seu poema "O Carvalho", pois como um bom aristocrata Orlando amava a poesia e queria também ser reconhecido por sua inteligência e louvor às artes. Ele pede que o poeta Nicholas Greene, considerado "o gênio", leia seu manuscrito, porém este escreve uma sátira ridicularizando a figura de Orlando e banalizando a pretensão do jovem de ser reconhecido como um bom poeta. Então, totalmente arrasado, Orlando aceita ser embaixador em Constantinopla, e é lá que se opera a coisa mais fantástica da história: ele dorme por sete dias, como se entrasse em um estado de coma, e após acordar descobre que seu sexo mudou - Orlando era agora uma mulher!

Como seria sua vida dali pra frente? Mudaria sua essência, seu modo de pensar, já que seu sexo mudou? Orlando, o romance, é filho do século XX pois coloca em discussão a importância da mulher na sociedade, questionando essa figura tão subestimada. Mas não somente isto. A narrativa de Woolf é irônica, obriga o leitor a participar do discurso, e o narrador da história se apresenta como biógrafo da vida de Orlando dizendo que sabe tudo mas ao mesmo tempo fica se explicando por não conhecer detalhes ou razões para as atitudes do rapaz. É um biógrafo fajuto, que ao invés de afirmar, duvida. 

E muito mais o romance Orlando nos ensina, principalmente aos profissionais da área de Letras: o tempo todo o narrador paga um lindo tributo à importância da arte e da poesia no mundo; muitas vezes o narrador dá uma lição de história de literatura inglesa e de crítica literária também, o que torna o romance quase que uma metaficção.

Imagino as dúvidas que devem ter dilacerado a mente brilhante da autora ao decidir abordar, sendo mulher, temas tão difíceis para as primeiras décadas do século XX. E olha que ela era até bem aceita nos círculos intelectuais londrinos - e tinha total apoio do marido, Leonard Woolf, para se entregar à escrita. Ele era seu editor e ela confiava completamente nele. É por isso que adoro tanto os romances e os pensamentos de Virginia Woolf: eles revelam  a mulher que só agora, em pleno século XXI, estamos conseguindo enxergar - como um ser humano.

Sobre a natureza da poesia em si, Orlando só descobriu que era mais difícil de vender que a prosa, e embora os versos fossem mais curtos, levavam mais tempo para serem escritos. (p. 44)


domingo, 9 de julho de 2017

Cazuza - Viriato Correa. Resenha crítica de *Caio Carvalho.

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- Pergunta você o que é o Brasil? É tudo que temos feito em prol do progresso, da moral, da cultura, da liberdade e da fraternidade. O Brasil não é o solo, o mar, o céu que tanto cantamos. É a história de que não fazemos caso nenhum.(p.185)

Neste texto, objetivamos levantar uma análise crítica a respeito da clássica obra Cazuza (1938) do aclamado escritor maranhense Viriato Correa. A trama nos traz a história do garoto que dá nome ao livro. Em um tom memorialístico ele nos conta a sua infância em uma narrativa dividida em três partes, nas quais são alterados os personagens, o espaço e até a temática expressa. Seguindo uma ordem cronológica, a infância do menino é situada no livro, agregando a isso sua perspectiva diante do que ele presencia.

Ao ler Cazuza, é impossível caracterizá-lo como um livro homogêneo referente à sua temática, pois a diversidade de traços que compõe o estilo do autor, atrelado ao imaginário da época é gritante. Dessa forma, pontuamos na obra uma reflexão específica: o patriotismo. O narrador nos traz, especialmente na parte 3, um relato do desejo que ele tem de que o brasileiro assuma sua verdadeira identidade, fazendo uma crítica aos que cantam a brasilidade de uma forma equivocada e contida, ao passo que defende que ela é muito mais que isso.

A culpa não é de vocês, é de quem lhes ensina noções falsas. Para muita gente, patriotismo é elogiar as nossas coisas mesmo quando elas não merecem elogios. É um erro. O verdadeiro patriotismo é aquele que reconhece as coisas ruins do seu país e trabalha para melhorá-las. (p.209)

A Literatura é um dos mecanismos de maior influência quando se quer valorizar a pátria. Na tese Literatura como Missão (1981), de Nicolau Sevcenko, o autor coloca a Literatura como uma forte arma que ajuda o leitor a refletir sobre os eixos sociais que compõem o contexto em que o indivíduo está inserido. Para Sevcenko, o texto literário é um documento de ação político-social, que denuncia as mazelas vividas e sugere possíveis correções.

Viriato Correa usa e abusa desse cunho social que a Literatura possui pois nos faz refletir sobre a forma com que o brasileiro percebia sua pátria e como esse brasileiro ensinava suas crianças.  O forte tom crítico do protagonista faz o leitor enxergar o patriotismo menos da perspectiva natural e mais do cunho identitário que os próprios brasileiros lutaram para que seu país possuísse.

Para além da questão patriótica, o livro retrata fielmente a cultura maranhense, além de nos fazer refletir a respeito do ensino formal nas escolas da época, do preconceito e desvalorização com a gente pobre - questões altamente sociais. Com uma linguagem concisa e diálogos rápidos, o leitor consegue devorar as 229 pág. bem rápido! Lembremos que acima de tudo, a leitura de Cazuza demonstra que Literatura não é apenas deleite; Literatura também é denúncia.

*Caio Carvalho é aluno do curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA, Campus Timon (MA).