quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Editora Wish lança campanha no Catarse para publicação de obras raras da literatura fantástica no Brasil!

Para apoiar o projeto editorial da Wish, clique AQUI

A campanha de publicação para o Box Literatura Fantástica Rara fica aberta até 08 de dezembro

O aclamado e esperado “A Rainha do Ignoto” ganha nova edição completa no Brasil depois de anos desde seu último lançamento, em 2003. Escrita pela cearense Emília Freitas e publicada originalmente em 1899, a obra - pioneira da fantasia e ficção científica nacional - estava esgotada há anos em todas as livrarias, bibliotecas públicas e sebos virtuais. O livro será lançado em um box de colecionador acompanhado do inédito “A Filha do Rei de Elfland”, fantasia escrita por Lord Dunsany em 1924, cujos direitos foram adquiridos com exclusividade pela Editora Wish. A obra é mundialmente conhecida por ter sido influenciadora de autores como Lovecraft, Tolkien, Neil Gaiman e Del Toro, e narra a história de um mundo fantasioso cheio de magia, bruxas e elfos. 



A RAINHA DO IGNOTO

“A Rainha do Ignoto” discorre sobre temas relacionados à alma feminina e à situação das mulheres na sociedade patriarcal, apresentando uma sociedade secreta de mulheres, hierarquicamente organizada em uma ilha, denominada Ilha do Nevoeiro, governada por uma Rainha que recrutava mulheres a partir do sofrimento vivenciado por elas no cotidiano. Numa curiosa narrativa que lembra as velhas lendas, Emília Freitas recria o clima de mistério a beleza dos contos europeus. O grande interesse do livro está na criação de uma utópica comunidade de mulheres, as chamadas  paladinas,  que fazem o bem e buscam ajudar aos perseguidos.

O romance terá cerca de 400 páginas, e a história será acompanhada de um prefácio escrito por Alexander Meireles da Silva,  professor associado da UFG, pesquisador de Literatura Fantástica e criador do canal  Fantasticursos; e posfácio de  Adrianna Alberti, pesquisadora e mestre em Letras pela UEMS.



A FILHA DO REI DE ELFLAND

O estilo poético e a grandeza arrebatadora de “A Filha do Rei de Elfland” o tornaram um dos romances de fantasia mais amados do nosso tempo, uma obra-prima que influenciou alguns dos maiores fantasistas contemporâneos. 

Na história, o Senhor de Erl descobre que seu povo gostaria de ser governado por um mestre mágico. Obedecendo aos costumes, o Senhor envia seu filho, Alveric, para encontrar a filha do Rei de Elfland, Lirazel, e torná-la sua esposa. Alveric parte em sua busca com a ajuda da bruxa Ziroonderell. Mas assim como muitas noivas mágicas do folclore, Lirazel não se adapta à realidade humana e retorna a Elfland; e Alveric, apaixonado, tenta mais uma vez encontrá-la. A história comovente do casamento entre um homem mortal e uma princesa elfa é uma tapeçaria magistral do conto de fadas que segue o "felizes para sempre".


A edição terá aproximadamente 260 páginas, com tradução de Cláudia Mello Belhassof, tradutora de “Enraizados”, “Doctor Who” e “Bela Distração”, entre outros; e prefácio de Enéias Tavares, professor de Literatura Clássica na UFSM e diretor do Centro de Pesquisas William Blake.




EMÍLIA FREITAS
Emília Freitas foi romancista, poeta e professora. Nascida em 1855, no interior do Ceará, viveu parte de sua vida em Fortaleza e Manaus, duas cidades que influenciaram a construção da ambientação em suas obras. Participou ativamente dos movimentos sociais da época, colaborando em periódicos abolicionistas e fazendo parte da Sociedade das Cearenses Libertadoras - uma associação feminina em prol da abolição da escravidão. É considerada a autora pioneira da literatura fantástica brasileira com a obra “A Rainha do Ignoto”, que mistura fantasia, ficção científica e um pouco do terror vitoriano.



LORD DUNSANY

Edward John Moreton Drax Plunkett, 18º Barão de Dunsany, foi um escritor e dramaturgo anglo-irlandês, notável por seu trabalho em fantasia publicado sob o nome de Lord Dunsany. Mais de oitenta livros de seu trabalho foram publicados, e sua obra inclui centenas de contos, além de peças, romances e ensaios de sucesso. Nascido em um dos títulos mais antigos do grupo irlandês, ele viveu grande parte de sua vida na casa mais habitada da Irlanda, talvez o Castelo Dunsany, perto de Tara, e recebeu um doutorado honorário do Trinity College. 


As recompensas vão desde a compra dos livros - separadamente ou no box especial de colecionador - à propostas de patrocínio. Existe também uma recompensa especial para quem quiser doar exemplares para escolas e bibliotecas públicas.


SERVIÇO
Box Literatura Fantástica Rara - “A Rainha do Ignoto” e “A Filha do Rei de Elfland”
De 08/10/19 à 08/12/19
Os apoios vão de R$ 15,00 a R$ 900,00

Publi/ parceria 💜

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Biblioteca Municipal Mário de Andrade (São Paulo, SP)


Morar este ano de 2019 em São Paulo (se vc me segue no Instagram, já sabe o porquê dessa mudança geográfica temporária!) me rendeu inúmeras experiências culturais, para dizer o mínimo. É claro que eu não poderia esperar menos de uma metrópole, que por sua própria característica cosmopolita, tem o prazer de acolher e ressignificar as vidas de muitos de nós que não pertencemos a este espaço mas nos apropriamos dele. A minha situação, de vir pra cá para estudar, (de novo!) não é diferente nem mais fácil ou difícil de outras tantas pessoas. Me sinto e sempre me senti muito à vontade em São Paulo, mais livre até - penso que é devido à diversidade que encontro aqui. 

Visitar e conhecer a Biblioteca Municipal Mário de Andrade foi muito significativo pra mim, tanto por sua importância histórica, desconhecida por muitos brasileiros, como por minha paixão por livros, sendo eu uma bibliófila (como todos sabem). A BMA é um importante centro de pesquisa do país, é a segunda maior biblioteca pública do país (a primeira é a famosa Biblioteca Nacional, situada no Rio de Janeiro) e é a maior biblioteca municipal do país. Inaugurada em 1925 com um projeto moderno do arquiteto francês Jacques Pilon, esse edifício localizado no centrão da cidade é considerado um marco da arquitetura moderna paulista.

  O nome da biblioteca só homenageia o escritor Mário de Andrade em 1960 e não o faz sem motivo: Mário foi um dos intelectuais que mais lutou pela disseminação da cultura popular em São Paulo e no Brasil, lutou pela educação e democratização da leitura e foi um dos que iniciaram o Modernismo no país (lembram da Semana de Arte Moderna?), ao lado de Oswald de Andrade e de tantos outros artistas importantes, pois esse movimento na verdade se iniciou nas artes plásticas. Eu teria que escrever um outro post só sobre o Mário de Andrade, mas sei que vocês podem acessar facilmente sua vida e seus feitos pelo Google. Vale a pena saber, porém, que o romance Macunaíma (1928) é o resultado de suas andanças pelo Norte e Nordeste do país a fim de entender o que seria essa cultura brasileira, pois o Brasil não poderia continuar sendo só espelho de uma cultura europeia. Ele também foi Secretário de Cultura em São Paulo. Ah, Mário foi tantas pessoas em uma só! Folquelorista, musicólogo, escritor... Uma homenagem bem justa.


Você fica besta mesmo com o acervo e com o espaço da BMA, e olha que conheço outras bibliotecas dentro e fora do país. A quantidade de gente que ainda frequenta a biblioteca é espantosa e isso me encheu de alegria! A internet é maravilhosa, confesso, mas imagino que ainda demorará muuuuuitos anos para que todos os livros sejam digitalizados. Além do que, a exclusão digital é um fato, e pode não ser sentido por você que lê esse post agora, mas a fonte de pesquisa de muitas pessoas ainda está nos livros físicos proporcionados gratuitamente à população nas bibliotecas. Eu me incluo nesse nicho também, pois faço parte da era analógica. Não nasci com um celular/ tablet nas minhas mãos. Com certeza por isso sou bem desencanada com esse tipo de stress - o digital/virtual. Eu também sei distinguir bem realidade de ficção...


O que eu mais amo nas bibliotecas, além obviamente dos livros, é o silêncio. É como se o mundo inteiro parasse só pra isso: para a contemplação das letras e dos textos. Pra mim o silêncio nunca foi ensurdecedor ou incômodo. Ele é sinônimo de paz e volta ao meu interior. Outra sensação que tenho é de que posso estar em qualquer lugar do mundo, mas estarei sempre em casa se estiver em uma biblioteca. É como diz um ditado antigo em inglês: Home is where the heart is ("Casa é onde seu coração está"). 


O que vc precisa saber de imediato sobre a BMA:

↦Endereço: R. da Consolação, 94, República (centro de SP)
↦Horário de funcionamento: geralmente das 8h às 21:30 (de segunda à sexta) e das 8h às 19:30 (sábados, domingos e feriados). Atenção: se vc possui alguma especificidade e deseja consultar acervos específicos da biblioteca, clique AQUI.
Fonte de consulta: prefeitura.sp.gov.br 
Crédito das fotos: Marcelo Vais 💖

Referência da Sétima Arte:
Eu não podia deixar de lembrar de um dos meus filmes preferidos da vida, Cidade dos Anjos (1998; gente, como amo esse filme e o Nicolas Cage e a Meg Ryan e o roteiro do Wim Wenders!). Nele há várias cenas na biblioteca porque a médica Maggie gosta muito de ler e também porque acredita-se que os anjos habitam esse espaço. Afinal de contas, anjos são seres inteligentíssimos...não à toa sua presença junto aos livros é sempre citada...






segunda-feira, 21 de outubro de 2019

"Dias úteis", livro de contos de Patrícia Portela

(Porto Alegre: Dublinense, 2019) 
Clique AQUI para adquirir o livro! (vc ajuda o blog e não pagará nada a mais por isso)

É como viver, para quem ainda não tenha percebido do que se trata. (p.18)

Olá beletristas! A resenha crítica deste mês é de mais um autor português contemporâneo - no caso uma autora, até então desconhecida por mim: Patrícia Portela. Ela já escreveu várias obras e Dias úteis é sua mais recente publicação (2017). Algo interessante sobre a formação de Portela é que ela não é apenas escritora mas também artista em um conceito mais amplo: já idealizou e executou diversos projetos artísticos interdisciplinares, como espetáculos teatrais e instalações. Outra curiosidade sobre sua vida pessoal é que Portela vive entre Portugal e Bélgica e fez cursos em diferentes países, sempre voltados para as artes (cênicas e/ou plásticas).

Os contos que integram Dias úteis demonstram essa versatilidade e essa união entre as palavras e a performance, indicando uma fusão plena entre imagem, cena, voz, atuação e perspectiva, sem deixar de lado o trabalho lírico com a linguagem. Afinal de contas, tudo se volta à arte, não é mesmo? A própria literatura é arte em palavras e contém em si a força imaginativa. Apesar da "orelha" do livro evocar sua divisão em sete contos curtos, "um para cada dia da semana", eu considero que na verdade são 9 contos: prefácio fora de jogo, didascália, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, porque hoje é sábado e epitáfio de domingo para o dia seguinte. Isso sem contar as epígrafes, que por si só contém a essência das narrativas, transformando-se em novos textos a serem (re)descobertos. As epígrafes são convites para adentrarmos o texto, e a primeira delas resgata o poeta/ heterônimo pessoano Ricardo Reis:

passeemos juntos
só para nos lembrarmos disto...

Então entramos no livro e passeamos pelas cenas descortinadas pelos múltiplos narradores, como se fossemos espectadores ávidos de conhecimento sobre a vida cotidiana - mas esse é o jogo que se estabelece lá no prefácio: cuidado, porque esse jogo aí não tem regras e por conter inúmeras expectativas, pode ter resultados diferentes para cada leitor. A didascália estabelece um acordo entre ambas partes: vamos devagar, sem julgamentos ou pretensões, sempre atentos a um possível retorno. A segunda-feira nos confronta com o ambíguo conformismo/inconformismo típico do vazio da vida ligada no piloto automático. A terça-feira nos traz o desabafo em uma sessão de terapia, e o inevitável confronto (de novo!) conosco. A quarta-feira nos leva a uma perda, a um fragmento de memória, de um retorno a uma porta há muito tempo trancada.

A quinta-feira revisita a jornada de um Orlando contemporâneo, em busca do seu próprio tempo, lugar, memória e identidade, questões tão limítrofes e urgentes nos dias de hoje. A sexta-feira evoca o silêncio que clama tão alto dentro de nós mesmos, e por isso é a voz mais significativa que podemos ouvir. Porque hoje é sábado nos obriga a sucumbir à memória da pessoa amada morta, pois "a memória é um inimigo poderoso, mantém o cérebro a funcionar contra a sua vontade." (p.90) O epitáfio de domingo para o dia seguinte...bom, depois de tantos mergulhos e revelações, esse epitáfio é nosso como queiramos escrever. Ou interpretar. Ou (re)viver. 



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"Autobiografia", romance de José Luís Peixoto

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019) 
Enviado pela TAG Curadoria para seus assinantes em julho/2019
Conheça a proposta da TAG Experiências Literárias AQUI

A vida, que parece uma linha reta, não o é. 
(epígrafe da p.81)

Resenhar um romance de José Luís Peixoto não é fácil, ainda mais quando ele é inédito (foi encomendado especialmente pela TAG ao autor como item de comemoração dos 5 anos do clube de assinaturas). Não foi apenas José Saramago que ainda em vida declarou que Peixoto é "uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa e que é um homem que sabe escrever e que vai ser o continuador dos grandes escritores."* A crítica literária já o considera um dos grandes autores do século XXI e como somos da mesma geração (ele tem 44 anos e eu, 40), me sinto muito bem representada. Portanto esta resenha não me sai fácil, não.

E ainda temos o complicador instigante (gostaram dessa definição?) das boas características de uma prosa contemporânea da qual Peixoto domina todas as técnicas e entremeios. Estamos falando de uma mistura de todas as "metas": metalinguagem, metaficção. Mas também falamos de memória, de alteridade, da literatura em si (escrita/ autoria/ leitor/objeto "livro"/linguagem), do posicionamento desconfortável do leitor diante de um texto que nos "trai" a todo instante, da humanização de grandes pessoas/personagens que tem seu destaque na história de um povo, do questionamento e homenagem concomitantes ao que chamamos de arte literária.** O grande tema do romance Autobiografia (2019) não poderia ser outro mesmo: a própria literatura. E é por essa ousadia que Peixoto é tão genial.

Mas vamos ao seu enredo, se é que eu posso mesmo contar essa história e ao mesmo tempo ser digna da confiança de vocês, né? (olha aí eu manipulando meus leitores hahaha). Na Lisboa de 1997 mora José, um autor que já publicou seu primeiro romance (sem alcançar muito sucesso) mas que não consegue escrever o segundo. Um dia seu editor, Raimundo, procura-o para que escreva uma biografia de José Saramago, algo como um "texto ficcional de cariz biográfico"*** , acreditando que esse projeto possa tirar José de seu bloqueio literário. O jovem autor de 30 anos aceita o desafio, mesmo duvidando de sua capacidade. Essa dúvida só aumenta quando ele se encontra com o próprio Saramago para colher notas sobre sua vida, as quais utilizará para compor a tal biografia.

Com suas múltiplas vozes, a história também narra paralelamente os fatos (serão verdadeiros?) e memórias tanto de José quanto de Saramago, que a essa altura é um autor consagrado, casado com a terceira esposa, Pilar, está terminando de escrever um livro de memórias (Cadernos de Lanzarote) e percebe muito de si em José; além disso, Saramago possui um segredo, o qual quer revelar no momento certo ao jovem e confuso escritor.  

Orbitam a vida de José pessoas que de alguma forma o ajudarão nessa trajetória de redescobrir os meandros da escrita: o colonialista septuagenário Bartolomeu (que odeia o comunista Saramago), a jovem imigrante cabo-verdiana Lídia (que é fã de Saramago) e o alemão dono de livraria Fritz, de quem uma vez José roubou um livro - de Saramago! Cada uma dessas personagens traz suas próprias narrativas e memórias, que se amalgamam à narrativa de José - ou seria de Saramago? Percebem como os fios da metaliteratura nos deixa em território instável, porém instigante, como eu disse no início desse texto? E requer de nós, leitores, olhares mais que atentos: críticos.

Eu imagino que para um assinante da TAG Experiências Literárias, que se depara pela primeira vez com o estilo de José Luís Peixoto, não deve ter sido fácil percorrer este romance de 246 páginas, pois não é para ser lido de forma displicente assim como não dá para prever os rumos que o enredo nos leva. Se você o ler no futuro (já já sai a edição da Companhia das Letras, que fez a parceria com a TAG), sugiro atenção especial ao capítulo 20. É o capítulo mais lindo desse romance, pois aí reside sua essência, a qual gira em torno da eterna pergunta: de que fala a literatura? E como apresentá-la a alguém? Só ouso devanear sobre essas respostas em sala de aula, com meus alunos e professores beletristas.;)

Um adendo: se você também é assinante da TAG Experiências Literárias como eu e leu esse romance, deixa seu comentário aqui abaixo pra gente conversar um pouco, tá certo?


Como posso saber se eu sou eu ou eu? (p.215)

REFERÊNCIAS:

*Revista da TAG Experiências Literárias, p.5.

** Para beletristas que queiram conhecer mais sobre prosa contemporânea e a questão da metaficção, sugiro a leitura dos seguintes teóricos (alô alunos/ professores de Teoria e Crítica Literária):
1. HUTCHEON, Linda. Narcissistic narrative: the metafictional paradox. Canadá: Wilfrid Laurier, 2013.
2. BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.
3. SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. São Paulo: Civilização Brasileira, 2010.

***Essa expressão aparece de forma recorrente no romance Autobiografia.




domingo, 1 de setembro de 2019

Coluna da Aurora Elisa - Crônicas Tóxicas

SOBRE O SILÊNCIO EXTREMAMENTE INQUIETANTE

Não é à toa que muitas pessoas que nos rodeiam vivem um mundo de coisas e fatos a olhos vistos pelas redes sociais. Vivem para um mundo exterior. Mas muitas enfrentam um inquietante silêncio e vazio. Eu observo isso. Observo em mim e nos outros. Em mim consigo curar com os livros - quem sabe lendo-os, eu enxergo melhor o mundo à minha volta. Tem ajudado, claro, mas sei que esse conhecimento e auto conhecimento é inatingível plenamente, porque é interminável.

Eu conheço os silêncios inquietantes da alma. E por isso consigo identificar esse estado terrível nos outros: um ato desesperador de pular de parapente cura sua dor? Alugar uma Mercedes-Benz por um dia te faz feliz? Uma amiga te ligar no meio da noite te pedindo pra ir dormir com ela te deixa menos solitária? Socar um saco de areia na aula de Muay Thai por 5 min sem se dar conta e nem sentir exaustão aplaca sua fúria? Olhar incansável pela janela procurando entender a vida pregressa e ao mesmo tempo olhar pra baixo, sabendo que você está a 1.000m de altura, te alivia?

Não sabemos lidar com os silêncios. E é claro, muitas vezes eles não são silenciosos mesmo, e nem vazios. São cheios de palavras, vida contida, represada e retomada tantas vezes quanto necessário. Existe muita potência num olhar silencioso, numa fala silenciosa e num pensar silencioso. O silêncio nos inunda diariamente porque não sabemos viver com propósitos mais firmes; porque não somos fiéis a nós mesmos e ao que sentimos. Mas sabemos olhar. O que não aprendemos foi a enxergar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

"O infame clube vitoriano das mulheres livres" - org. por Valquíria Vlad & Karine Ribeiro

(São Caetano do Sul: Ed. Wish, 2019) 
(Você pode adquirir o livro clicando AQUI e não pagará nada a mais por isso, e ainda ajudará o blog a se manter! Obrigada!)

"Os homens não, eles podem matar, fazer guerra e expor seus colhões mundo afora que nada disso afronta ou os acomete a justiça pelos seus atos. Porém a mulher já nasce silenciada. Se pudessem os homens impedi-las sequer de chorar ao nascer, o fariam." p.108.

Olá beletristas, tudo bom? Hoje vim indicar a leitura de O infame clube vitoriano das mulheres livres, organizado por Valquíria Vlad e Karine Ribeiro. A linda edição da editora Wish traz histórias de mulheres que ousaram ser livres durante um período histórico inglês conhecido como Era Vitoriana, possuindo esse nome devido ao longo reinado da Rainha Victoria que compreendeu o período de 1837 a 1901.

Apesar do luxo e expansão do império britânico caracterizarem esse período, assim como a consolidação da Revolução Industrial, a era Vitoriana também ficou conhecida por seus rígidos valores puritanos e pelas atitudes de uma sociedade hipócrita (pois por baixo desse estilo conservador, o número de prostíbulos e casas de ópio aumentaram consideravelmente). A sociedade vitoriana também quase não permitia uma ascensão social justa, já que o que importava era colocar as massas para trabalharem nas fábricas por longas jornadas exaustivas  - assim sendo, a exploração de mulheres e crianças é uma denúncia constante em vários relatos deste período. Não haviam escolas, as habitações e condições de saneamento eram muito precárias e as grandes cidades inglesas demonstravam claramente uma desigualdade social extrema, apesar do crescimento econômico. Um dos maiores autores da era vitoriana, Charles Dickens, retrata muito bem esse panorama em seus romances.

Mas as histórias que permeiam O infame clube tem a ver com as formas de liberdade que várias mulheres vitorianas buscaram para si, apesar de que seu objetivo final de vida fosse o casamento, aliado a uma vida marcada pela repressão e rigidez de costumes (ambos metaforizados no temível corset, peça de vestuário íntimo feminino que apertava horrores as costelas para que a mulher alcançasse um nível impossível de cintura fina, e consequentemente, de um padrão de beleza meio mórbido que hoje em dia me parece ser mais romantizado do que criticado). 

O infame clube vitoriano das mulheres livres é uma coluna de jornal britânico editado e publicado por uma mulher que possui o pseudônimo A Dama. Ela recebe cartas de mulheres que se sentem à vontade para contar suas histórias, para que assim, mostre às mulheres que leem que existe uma saída para suas angústias e opressões, encorajando-as a ter esperança. Não sabemos enquanto leitores se são histórias fictícias ou verídicas, mas acredito na máxima "a arte imita a vida". Uma das histórias eu verifiquei que realmente a protagonista existiu: a famosa Lady Isabel Burton, que acompanhou o marido em inúmeras aventuras pelo mundo afora além de ter publicado vários livros sem utilizar o artifício do pseudônimo. Ela diz que o marido sempre a incentivou a ser de fato "uma companheira de vida" e a escrever suas histórias. E ao que parece, um casal assim em plena era vitoriana é um verdadeiro milagre da existência social.

As histórias em geral refletem artifícios usados por mulheres que ansiavam por fazer valer sua independência financeira, realizar seus sonhos e até mesmo se defenderem de injustiças cometidas contra elas. Lemos sobre casos de travestismo, em que a mulher se traveste de homem para tocar os negócios da família ou simplesmente frequentar a escola de música; lemos sobre exemplos de sororidade, em que uma escrava salva sua senhora da morte ou quando uma ex-cozinheira estende as mãos à patroa recém-divorciada e excluída socialmente. Lemos sobre a vontade de uma moça em aprender a montar cavalos, mas é proibida pelo pai, que entende neste ato o perigo da ideia da liberdade. 

Enfim, de várias formas percebemos que, por mais que a submissão às regras da sociedade vitoriana fosse o esperado, várias mulheres ousaram ir além. E ainda bem que ousaram. E tomaram coragem. Sem esses exemplos, da vida real ou não, talvez outras mulheres não ousassem chegar ao patamar que chegamos hoje. Somos frutos de um passado histórico de conquistas e lutas, e olhar para trás, nesse sentido, me dá um certo conforto de que consigo seguir em frente e lutar por minhas ideias. Até porque, engana-se quem pensa que a guerra está ganha. O percurso trilhado por nós mulheres, pelo que observo diariamente, ainda é bem sinuoso e espinhoso. Avante então.

"Eu espero que como mulher você encontre a liberdade de um menino." p.34.





quinta-feira, 1 de agosto de 2019

"Crystal: uma história de sincretismo e encantaria", romance de Samira Fonseca

(Itapecuru-Mirim, MA: Ponto a Ponto Gráfica e Editora, 2017) Disponível para compra na Livraria AMEI do São Luís Shopping (São Luís, MA)

Olá beletristas, tudo bom? Cumprindo minha promessa de trazer mais indicações de leitura e resenhas de autores maranhenses aqui para este espaço, hoje vou falar de um romance mágico e contemporâneo que li recentemente: Crystal: uma história de sincretismo e encantaria. A autora Samira Fonseca é natural de Itapecuru-Mirim (MA), local onde reside e trabalha como professora, e é também uma das fundadoras da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes - AICLA. Conheci a cidade em 2005 por conta de uma disciplina que fui ministrar lá pela Universidade Estadual do Maranhão (permaneci apenas 1 semana), e confesso que após ler o romance de Samira simplesmente cheguei à conclusão de que preciso retornar à Itapecuru para observá-la com esse olhar de "encantaria" que me encantou após a leitura de Crystal. A ficção tem dessas coisas mesmo: faz com que nós, leitores, queiramos vivenciar as páginas da história narrada. De preferência ao vivo e a cores.

Mas em parte acho que consegui adentrar em algumas ambientações do romance, pois o enredo se passa tanto em Itapecuru quanto na capital São Luís. Como nasci na Ilha de Upaon-Açu, conforme São Luís era nomeada pelos índios que aqui habitavam à época do descobrimento do Brasil, reconheci muitos lugares em que o professor de Música Pedro passeia com sua amiga Crystal, advogada e professora de História. Porém Pedro também mora em Itapecuru, e a narrativa te leva a (re)descobrir essa cidade  com seus encantos e peculiaridades, em especial o sincretismo religioso que existe lá entre o candomblé e o catolicismo.

Como toda boa história, esta possui um conflito central bem interessante: Crystal nunca recebeu o presente deixado pelo avô após seu falecimento, pois a avó dela não permitiu. Intrigado com esse mistério, Pedro decide investigar que presente é este e onde estará, pois acredita que Crystal merece recebê-lo e que ele tem relação com a história da família dela bem como suas origens. A jornada empreendida por Pedro também será amorosa, já que ele é apaixonado por Crystal desde os tempos de faculdade. A única pista que ambos tem é um poema deixado pelo avô da moça:

Na união do Orisum e do Ombarisá,
Descansando no seio santo,
Coberto do mais fino ouro branco
Protegido pelas mãos de Oxalá.

A escrita de Samira ainda se prende a alguns academicismos que considero desnecessários à ficção contemporânea, porém não compromete seu estilo que está em amadurecimento, já que o escritor se encontra em permanente construção de si mesmo. A linguagem clara misturada à estrutura de capítulos curtos torna a narrativa ágil e nem de longe maçante; pelo contrário, me vi tão envolvida na história que a li em um dia e meio. 

Samira demonstra um conhecimento invejável de temas que expõe com propriedade crítica ao longo do romance, como o sincretismo religioso (em especial quando descreve o Tambor de Mina) e a situação histórica e social de exclusão de áreas quilombolas da região de Itapecuru, aliada à falta de políticas públicas de inserção. Por esses temas mais que pertinentes, e que pertencem à história de nosso país, e por retratar com tanto amor sua cidade é que a leitura deste romance não pode passar despercebido, nem aos leitores maranhenses nem aos leitores do restante do Brasil.