terça-feira, 8 de setembro de 2020

"O riso de Inês", conto de Luciana Frank

 


Limpava distraidamente o balcão de madeira envernizado, quando a avistou ao longe. Tirou a mecha de cabelo que impedia uma visão mais completa e pôs-se a contemplá-la. O seu andar elegante, seu porte de bailarina, o caminhar harmonioso na ponta dos pés combinavam com toda aquela beleza.

Soube que ela se chamava Inês assim que a atendeu naquela primeira vez que a viu entrar ali como uma desculpa para fugir da chuva fina que caía. Agora virou freguesa assídua, gostava de ir à padaria pontualmente às cinco da tarde e ele se adiantava para atendê-la. Pedia sempre a mesma coisa: um café preto e um croissant de queijo. Nenhuma novidade além do estilo e da cor das roupas. Usava sempre o mesmo penteado. Cabelo preso em um coque no alto da cabeça que deixava escapar alguns fios sob a nuca, óculos de aros quadrados, carteira de cigarros incompleta, um isqueiro de prata com duas iniciais que colocava em cima da mesa e os constantes suspiros saudosistas.

Notava algo que talvez passasse despercebido para os freqüentadores da aconchegante padaria de arquitetura colonial. Com o papel de pedidos na mão e a caneta segura pela orelha, notou que Inês tinha os olhos mais tristes que já viu em alguém. Grandes e bonitos, mas opacos e sem vida. Ouviu dizer nas entrelinhas das conversas, que antes de tudo acontecer, Inês era outra. Uma moça cheia de vitalidade, que mantinha os cabelos soltos, livres como uma moldura vasta e selvagem no rosto oval. Sua tez era morena, não pálida. Os olhos cheios de alegria e a gargalhada desenfreada e sonora. Espalhafatosa. Um dia seus lábios foram pintados de vermelho e não formavam a linha rígida que se mostrava agora. Inês gostava de rir?

Sim. E alto.

Aliás, a gargalhada que dava era sua marca registrada.

De acordo com algumas informações aqui e acolá, descobriu que era aspirante a cantora e atriz de teatro. Porém, só conseguira soltar sua voz nas noites boêmias em pequenos estabelecimentos esfumaçados e barulhentos. Diziam que cantava bem, de uma forma sensual, lembrava a Elis Regina. Mas o que os homens notavam mesmo era seu corpo cheio de curvas, em vestidos justos, se insinuando atrás do microfone no meio do tablado empoeirado de madeira. No teatro, gostava de encenar mocinhas ou vilãs, bruxas ou fadas, ou o que colocassem para ela fazer. Não possuía aquela ânsia em querer se mostrar mais que qualquer pessoa. Queria mesmo era aquela sensação de estar em um lugar que parecia ter vida própria, respirar com seus próprios pulmões, que palpitava a seus pés. O palco de um teatro. Mesmo que seus olhos vissem inúmeras cadeiras vazias, sua alegria continuava vibrante e a gargalhada solta que chegava a incomodar pela felicidade que transmitia. Cada poro de Inês sorria.

Anos mais tarde, ela se casou. Falaram que foi com um admirador e freqüentador assíduo das peças que participava. Um rapaz de boa aparência e família. Os amigos sentiram sua falta por muito tempo. Inês nunca foi alguém fácil de ser substituída. Sumiu por uns tempos, como se estivesse experimentando outros ares, depois reapareceu completamente diferente do que foi um dia. Arrancaram a pele que recobria Inês, o que viam era o que tinha por dentro. Um coração gelado em uma fajuta postura de mulher casada.

O que ficou sabendo, nas constantes conversas sobre sua mudança, era que seu marido reprovava suas atitudes, sua voz, obrigando-a a calar. Que se incomodava com sua risada, repreendendo seu tom alto, a forma alegre que falava, recriminando-a por parecer infantil, seus cabelos soltos que não lhe davam um ar sério de mulher casada.

Chorava angustiada pela dor de cada pena que lhe foi tirada no silêncio dos olhos que recriminavam. No início, ela teve suas asas disfarçadamente aparadas. Depois, cortadas e arrancadas de forma cruel. Até que o que sobrou foi uma mulher magra, de ossos longos de postura curvada, derrotada, de olhos tristes e fundos. Não mais saía, aprendeu a temer a noite que antes tanto a atraía, enxergava a vida através de uma janela de vidro embaçada pela chuva que caía fora de si e escorria por dentro.

Inês já não era o que foi. Já não lembrava o que a fazia feliz, como se fosse algo que ofendesse quem tivesse a seu redor e por mais que encenasse um pequeno ato na frente do espelho do quarto, envergonhava-se de sua ousadia em voltar a tentar a fazer o que havia sido proibida, a recolher as migalhas de um passado negado.

Todavia, mais tarde veio a separação. Ouviu dizer, aos cochichos, que seu recente ex marido não mais aturava uma alma sem fôlego, uma mulher que não ria, que não conseguira emergir de um mar revolto, um corpo frio e rígido ao seu lado na cama. Assumiu uma moça mais jovem, não em idade, porque Inês ainda era jovem, nem beirava os quarenta. Mas, a outra tinha presença de espírito, a pele corada, viva.

Assim voltou Inês para sua antiga casa e bairro que acolheu sua infância, carregando uma mala de couro e segurando um cachorro pequinês. Encontrara muitos de seus antigos moradores, mas parecia que não os conhecia, acenando por educação, sem querer encompridar o papo. Sempre que a avistava atravessar a rua para entrar na padaria, ele sorria para ela. No início, ela não lhe retribuía. Timidamente, fazia seu pedido como se ele já não o soubesse de cor. Seu olhar inquisidor, ávido, vasculhando o ambiente, porém com uma pequena e derradeira inquietação por detrás da tonalidade incomum de verde. Um sorriso meio de lado, que queria se abrir.

Chegava a ter certeza que a antiga Inês retornaria, assim como a história da Fênix que ressurgia de suas próprias cinzas. Ainda mais bela, com a voz mais bonita e experiente, com o encenar mais incorporado, mais real. Era apenas uma questão de tempo, como o bater de asas de pássaros inquietos presos em um viveiro no meio de um jardim de inverno, que nunca chegaram a ser o azul do céu. Esperando uma brecha, um descuido, um passo em falso, uma oportunidade para alçar voo novamente.

E rir baixinho, até gargalhar. Desta vez, mais alto.












*Luciana Frank é uma jovem escritora maranhense, com uma escrita sensível e tocante. Esperamos que tenham apreciado este momento literário aqui no blog ;)

 Natércia




terça-feira, 1 de setembro de 2020

"Uma noite, Markovitch", romance de Ayelet Gundar-Goshen

 

(São Paulo: Todavia, 2018) Lido no Kindle. 355 pág.

"E tamanho esforço, certamente, não era sinal de indiferença. Era sinal de ódio. Aquela ideia consolava um pouco Iaakov Markovitch, pois ele sabia muito bem que o contrário absoluto do amor não era o ódio, e sim a apatia." (p. 242)

A leitura que vou indicar hoje foi escolhida e debatida mês passado pelo meu clube de leitura, portanto indicada por uma de nossas integrantes, a Sara Serra, que além de ser enfermeira é uma grande leitora. E que indicação maravilhosa! Ela foi ano passado para a FLIP e, dentre outras experiências literárias, Sara conseguiu assistir uma mesa redonda em que estavam duas jovens autoras: a israelense Ayelet Gundar-Goshen e a nigeriana Ayòbámi Adébáyò. Apesar de vindas de culturas diferentes, ambas conversaram sobre a posição da mulher em uma sociedade tradicional, sobre família e sobre como criar laços em meio a conflitos sócio-políticos. Durante a FLIP, Goshen lançou seu romance "Uma noite, Markovitch", que na verdade já havia sido publicado em terras internacionais desde 2012.

"Uma noite, Markovitch" é o romance de estreia de Ayelet Gundar-Goshen. Escrito de forma leve e bastante poética, possui pitadas de realismo mágico, aproximando a narrativa a uma fábula contemporânea. Quando eu digo "leve" não quero dizer que não possui temas conflituosos e espinhosos sendo tratados na história; mas o tom irônico muitas vezes atenua a dor e a desgraça com que as personagens principais vão se deparar em suas sagas. Porque sim, é uma saga, e esta se inicia pouco antes da 2a Guerra Mundial e no contexto de perseguição aos judeus.

Ao escapar de uma aventura sexual e da iminente vingança mortal de um marido traído, Zeev Feinberg, o agricultor mais popular e bonito de uma colônia agrícola da Palestina, foge para a Europa com a ajuda/ intervenção de seu amigo Efraim, o vice-comandante do Irgun (uma organização militar israelense). A proposta de Efraim é que Feinberg integre uma missão de resgate de mulheres judias e case-se com uma delas lá, para depois voltar e divorciar-se da moça em Tel Aviv. Dessa forma ele e tantos outros judeus palestinos estariam ajudando a salvar judias da crescente perseguição nazista. O grande amigo de Feinberg, o insípido e feio Iaakov Markovitch, acompanha-o nesta missão sem nenhuma expectativa, e é por isso mesmo que o destino lhe surpreende com um golpe de sorte: reserva a Markovitch a mulher mais bela do grupo para casar, Bela. O que ocorre é que na volta, ao contrário de seus companheiros que cumprem o acordo, Markovitch recusa-se a se divorciar decidindo manter Bela a seu lado contra sua vontade.

Poderíamos pensar a partir desse fato que Markovitch oprimiria Bela continuamente, porém ele a respeita, mantendo-se inclusive afastado dela, dormindo em cômodos separados da casa, esperando passivamente o bom momento em que nela crescesse a semente do amor. Aceita inclusive que Bela leve a vida que deseja: ela chega até a passar dois anos fora da colônia agrícola vivendo suas próprias experiências. Mas volta pois engravida e percebe que o mundo não é exatamente aquele pintado pelos poetas.

O realismo mágico do qual mencionei se mostra nas sutilezas da narrativa, extremamente sinestésica e  carregada de cheiros: Sonia exala o cheiro da laranja, tão cultivada nas colônias agrícolas de Israel e da Palestina. O bigode de Feinberg parece ter vida própria também. As frutas e a terra tem o cheiro do sangue e da conquista, aspectos intrínsecos à vida dos habitantes daquela região. 

O romance em si narra a saga não só de Feinberg e Markovitch, mas das pessoas que estão à sua volta: a esposa de Feinberg, Sonia; Rachel Mandelbaum e seu marido Avraham, o açougueiro local; e Efraim. Todos eles passarão por traumas que existem ali no contexto que falei anteriormente: o trauma das guerras, das perseguições, das desesperanças e o desafio dos recomeços. Apesar de à primeira vista Markovitch se resignar a um papel secundário nas vidas daquelas pessoas, ele se mostra importantíssimo por suas atitudes e falas; é aí que percebemos suas maiores características: a persistência, a capacidade de amar, de ter fé, de perseverar e sua lealdade. Mas tudo isso não livra Markovitch da solidão permanente que ele terá que enfrentar na vida. 










domingo, 2 de agosto de 2020

Jenipapo, crônica de Vilton Soares

É assim com nossa memória. Numa dentada ela se assanha e fica lá espalhada. Aí vem o desafio de fiá-las e confiar-se nas lembranças... e escrevê-las. De um tempo para cá venho pensando que revisitar e ressignificar o passado é a melhor maneira de subvertê-lo, para mantê-lo vivo... Pois foi assim hoje de manhã...


Jenipapo do café da manhã de hoje

                     Por conta da pandemia e graças ao trabalho remoto pude revisitar minha mãe. Como tudo que se liga a ela é generoso e farto, visitá-la significa reviver três mundos: Recife, Garanhuns e o Sertão, esse cada vez mais verde, perfumado e menos autêntico nas minhas memórias.
(In)felizmente essa fartura também se realiza em mesas cheias e refeições em continuum, como o rio das nossas histórias.
              Julho é mesmo um mês mágico no Sertão... é cheiroso ! Vejo  bodes e cabras brotando de moitas verdes e espinhosas, aves de rapina coloridas saciadas, nuvens carregadas e o caudaloso Velho Chico ainda gerando energia elétrica com um canto raivoso e sofrido... 
               Tudo isso é lindo ! Há um portal mágico formado por sete colinas que protege esse mundo... para dele desfrutar tenho que enfrentar os montes Sinai, Triunfo, Columinho, Ipiranga, Antas, Magano e Quilombo, no planalto da Borborema. Por esse frio jardim edênico penetro um mundo controverso e tenso e que exige de mim muito amor e condescendência para compreendê-lo, um real exercício de alteridade...
                        ... que sempre começa em Recife, passa por Garanhuns e desta vez terminou em um mergulho nas caixas de fotos preto e branco da minha mãe, onde eu procurei detalhes dos ascendentes familiares para colorir a memória e dar liga à minha genealogia. 
Uma mãe ainda menina, com traços fortes e em pose de professora entre alunos circunspectos... nunca poderia imaginar que aos 20 anos uma mulher pudesse tanto no Sertão dos anos 50 e 60 do século passado, mesmo sem poder...
          Em um mergulho mais profundo no tempo fotográfico revelam-se 13 rostos instigantes que parecem prenunciar a minha avaliação 60 anos depois... que diálogo tenso ! Sinto um frisson: (des)culpa, pesar, brio, dignidade e honradez, tudo misturado. 
Com um olhar mais perspicaz vejo os 13 dispostos em duas filas, em dois planos, no segundo, de pé, formada pelos meus tios de terno e gravata, ainda não aparentando nem ter enfrentado 20 verões, e em primeiro plano, sentados, as tias, meus avós, minha mãe e um tio-menino ... curioso ver a distribuição dos que estão no primeiro plano, três à direita e três à esquerda da figura central: minha avó. Cena linda !
                Pronto ! Estou falando da difícil tarefa de compreender a força feminina nesse mundo contraditório... minha avó e 11 filhos, mas ela ao centro. Todos altivos, mas sisudos... majestosos apesar da cultura, da política, da economia, da história, de tudo.
                 Diante de cada foto eu perguntava “mãe, quem é esse ? E essa ? E isso? Quando foi ? Onde foi tirada essa foto?” e as respostas vinham de um lugar orvalhado:   “era a minha melhor aluna, mas fugiu com um homem”, “eu gostava tanto dela, mas nem sei se ainda está viva”, “ele era bruto, mas não nos deixava faltar nada”, “a bichinha sofreu tanto, mas foi feliz”... aí eu ressignificava aquela posição central da minha avó na foto...
               Tudo aquilo jogava luz nas minhas memórias de infância. A construção de grandes hidroelétricas na bacia do Rio São Francisco nos anos 60 e 70 do século passado havia atraído profissionais dos mais variados lugares do Brasil e do exterior, o que criou um cadinho intercultural efervescente em um contexto de muitas tensões traduzidas na escultura do Touro e a Sucuri ou próximas de um Duelo de Titãs. 
 A cidade(zinha) totalmente planejada, cercada e ilhada dispunha de escola com professores e colegas das mais diversas partes do Brasil, o que nos permitia muitas aprendizagens. Nos encontros nos clubes e nas piscinas reabastecíamo-nos de energias e aprendíamos a resiliência e a importância de se lutar contra as fronteiras, que eram muitas. Superar os limites só era possível ao reunir os amigos para ver a chegada de helicópteros afugentando e repelindo as cabras, o calor, as distâncias e a terra seca. Ir ao cinema e prestigiar nomes da cena cultural nacional no clube da cidade eram sopros de esperança na transposição de tantas barreiras ... esse ambiente antinômico punha em contraste a seca e a penúria de um dos Sertões à opulência das águas e abastança, de um outro. 
             Era comum ouvir e ver mulheres em situações de comando, nas casas, na escola, nas usinas, nas aulas de natação do clube, protagonistas em muitos casos de divórcios, histórias de traição... como eu gostava de ouvi-las... muitas assalariadas, conduzindo carros, até mesmo engenheiras, em pequeno número. É difícil (re)ler essas fotos e pensar na condição feminina dentro dessa microssociedade : “ele era bruto, mas não nos deixou faltar nada”, “a bichinha sofreu tanto, mas foi feliz!” ou referindo-se a um “ela não tinha nada” concluía-se com “... e perdeu tudo que tinha”. 
        O Sertão que me constitui e que carrego em mim é discordante, divergente e inverso do que li e ouvi sobre esse mundo, e do que sinto e vejo. Precisa ser reescrito. E, todas essas memórias vieram à tona hoje no café da manhã no “portal do Sertão” quando uma voz doce quebrou o meu deleite com o gole de café quente e me propôs “quer um jenipapozinho? Está na época !”. 
Pronto! Outra memória do baú escondido: Jenipapo ! A fruta in natura,  não é o licor ou o doce ... Ao sentir o cheiro putrefato e tentador, o sabor acrimonioso da fruta crua na boca ... veio todo o Sertão em mim: agrura-deleite, amargo-doce, verde-podre, morto-vivo, satisfação-aflição, vida-morte, (des)encanto ...


Garanhuns - PE, 12 de julho de 2020.

* Vilton Soares (viltonsoares@ifma.edu.br) é Professor de Português e Francês do Instituto Federal do Maranhão - IFMA e Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP); é pernambucano de nascimento e maranhense de coração, onde reside há vários anos. É um ser humano incrível, de sensibilidade e perspicácia aguçadas; por seus olhos e em seu íntimo navegam memórias de tempos de outrora. Espero que tenham gostado desse texto, o qual nos faz retomar memórias e analisar as ambiguidades que constituem nosso complexo ato de existir.

Beijos,

Natércia





sexta-feira, 24 de julho de 2020

O Lugar Mais Sombrio vol.1: A Noite da Espera, romance de Milton Hatoum

(São Paulo: Companhia das Letras, 2017)

Talvez seja isto o exílio: uma longa insônia em que fantasmas reaparecem com a língua materna, adquirem vida na linguagem, sobrevivem nas palavras...(p.210)

Olá beletristas, tudo bom? A resenha crítica de julho se dirige a um romance de um dos meus autores favoritos, o amazonense e super premiado Milton Hatoum (quem nunca ouviu falar ou já leu o aclamado romance Dois irmãos ?), que também é considerado pela crítica literária especializada já como um dos grandes autores de nossa contemporaneidade. A noite da espera é o primeiro volume da trilogia chamada O lugar mais sombrio; o volume 2 já foi lançado também (Pontos de fuga) e o volume 3, segundo o autor, já está em fase de revisão para chegar a nossas mãos em 2021. Confesso que já comprei para ler o Pontos de fuga, porque né... trilogia quando agarra pela história, a gente vai até o fim! 

Estamos falando de um romance de formação em pleno contexto político-social da ditadura brasileira. Martim, o personagem central e também o narrador da história, relembra no exílio em Paris seus 5 anos de vida em Brasília, tanto com seus novos amigos da revista Tribo quanto com seu pai Rodolfo, um homem rígido, de índole difícil e cheio de segredos. Com a separação dos pais, Martim aos 16 anos é avisado pela mãe Lina que ele vai morar com o pai, que acabou de aceitar um emprego de engenheiro numa firma em Brasília. Sendo assim, pai e filho se mudam para uma cidade em ampla expansão em 1968, que coincide também com a mudança de regime político no Brasil.

A solidão da cidade e a tentativa de adaptação levam Martim a fazer amizade com o dono da livraria Encontro, Jorge Alegre, onde depois o jovem vai trabalhar. É no pequeno auditório da Encontro que Martim conhece o grupo de teatro de Damiano Acante e faz amizade com esse professor e com outros integrantes da trupe: Nortista (apelido de Lélio), Vana, Ângela, Fabius, Lázaro e Dinah, esta última por quem Martim se apaixona. Apesar de pertencerem a classes sociais diferentes (do mais pobre e morador de Ceilândia, passando por Taguatinga e chegando na Asa Norte e Sul), esses rapazes e moças descobrem as delícias e dores da liberdade, do ativismo político-estudantil e da sexualidade, e vão amadurecer juntos a ponto de fundarem uma revista artístico-literária, a Tribo. Seus contextos sociais e experiências familiares também influenciarão suas atitudes e decisões quando chegar a hora mais difícil: a da repressão política.

A narrativa de Hatoum é muito envolvente e com o passar das páginas o leitor vai sendo transportado para os dois estados mentais de Martim: o do presente que é o exílio, saudoso de Dinah e de sua mãe Lina,  perdido nas ruas e boulevares parisienses e em encontros ocasionais com outros brasileiros exilados; e o do passado, o qual tenta reconstituir por meio de folhas de anotações da época em que morou em Brasília. Dessa forma conseguimos perceber o amadurecimento dessa personagem, pois 10 anos fazem muita diferença em sua percepção de mundo e no entendimento dos fatos que lhe aconteceram. 

O que Martim presenciou de 1968 a 1972, do fim do Ensino Médio para o início da vida universitária na UNB, talvez ele só consiga digerir agora no exílio. Era uma época em que pouco se podia confiar nas pessoas, em que você tinha que conviver com olheiros e delatores na própria sala de aula; época em que se via seus professores da universidade serem presos e demitidos a olho nu e você se sentia impotente por não fazer nada. Época em que as metáforas falavam mais que as verdades oficiais. Em quem acreditar? E em qual versão da história? Martim só contava com os amigos e as experiências que teve ao lado deles, e mesmo assim, viu coisas bem distintas: das favelas de Ceilândia ao apartamento chique na Asa Sul do triste e intelectual Embaixador Faisão, pai de seu amigo Fabius e patrocinador da revista Tribo.

Martim não quer só reconstituir em um texto suas memórias; ele também quer esclarecer dúvidas de seu passado. Por exemplo: onde está sua mãe, que nunca disse exatamente onde morava e manteve contatos rápidos com ele, sem nunca dar certezas? Por que o pai de Martim tem tanta raiva de Lina? Só porque ela o abandonou para morar com um artista? E o que cerca a vida de Rodolfo nos covis políticos de Brasília, "essa cidade silenciosa"? Esperamos que essas perguntas sejam respondidas no restante da trilogia :) 

A liberdade é uma quimera. Essa noite macabra é muito longa, não vai acabar tão cedo assim. Um dia termina. A história é movediça. (p.158)



terça-feira, 21 de julho de 2020

NASCIMENTO MORAIS FILHO: reverberações de um poeta incansável, por Natércia M. Garrido




Nascimento Morais Filho em lançamento da 4a ed. (neste caso a internacional) de "Clamor da Hora Presente" (junho/1992)

Este ano relembramos o aniversário do poeta maranhense Nascimento Morais Filho (1922-2009), que se estivesse vivo celebraria no dia 15 de julho de 2020 seus 98 anos. Durante a maior parte de sua vida, meu avô se dedicou à literatura, às lutas sociais e à pesquisa literária, realizando um movimento constante e incansável em prol da cultura maranhense. Em minha curta convivência com ele, da década de 1980 até os anos 2000, pude presenciar e absorver toda sua coerência, inteligência e ativismo político – e quando escrevo “político” falo no sentido de uma pessoa que sabia muito bem não só “ser” humano mas também “existir” como ser humano, não só para sua família como também para seus amigos, alunos e admiradores.

O poeta era filho de outro nome bastante conhecido das letras maranhenses, o meu bisavô José Nascimento Morais, jornalista, contista e romancista ("Vencidos e Degenerados", 1915). Mas o Filho enveredou por outro caminho que não foi o do pai, o da prosa literária, pois pertenceu à geração que iniciou efetivamente o Modernismo na poesia do Maranhão chamada pelo crítico Assis Brasil** de “Geração de Bandeira Tribuzzi”. O movimento modernista aqui no Estado buscava desgarrar-se de um cheiro persistente da “tradição romântico-parnasiano-simbolista”, atualizando enfim, as conquistas estéticas datadas da Semana de Arte Moderna (1922). Surgindo em fins da década de 1940 para consolidar-se em 1950, o Modernismo poético maranhense revela nomes tão importantes quanto o de Bandeira Tribuzzi, considerado o iniciador deste movimento com a publicação de seu livro Alguma existência (1948): ao lado de José Chagas, Nauro Machado, Bernardo Almeida, Manuel Lopes, Dagmar Desterro, Ferro do Lago, Tobias Pinheiro, Clóvis Ramos, José Sarney, Lago Burnett e Ferreira Gullar, está Nascimento Morais Filho. Todos esses poetas publicam de uma forma ou de outra seus escritos ao longo da década de 1950 e nas décadas posteriores, seja em livros ou em periódicos (jornais e revistas) como também testemunharão publicações de novos autores, como José Maria Nascimento, Manuel Caetano Bandeira de Melo, Lucy Teixeira, Carlos Cunha, Lauro Leite, Venúsia Neiva, Fernando Braga, Raimundo Fontenele e Ribamar Feitosa, para citar apenas alguns nomes. 

Outro ponto catalisador do Modernismo no Maranhão foi a fundação do Centro Cultural Gonçalves Dias em 1945, que muito mais do que combater um determinado “passadismo literário”, como disse o autor Rossini Corrêa, pretendia tirar o cenário intelectual da época de um marasmo, retomando mesmo uma atividade literária mais pungente e atuante. Conforme Corrêa (1989)***, o CCGD foi uma sociedade cultural que agregava tanto intelectuais de outrora (como Luso Torres, Manoel Sobrinho, Bacelar Portela, Clodoaldo Cardoso e Nascimento Morais, pai) quanto a mocidade ávida por novas discussões e participações, dentre eles Nascimento Morais Filho, Vera Cruz Santana, Reginaldo Telles, Agnor Lincoln da Costa, Antonio Augusto Rodrigues, José Bento Nogueira Neves e Haroldo Lisboa Olímpio Tavares e outros nomes. Como essência, o CCGD era mais um movimento cultural do que um movimento de escola literária e por isso promovia discussões e leituras, chegando a editar dois números de uma revista literária do grêmio, abrindo espaço para publicações de novos autores. Tudo isso contribuiu para agitar realmente o cenário intelectual local. 

Da esq. para a dir.: Nascimento Morais Filho, Jomar Morais, José Sarney e o poeta e jornalista Paulo Nascimento Morais (irmão de NMF). Década de 1960.

Meu objeto de estudo e pesquisa é a obra de Nascimento Morais Filho, mas como percebemos, estudar seus escritos e sua trajetória literária é também pesquisar sobre os primórdios da poesia modernista no Maranhão, sua recepção crítica e sua consolidação por meio de obras de outros grandes autores e desbravadores. Sendo assim é importante lembrar que, como poeta, Morais Filho escreveu três obras: Clamor da Hora Presente (1955), Azulejos (1963 – minha obra favorita e fruto de minha dissertação de Mestrado em 2016 intitulada A poética modernista em Azulejos de Nascimento Morais Filho e publicada em livro em 2019) e Esfinge do Azul (1972). Para o meu doutorado, o qual ainda está em curso, realizo um estudo crítico de todo este conjunto poético, partindo do conceito de liberdade, fio condutor perceptível na escrita de Morais Filho.

Meu livro. Link para compra AQUI


Para além de sua produção autoral, é sempre bom destacar o trabalho incansável de Morais Filho na pesquisa literária com o sentido de resgatar nomes que, por um motivo ou outro, foram esquecidos (para não dizer excluídos) das antologias e seleções literárias, como é o caso de Estevão Rafael de Carvalho e sua A metafísica da contabilidade comercial (1837; reeditada em 1987) e a nossa Maria Firmina dos Reis, a primeira mulher brasileira a escrever um romance, Úrsula (1859; reeditada em 1975). A pesquisa que resultou na obra Maria Firmina – fragmentos de uma vida, publicada em 1975, até hoje serve de referência bibliográfica inicial para quem quiser realizar algum tipo de estudo de fato fundamentado sobre a autora, como foi o caso recente do sociólogo paulistano Rafael Balseiro Zin e seu livro Maria Firmina dos Reis: a trajetória intelectual de uma escritora afrodescendente no Brasil oitocentista(2019). Se hoje eu e tanto outros professores podem discutir com seus alunos os poemas de Cantos à beira-mar, os contos A escrava Gupeva e o romance Úrsula, devemos certamente ao resgate de meu avô-pesquisador.

Mas Morais Filho fez muito mais: de suas viagens pelo interior do Maranhão como Fiscal de Renda do Estado (sua profissão oficial) e também de suas pesquisas na Biblioteca Pública Benedito Leite, resultaram três obras cujo cerne é o folclore, quais sejam Pé de conversa (1957), Esperando a Missa do Galo (1973) e Cancioneiro Geral do Maranhão (1976). A primeira reúne quadras populares, comumente presentes nos falares do povo; a segunda traz contos natalinos de autores maranhenses, percorrendo um período de 150 anos; e a terceira resgata algo em torno de 2.800 trovas colhidas nos jornais do Maranhão dos séculos XIX e XX. 

Com toda essa dedicação às letras e à cultura maranhenses, Morais Filho foi homenageado e reconhecido em vida sim: integrou a Academia Maranhense de Letras (cadeira número 37) e recebeu a Medalha da Ordem dos Timbiras em 2008 – esta última a mais alta comenda ofertada pelo poder executivo estadual. Além disso, em vida, o poeta recebeu inúmeras visitas em sua famosa casa no Beco do Couto, 57, Centro, de pessoas das mais variadas estirpes sociais que ansiavam por suas conversas e conselhos e por absorver, assim como eu, de todo seu amplo conhecimento e de suas histórias de tempos passados. 

Nascimento Morais Filho à época do lançamento de seu terceiro livro de poemas, "Esfinge do Azul", em 1972. Ele contava 50 anos.

E ainda havia a Ecologia, luta que ele abraçou em fins da década de 1970 e continuou até o fim de sua vida. A causa ecológica resultou na fundação do Comitê de Defesa da Ilha de São Luís em 1981 (a qual agregou personalidades representativas da vida cultural e social do Maranhão, até mesmo religiosas), em inúmeros programas veiculados pela Rádio Educadora do Maranhão, em várias trocas de correspondências com ambientalistas como Raul Ximenes Galvão além de novas homenagens como a da ONG Greenpeace, por ter sido um dos primeiros defensores desta causa tão nobre em nosso Estado e no Brasil. Eu vi tudo isso e vivenciei seus princípios e seu amor pelo coletivo e pelas artes em geral. É por causa de todo o legado de grande valor que Nascimento Morais Filho deixou ao Maranhão que a memória de seus feitos ainda reverbera em nós.

*Natércia Moraes Garrido é Doutoranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP; é autora do livro A poética modernista em Azulejos de Nascimento Morais Filho(Goiânia, GO: Ed. Espaço Acadêmico, 2019); é Professora Assistente do Curso de Letras da Universidade Estadual do Maranhão e do Instituto Federal do Maranhão; é Crítica Literária, exercendo o ofício no Blog e no canal do YouTube, ambos intitulados A Beletrista; é neta e pesquisadora do legado de Nascimento Morais Filho.
** A poesia maranhense no século XX: antologia. Organização, introdução e notas de Assis Brasil. Rio de Janeiro: Imago Ed.; São Luís, MA: SIOGE, 1994.
*** CORRÊA, Rossini. O Modernismo no Maranhão. Brasília: Corrêa e Corrêa Editores, 1989.




terça-feira, 16 de junho de 2020

"Acaso", crônica de Vilton Soares



Foto: Marimbondo na janela. Foto do arquivo do autor (2020). 
ACASO

Crônica de Vilton Soares*

Acordei sobressaltado. Zumbidos trouxeram-me à realidade aflitiva do embargo das nossas vidas ... um olhar seletivo procura as atualizações das redes sociais, evitando tragédias, tão frequentes ultimamente. O desejo (in)controlado de não-ver antecipou o número de mortos pela COVID-19 no Brasil:42.802 mortos e 851.321 casos confirmados e, imediatamente, pensei no que nos liga uns aos outros. As subjetividades que a visita daquele marimbondo, ou caba para os amazônicos, me trazia ... Acordar-me às 6h30, isto é,  na madrugada de um domingo e naquele zum-zum-zum, foi providencial. Ocorreu-me fotografá-lo e ao ouvi-lo, ouvi-me ...
Foi-me segredado muita coisa. Atônito com a interferência nos meus pensamentos, sem tirar os olhos daquele bulício alado, ouço, sussurrada, a voz da minha ex-vizinha em Recife ... Morávamos eu e ela, sozinhos, cada um em sua casa, compartindo, por meio dos combongós das respectivas áreas de serviço, os silvos e burburinhos do domingo de manhã. Eu tinha 20 anos e estava na universidade, ela era uma ativa costureira, saía raríssimas vezes, já passara dos 70, vivia sozinha. 
Domingo de manhã era o espaço-tempo em comum de nós dois. Eu, preparando o sagrado café à italiana e pronto para “ganhar o mundo”, como repetia a minha mãe. Café e tapioca prontos, sentava e concentrava-me para ouvi-la cantar-se. Ela, ao mesmo tempo em que aguava suas plantas ... segredava-se ... distorcendo alguns versos de uma música muito tocada na época. O que me dava prazer era o conjunto da ópera ! Eram os cheiros de café e terra molhada, o burburinho, o alvoroço, os silvos, os sibilos, o rechino da sua voz ... e as mensagens subliminares que no silêncio e em outras semioses trocávamos ... Naquela época, compreendia como um sinal de que a discretíssima e circunspecta vizinha-amiga continuava sua sina, e entrava em profundo diálogo comigo, sob as rígidas coerções socioculturais que se impunham, mais a ela.  De um lado do muro o cheiro de café; do outro, os bulícios e solfejados, graças aos combongós ...  
A cada domingo eu escutava com clareza uma parte dos versos que ela repetia ... em um, marcava-me o “já não sei mais por que vivo a sofrer”;  em outro, “não sei por que, mas acho que é falta de compreensão”... hoje o zum-zum do marimbondo acordou e misturou várias memórias em interferência. 
Em uma das minhas idas ao Recife, fui ao bairro onde morei quando jovem, na tentativa de vê-la. Pelas minhas contas ela já teria passado dos 90 ... talvez nem me reconhecesse. Fui informado que ela morrera, por alguém que já lhe ocupava a casa. Perguntei por detalhes, já que a mesma não tinha parentes, desconversou. Doeu-me muito ser chacoalhado pelo zizio da sua máquina de costuras e do rechino da sua voz aos domingos ... retardou-me em dez anos esse estado de anojamento e uma sensação de réu ... ecoam os seus versos, em estridor, neste domingo. 
Com tantas almas partindo na velocidade da luz, como a da minha solitária ex-vizinha e sempre amiga, dói-me pensar na subjetividade das relações que (inter)ligam as mais de 42.000 vítimas da COVID-19 e que espalham pelo Brasil o atual estado de nojo. Ai, quanto nojo !  
Que dor me trouxe esse zumbido de marimbondo hoje de manhã ... e que foi respondido por memórias tão segredadas. Hoje ouvi na íntegra a música que ela cantava, descobri versos ainda não perscrutados e, o mistério do acaso distorceu mais uma vez minha percepção ... “Não sei por que meu Deus, sozinha eu vivo a penar”,  “Não tenho nada a pedir, também não tenho nada a dar”,  “por isso é que eu vou me mandar!”, “Vou-me embora agora, embora pra outro planeta, na velocidade da luz, ou quem sabe de um cometa”, “eu vou solitária e firme, onde a morte me aqueça” ... com a voz embargada, cantei em sua homenagem e escrevi como redenção. 

Domingo, 14 de junho de 2020, em São Luís do Maranhão, Brasil, 6h50 da manhã.

 

* Vilton Soares (viltonsoares@ifma.edu.br) é Professor de Português e Francês do Instituto Federal do Maranhão - IFMA e Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP); é pernambucano de nascimento e maranhense de coração, onde reside há vários anos. É um ser humano incrível, de sensibilidade e perspicácia aguçadas; por seus olhos e em seu íntimo navegam memórias de tempos de outrora. Espero que tenham gostado desse texto, que nos faz refletir sobre o presente e sobre nossa própria humanidade.

Beijos,

Natércia

sábado, 23 de maio de 2020

"Jude, o obscuro", romance de Thomas Hardy

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019)

"Mas a natureza humana não pode evitar ser o que é" (p.335)

O autor inglês Thomas Hardy é considerado pela crítica literária um dos últimos autores da era vitoriana, época em que a literatura inglesa floresceu enormemente, dos textos românticos das irmãs Brontë aos textos realistas de Charles Dickens. A sociedade vitoriana também provou das críticas ácidas contidas nas maravilhosas peças teatrais de Oscar Wilde e por fim, do pessimismo e da crítica ao puritanismo e conservadorismo nos romances e contos de Hardy.

Em seus textos ele se mostra muito mais um naturalista, no sentido de que retrata as vidas, os vícios e as desilusões das classes trabalhadoras e como essas pessoas não conseguem ascender socialmente por meritocracia, por mais que desejem. Daí se origina o pessimismo diante das vicissitudes da vida, tão bem apontado pela crítica como característica inerente dos textos de Hardy. A denúncia recorrente nos romances dele é que não há como fugir de algo que o indivíduo já está predestinado por vários motivos: porque é pobre; porque vem de uma família de degenerados; porque a moral e os bons costumes cerceiam o poder de decisão, escolha e liberdade que o indivíduo possui.

Considerando tudo isto, quero dizer que quando selecionei esse romance para ler eu já estava preparada espiritualmente para o que iria encontrar pela frente em suas quase 400 páginas. Eu já conheço a escrita desse autor desde quando li sua obra mais famosa, "Tess of the D'Ubervilles" (1891), que inclusive recomendo. Então pensei que gostaria de conhecer a triste história (sim, eu já imaginava que era triste) de "Jude, o obscuro" (1895).

O romance acompanha toda a trajetória de Jude, desde menino pobre e órfão criado pela tia-avó. Influenciado pelo sonho de seu professor, Mr. Phillotson, Jude também queria ser Doutor em Teologia e estudar na universidade de Christminster. Ele acreditava firmemente que conseguiria alcançar esse objetivo com esforço e afinco. E como Jude se dedicou. Ele estudava sempre à noite, pois de dia trabalhava muito, primeiro entregando os pães que sua tia avó fazia, depois como aprendiz de entalhador e restaurador de edifícios, fachadas e lápides. 

Aos 19 anos Jude se apaixona pela esperta Arabella, que o induz a casar-se com ela insinuando uma suposta gravidez. Já casado, ele descobre que as coisas no casamento não parecem assim tão românticas, porém está disposto a manter sua palavra. Daí em diante são muitas as reviravoltas que a vida pregará em Jude, fazendo com que ele sucumba inclusive ao vício da bebida,  entendendo que a realidade para pessoas como ele é muita dura e que o sonho de estudar em uma universidade é uma grande ilusão que ele construiu para si mesmo. 

No entanto, um fato ainda maior acontecerá: Jude conhece a prima Sue Bridehead, uma mulher inteligente e questionadora de vários princípios sociais aos quais, como mulher, está imposta, como a indissolubilidade do matrimônio ( o divórcio era permitido mas moral e socialmente condenado) e os dogmas da igreja anglicana. Leitora de filósofos e de poetas nada ortodoxos, Sue exercerá o fascínio e a atração que levarão Jude a algumas felicidades e a muitas tragédias.

A narrativa é muito bem escrita, desnecessário dizer isso para um grande autor como Thomas Hardy: a sucessão dos capítulos e o desenrolar dos fatos surpreendem o leitor a todo momento, até o final. Lembro que o tempo todo eu me pegava refletindo: "meu Deus, coitado do Jude", ou então, "gente, o Jude não merece isso". Um outro ponto que gosto nos romances de Hardy é que as personagens femininas tem VOZ e expressam bastante suas angústias, seus medos e suas intenções, que muitas vezes são bem diferentes daquelas que se esperavam de uma mulher vitoriana. Arabella e Sue não são submissas e à sua maneira, se impõem perante uma sociedade marcada, como já disse, pelo puritanismo e patriarcalismo. 

Ao final da leitura a impressão que fica, porém, é que não se pode fugir de um pré julgamento e de uma pré determinação social imposta a esses personagens, no caso Jude, Arabella, Sue e Phillotson. Por mais que eles lutem contra sua própria natureza e contra essa imposição moral vitoriana, no fim das contas eles perdem, de uma certa forma, esse jogo trágico que aceitaram apostar e contestar.