sexta-feira, 20 de março de 2020

"O xará", romance de Jhumpa Lahiri

(São Paulo: Biblioteca Azul, 2017)

"O nome que ele detestava tanto, ali escondido e preservado - essa tinha sido a primeira coisa que o pai lhe dera." (p.334)

Olá beletristas! Em tempos de pandemia, uma das melhores formas de aguentar uma quarentena é ler um bom livro, né? E principalmente um livro que nos faça pensar em nossa cultura, nossas origens. Saber de onde viemos é importante para saber para onde vamos e para reforçar nossos princípios e convicções. E quem sabe também, aprender com o outro, pois um dos grandes desafios dessa globalização pós - moderna é refutar a individualidade e exercitar a solidariedade.

A autora inglesa de ascendência indiana/bengali Jhumpa Lahiri nos traz muitas reflexões com seu romance O xará, publicado em 2003. A história gira em torno da vida de Gógol Ganguli, nascido norte-americano porém filho de um casal de imigrantes bengali, Ashoke e Ashima, que tentam a todo custo manter suas tradições e raízes vivas para os filhos, apesar de eles estarem o tempo todo fugindo dessa cultura que não se acham pertencentes. Para complicar toda a situação existencial de Gógol, existe a tradição de se nomear um filho na cultura bengali que é bem peculiar - pode-se levar anos até que se decida o nome correto para a criança, sendo que o normal é que ele tenha dois nomes: um familiar e outro "oficial", que reafirma sua existência para o mundo exterior.

Gógol teve o nome escolhido por seu pai por causa de uma história trágica que aqui não falaremos para não dar spoiler; desde já adianto que no início do romance levamos um soco no estômago. Mas à medida que cresce, Gógol percebe o quanto seu nome lhe parece esdrúxulo demais: primeiro porque ele não é russo, segundo porque não gosta de literatura russa nem sente afinidade com seu xará, o famoso autor russo Nikolai Gógol. Terceiro, seu nome nem é prenome, é um sobrenome. Está feita aí a confusão que acompanhará o jovem rapaz ao longo de sua vida, levando-o a considerar de fato a mudança de nome na maioridade, algo super comum nos EUA.

Mas o que a narradora no fundo quer nos fazer enxergar por meio da história de Gógol são questões muito mais profundas e que retomam a temática do deslocamento físico e emocional vivenciado por imigrantes e filhos de imigrantes, no caso aqui os da cultura bengali. O nome de Gógol é a ponta do iceberg para puxar reflexões sobre pertencimento cultural mais complexas: os pais de Gógol vivem num círculo fechado de amigos bengali, estando sempre num "limbo" intercultural (americana x bengali) ; os filhos desses pais imigrantes, representados por Gógol e sua irmã Sonali e depois pela noiva de Gógol, Moushumi,  são aqueles que vivem a cultura americana e fogem da cultura de seus pais, e sendo assim, permanecem deslocados, buscando seu lugar no mundo. 

A escrita de Lahiri consegue nos fazer visualizar, como um filme, a vida de Gógol Ganguli até o início dos 30 anos, que é quando ele começa a perceber o que o une e o que o distancia de sua cultura. Claro que essa percepção se dá devido a algumas reviravoltas em sua vida, como acontece de praxe na vida de todo ser humano. O certo é que ao lermos sobre as lutas internas, percalços e memórias de Gógol, descobrimos que, no fundo, somos o resultado daqueles que nos geraram e/ou nos conduziram pela vida. Em suma, não importa muito o que fazemos nem para onde vamos, o quão longe seja: estamos sempre impregnados daqueles que vieram antes de nós, nossos ancestrais. Não há como escapar. 

sábado, 1 de fevereiro de 2020

"O demônio da garrafa", conto de Robert Louis Stenvenson

Lido no Kindle (comprado por R$4,90)

"E mais uma vez vou usufruir o bem que acompanha o mal".

Olá beletristas, tudo bom? A dica de leitura hoje é do conto de quase 50 páginas O demônio da garrafa, do autor escocês Robert Louis Stevenson. Publicado ali pela década de 1880, o conto traz algumas caraterísticas que marcam a escrita do autor: as viagens a lugares exóticos e o flerte com o fantástico, em específico a temática bem x mal. Muitos de vocês devem conhecer ou ter lido seu romance mais famoso: O médico e o monstro (1886, o qual recomendo fortemente).

A leitura flui rápido não só porque é curta mas porque a história é instigante: o marinheiro havaiano Keawe, em uma de suas inúmeras viagens, chega à cidade norte-americana de San Francisco e é estranhamente convidado a adentrar uma bela mansão. O dono do local diz que ela está à venda, mas como Keawe não tem dinheiro para comprá-la, aquele lhe oferece uma garrafa, dizendo que quem a possuir será um homem muito rico pois ali mora um demônio que satisfará todos os desejos de seu dono. Diz também que pessoas muito famosas e poderosas foram donas dessa garrafa, como Napoleão Bonaparte e o Capitão Cook.

 Sem acreditar muito na história, Keawe compra a garrafa e ao mesmo tempo já toma conhecimento das desvantagens da aquisição: se ele quiser revendê-la, terá que ser por um preço menor do que comprou (ou seja, menor que U$ 50,00) e se não se desfizer da garrafa antes de morrer, irá para o inferno. Durante a viagem de volta para sua casa no Havaí, Keawe relata o caso ao amigo Lopaka, que também não acredita nos poderes do demônio da garrafa mas diz que comprará o objeto de Keawe se ele quiser. Mas Keawe faz seu pedido ali: de ser um homem muito rico e dono de uma bela mansão na praia.

Ao aportar, Keawe descobre que seu tio rico morreu e ele é seu único herdeiro. Ou seja, seu desejo é atendido. Agora dono de uma vasta fortuna e de uma bela casa, ele aceita vender a garrafa ao amigo, livrando-se assim, de um pesadelo maior. Após alguns anos, Keawe conhece a linda Kokua e um amor avassalador apodera-se dele. Mas infelizmente nesse mesmo dia ele descobre estar com lepra e se desespera. A solução para curar-se de uma doença sem cura, para posteriormente casar-se com o amor de sua vida, é recomprar a garrafa com o demônio dentro. Agora Keawe terá que empreender uma jornada rumo ao mal, tentando manter o resto de bem que há em si mesmo.

A história tem várias reviravoltas e é isso que torna a leitura instigante, como falei no início; outro plus são as descrições de cenários exóticos que nos levam ao Havaí e à Polinésia Francesa, tudo pra nos fazer pensar repetidamente: vale a pena vender a alma ao diabo?



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Todos nós adorávamos caubóis, romance de Carol Bensimon

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019)

"Todas as ótimas ideias já pareceram más ideias em algum momento" (p.17)

Olá beletristas, tudo bom? O primeiro post do ano traz para vocês a resenha do romance aí da foto, com o título inusitado Todos nós adorávamos caubóis da jovem autora gaúcha Carol Bensimon. Em 2018 ela ganhou o principal prêmio literário brasileiro, o Jabuti, pelo romance O clube dos jardineiros de fumaça. Não o li, mas lembro que na época muitos bloggers e booktubers o resenharam e houve muitas opiniões divididas pelo tema um tanto polêmico: cultivo ilegal da maconha. Atualmente Bensimon mora na Califórnia (EUA) e para mais informações sobre ela vocês podem acessar seu site oficial AQUI.

Todos nós adorávamos caubóis foi publicado em 2013 e alia dois estilos que eu particularmente gosto em romances: o road novel ("romance de estrada", em uma tradução bem grossa) e o de formação. E explico porquê. A narradora-personagem Cora é uma jovem brasileira que estuda Moda em Paris e resolve passar suas férias na terra natal junto de sua velha amiga da faculdade de Jornalismo, Julia. Elas combinam de se encontrar em Porto Alegre (Julia mora e estuda em Montreal, no Canadá) para realizarem um antigo sonho: pegar a estrada e percorrer as cidadezinhas do interior do Rio Grande do Sul, sem muitas expectativas. Taí configurado o estilo road novel.

Mas e o romance de formação? É que ambas vão usar a "desculpa" da viagem para tentar entender não só seus problemas particulares, como o próprio relacionamento que elas tem uma com a outra, e que foi abalado por um acontecimento na época da faculdade. Essa viagem é uma tentativa de resgatar o que foi perdido ou ficou obscuro no passado, apesar de Cora achar que essa viagem já estava fadada ao fracasso desde o início.

Cora é bissexual e ainda apaixonada por Julia; Julia não tem bem certeza sobre esse relacionamento. Cora precisa enfrentar o fato de que seu pai casou de novo e terá um filho; ao invés de chegar a Porto Alegre e acompanhar o nascimento do meio-irmão e matar as saudades da mãe, ela se embrenha com Julia rumo a cidades de nomes cômicos, como se fugisse da realidade. Essa é uma viagem de amadurecimento para as duas; elas não sairão ilesas ao fim - taí o romance de formação.

A temática mais latente na história é a questão da descoberta e afirmação da sexualidade. E ela vai se revelando aos poucos para o leitor, pois a viagem que acontece no presente é entrecortada por lampejos do passado das jovens, remetendo a fatos ocorridos na infância, adolescência e faculdade, e como elas lidaram com eles. Percorrer e conhecer a dinâmica das cidadezinhas apenas aumenta a lupa de como elas enxergam o que ficou para trás. Algumas cidades possuem importância histórica (caso de Bagé) ou são portas de denúncia (ou apreciação) por suas riquezas naturais, como Minas do Camaquã. O certo mesmo é que esses lugares são meros coadjuvantes para suas experiências e questionamentos sobre um futuro incerto.



sábado, 28 de dezembro de 2019

"Êxtase da transformação", romance de Stefan Zweig

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019)
Enviado pela TAG Curadoria para seus assinantes em Novembro/2019

"A surpresa lhe corta a respiração. Nem mesmo em sonhos ela ousara imaginar-se tão bela, tão jovem, tão enfeitada [...]: começara nesta criatura humana o êxtase da transformação." (p.63; 65)

Olá beletristas, tudo bom? Nesse último post do ano de 2019 trago pra vocês a resenha de minha última leitura do ano: o romance Êxtase da transformação, do autor austríaco Stefan Zweig. Confesso que fiquei surpresa ao abrir minha caixinha da TAG Curadoria de novembro pois há muito tempo mesmo não ouvia falar desse autor, salvo quando li, de sua autoria, o famoso "Brasil, o país do futuro" - retrato apaixonado do Brasil sob a ótica de um exilado que veio pra cá em busca de um recomeço. No caso o exilado é o próprio Stefan Zweig, que por também ser judeu, teve que fugir do anti-semitismo, do regime nazista e da 2a Guerra Mundial.

Nas décadas de 1920 e 1930 Zweig foi bastante celebrado como autor, tendo escrito muitos contos, novelas e romances, e grande parte de sua produção literária teve adaptação cinematográfica. O que aconteceu é que, com o nascimento de uma nova ordem sócio-política na Europa e com as consequências da 2a Guerra Mundial a obra de Zweig ficou esquecida - seus livros foram banidos / queimados pelos nazistas. Mas enfim, o que importa é que desde a década de 1970 existe um resgate de seu legado e eu, particularmente, gostei bastante dessa escolha da TAG Curadoria.

A história central de Êxtase da transformação foca na personagem Christine, uma assistente postal de 28 anos (ela trabalha em uma agência dos Correios) de uma vila austríaca que leva uma vida de total privações, ao mesmo tempo que cuida da mãe doente e à beira da morte. Um belo dia ela recebe um telegrama de uma tia que não tem notícias há décadas e que imigrou para os EUA: ela e o marido ficariam felizes se Christine fosse passar as férias com eles em um hotel luxuoso nos Alpes Suíços. A princípio Christine pensa em recusar, mas sua mãe lhe diz para agarrar a oportunidade e ir. Então ela vai. E é lá que ocorre o grande "êxtase da transformação".

Clara, irmã da mãe de Christine, foi para a América pouco antes de estourar a 1a Guerra Mundial e lá casou e enriqueceu. Ao se encontrar com a sobrinha, ela percebe como seus parentes que ficaram e sobreviveram à guerra na Europa de fato empobreceram. Clara então providencia toda uma transformação para Christine - desde a toalete íntima aos vestidos de seda. Por isso o título do romance: a jovem Christine fica extasiada com a transformação que se opera nela, desconhecendo mesmo sua outra persona. Ali, naquele hotel de luxo, ela se depara com um mundo apenas vislumbrado em sonhos: muita comida e bebida, automóveis rápidos, pessoas bonitas e educadas, empregados que executam os serviços rapidamente, camas grandes com lençóis macios e homens ricos que lhe fazem a corte constantemente, desde o sexagenário lorde Elkins a um jovem engenheiro alemão.

Mas no auge dos dias de deslumbre, Christine é repentinamente mandada embora pelos tios; aqui não darei spoiler. E é aí que começa seu verdadeiro inferno: a volta à sua antiga e miserável vida. Tendo experimentado o que há de melhor, Christine sentirá ódio e amargura ao tomar consciência de seu lugar no mundo. Enxotada do paraíso sem saber a razão, a jovem analisará melhor a sociedade em que vive e o que esperar de seu próprio futuro. 

No meio desse turbilhão íntimo, Christine conhecerá o ex-combatente de guerra Ferdinand, amigo de seu cunhado Franz. O moço de 30 anos representa a grande desesperança diante de um Estado falido que luta para se recuperar de uma guerra perdida- no caso a recém proclamada República da Áustria. Para quem não lembra, antes da 1a Guerra Mundial havia o Império Austro- Húngaro; o império perde não só a guerra (junto com a Alemanha) como também muitos territórios. 

Como a história se passa no período entre guerras (década de 1920), é perceptível a crítica social impressa de forma latente nas linhas do romance: tanto Christine quanto Ferdinand conheciam uma vida boa (eram burgueses) antes da guerra, mas tudo se acaba quando o conflito vem à tona. Obviamente que as experiências amargas de Christine não são as mesmas de Ferdinand - os relatos deste oferecem uma boa crítica sobre como o ideal revolucionário não melhorou a vida de ninguém; só iludiu o povo. Mas os dois jovens terão suas vidas ligadas por esse fio de sentimento tão bem conhecido por eles: o ódio à vida miserável e sem perspectivas que ambos possuem. Quem sabe daí não surge uma solução, ainda que desesperadora, já quem ambos não tem nada a perder.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Biblioteca Municipal Mário de Andrade (São Paulo, SP)


Morar este ano de 2019 em São Paulo (se vc me segue no Instagram, já sabe o porquê dessa mudança geográfica temporária!) me rendeu inúmeras experiências culturais, para dizer o mínimo. É claro que eu não poderia esperar menos de uma metrópole, que por sua própria característica cosmopolita, tem o prazer de acolher e ressignificar as vidas de muitos de nós que não pertencemos a este espaço mas nos apropriamos dele. A minha situação, de vir pra cá para estudar, (de novo!) não é diferente nem mais fácil ou difícil de outras tantas pessoas. Me sinto e sempre me senti muito à vontade em São Paulo, mais livre até - penso que é devido à diversidade que encontro aqui. 

Visitar e conhecer a Biblioteca Municipal Mário de Andrade foi muito significativo pra mim, tanto por sua importância histórica, desconhecida por muitos brasileiros, como por minha paixão por livros, sendo eu uma bibliófila (como todos sabem). A BMA é um importante centro de pesquisa do país, é a segunda maior biblioteca pública do país (a primeira é a famosa Biblioteca Nacional, situada no Rio de Janeiro) e é a maior biblioteca municipal do país. Inaugurada em 1925 com um projeto moderno do arquiteto francês Jacques Pilon, esse edifício localizado no centrão da cidade é considerado um marco da arquitetura moderna paulista.

  O nome da biblioteca só homenageia o escritor Mário de Andrade em 1960 e não o faz sem motivo: Mário foi um dos intelectuais que mais lutou pela disseminação da cultura popular em São Paulo e no Brasil, lutou pela educação e democratização da leitura e foi um dos que iniciaram o Modernismo no país (lembram da Semana de Arte Moderna?), ao lado de Oswald de Andrade e de tantos outros artistas importantes, pois esse movimento na verdade se iniciou nas artes plásticas. Eu teria que escrever um outro post só sobre o Mário de Andrade, mas sei que vocês podem acessar facilmente sua vida e seus feitos pelo Google. Vale a pena saber, porém, que o romance Macunaíma (1928) é o resultado de suas andanças pelo Norte e Nordeste do país a fim de entender o que seria essa cultura brasileira, pois o Brasil não poderia continuar sendo só espelho de uma cultura europeia. Ele também foi Secretário de Cultura em São Paulo. Ah, Mário foi tantas pessoas em uma só! Folquelorista, musicólogo, escritor... Uma homenagem bem justa.


Você fica besta mesmo com o acervo e com o espaço da BMA, e olha que conheço outras bibliotecas dentro e fora do país. A quantidade de gente que ainda frequenta a biblioteca é espantosa e isso me encheu de alegria! A internet é maravilhosa, confesso, mas imagino que ainda demorará muuuuuitos anos para que todos os livros sejam digitalizados. Além do que, a exclusão digital é um fato, e pode não ser sentido por você que lê esse post agora, mas a fonte de pesquisa de muitas pessoas ainda está nos livros físicos proporcionados gratuitamente à população nas bibliotecas. Eu me incluo nesse nicho também, pois faço parte da era analógica. Não nasci com um celular/ tablet nas minhas mãos. Com certeza por isso sou bem desencanada com esse tipo de stress - o digital/virtual. Eu também sei distinguir bem realidade de ficção...


O que eu mais amo nas bibliotecas, além obviamente dos livros, é o silêncio. É como se o mundo inteiro parasse só pra isso: para a contemplação das letras e dos textos. Pra mim o silêncio nunca foi ensurdecedor ou incômodo. Ele é sinônimo de paz e volta ao meu interior. Outra sensação que tenho é de que posso estar em qualquer lugar do mundo, mas estarei sempre em casa se estiver em uma biblioteca. É como diz um ditado antigo em inglês: Home is where the heart is ("Casa é onde seu coração está"). 


O que vc precisa saber de imediato sobre a BMA:

↦Endereço: R. da Consolação, 94, República (centro de SP)
↦Horário de funcionamento: geralmente das 8h às 21:30 (de segunda à sexta) e das 8h às 19:30 (sábados, domingos e feriados). Atenção: se vc possui alguma especificidade e deseja consultar acervos específicos da biblioteca, clique AQUI.
Fonte de consulta: prefeitura.sp.gov.br 
Crédito das fotos: Marcelo Vais 💖

Referência da Sétima Arte:
Eu não podia deixar de lembrar de um dos meus filmes preferidos da vida, Cidade dos Anjos (1998; gente, como amo esse filme e o Nicolas Cage e a Meg Ryan e o roteiro do Wim Wenders!). Nele há várias cenas na biblioteca porque a médica Maggie gosta muito de ler e também porque acredita-se que os anjos habitam esse espaço. Afinal de contas, anjos são seres inteligentíssimos...não à toa sua presença junto aos livros é sempre citada...






segunda-feira, 21 de outubro de 2019

"Dias úteis", livro de contos de Patrícia Portela

(Porto Alegre: Dublinense, 2019) 
Clique AQUI para adquirir o livro! (vc ajuda o blog e não pagará nada a mais por isso)

É como viver, para quem ainda não tenha percebido do que se trata. (p.18)

Olá beletristas! A resenha crítica deste mês é de mais um autor português contemporâneo - no caso uma autora, até então desconhecida por mim: Patrícia Portela. Ela já escreveu várias obras e Dias úteis é sua mais recente publicação (2017). Algo interessante sobre a formação de Portela é que ela não é apenas escritora mas também artista em um conceito mais amplo: já idealizou e executou diversos projetos artísticos interdisciplinares, como espetáculos teatrais e instalações. Outra curiosidade sobre sua vida pessoal é que Portela vive entre Portugal e Bélgica e fez cursos em diferentes países, sempre voltados para as artes (cênicas e/ou plásticas).

Os contos que integram Dias úteis demonstram essa versatilidade e essa união entre as palavras e a performance, indicando uma fusão plena entre imagem, cena, voz, atuação e perspectiva, sem deixar de lado o trabalho lírico com a linguagem. Afinal de contas, tudo se volta à arte, não é mesmo? A própria literatura é arte em palavras e contém em si a força imaginativa. Apesar da "orelha" do livro evocar sua divisão em sete contos curtos, "um para cada dia da semana", eu considero que na verdade são 9 contos: prefácio fora de jogo, didascália, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, porque hoje é sábado e epitáfio de domingo para o dia seguinte. Isso sem contar as epígrafes, que por si só contém a essência das narrativas, transformando-se em novos textos a serem (re)descobertos. As epígrafes são convites para adentrarmos o texto, e a primeira delas resgata o poeta/ heterônimo pessoano Ricardo Reis:

passeemos juntos
só para nos lembrarmos disto...

Então entramos no livro e passeamos pelas cenas descortinadas pelos múltiplos narradores, como se fossemos espectadores ávidos de conhecimento sobre a vida cotidiana - mas esse é o jogo que se estabelece lá no prefácio: cuidado, porque esse jogo aí não tem regras e por conter inúmeras expectativas, pode ter resultados diferentes para cada leitor. A didascália estabelece um acordo entre ambas partes: vamos devagar, sem julgamentos ou pretensões, sempre atentos a um possível retorno. A segunda-feira nos confronta com o ambíguo conformismo/inconformismo típico do vazio da vida ligada no piloto automático. A terça-feira nos traz o desabafo em uma sessão de terapia, e o inevitável confronto (de novo!) conosco. A quarta-feira nos leva a uma perda, a um fragmento de memória, de um retorno a uma porta há muito tempo trancada.

A quinta-feira revisita a jornada de um Orlando contemporâneo, em busca do seu próprio tempo, lugar, memória e identidade, questões tão limítrofes e urgentes nos dias de hoje. A sexta-feira evoca o silêncio que clama tão alto dentro de nós mesmos, e por isso é a voz mais significativa que podemos ouvir. Porque hoje é sábado nos obriga a sucumbir à memória da pessoa amada morta, pois "a memória é um inimigo poderoso, mantém o cérebro a funcionar contra a sua vontade." (p.90) O epitáfio de domingo para o dia seguinte...bom, depois de tantos mergulhos e revelações, esse epitáfio é nosso como queiramos escrever. Ou interpretar. Ou (re)viver. 



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"Autobiografia", romance de José Luís Peixoto

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019) 
Enviado pela TAG Curadoria para seus assinantes em julho/2019
Conheça a proposta da TAG Experiências Literárias AQUI

A vida, que parece uma linha reta, não o é. 
(epígrafe da p.81)

Resenhar um romance de José Luís Peixoto não é fácil, ainda mais quando ele é inédito (foi encomendado especialmente pela TAG ao autor como item de comemoração dos 5 anos do clube de assinaturas). Não foi apenas José Saramago que ainda em vida declarou que Peixoto é "uma das revelações mais surpreendentes da literatura portuguesa e que é um homem que sabe escrever e que vai ser o continuador dos grandes escritores."* A crítica literária já o considera um dos grandes autores do século XXI e como somos da mesma geração (ele tem 44 anos e eu, 40), me sinto muito bem representada. Portanto esta resenha não me sai fácil, não.

E ainda temos o complicador instigante (gostaram dessa definição?) das boas características de uma prosa contemporânea da qual Peixoto domina todas as técnicas e entremeios. Estamos falando de uma mistura de todas as "metas": metalinguagem, metaficção. Mas também falamos de memória, de alteridade, da literatura em si (escrita/ autoria/ leitor/objeto "livro"/linguagem), do posicionamento desconfortável do leitor diante de um texto que nos "trai" a todo instante, da humanização de grandes pessoas/personagens que tem seu destaque na história de um povo, do questionamento e homenagem concomitantes ao que chamamos de arte literária.** O grande tema do romance Autobiografia (2019) não poderia ser outro mesmo: a própria literatura. E é por essa ousadia que Peixoto é tão genial.

Mas vamos ao seu enredo, se é que eu posso mesmo contar essa história e ao mesmo tempo ser digna da confiança de vocês, né? (olha aí eu manipulando meus leitores hahaha). Na Lisboa de 1997 mora José, um autor que já publicou seu primeiro romance (sem alcançar muito sucesso) mas que não consegue escrever o segundo. Um dia seu editor, Raimundo, procura-o para que escreva uma biografia de José Saramago, algo como um "texto ficcional de cariz biográfico"*** , acreditando que esse projeto possa tirar José de seu bloqueio literário. O jovem autor de 30 anos aceita o desafio, mesmo duvidando de sua capacidade. Essa dúvida só aumenta quando ele se encontra com o próprio Saramago para colher notas sobre sua vida, as quais utilizará para compor a tal biografia.

Com suas múltiplas vozes, a história também narra paralelamente os fatos (serão verdadeiros?) e memórias tanto de José quanto de Saramago, que a essa altura é um autor consagrado, casado com a terceira esposa, Pilar, está terminando de escrever um livro de memórias (Cadernos de Lanzarote) e percebe muito de si em José; além disso, Saramago possui um segredo, o qual quer revelar no momento certo ao jovem e confuso escritor.  

Orbitam a vida de José pessoas que de alguma forma o ajudarão nessa trajetória de redescobrir os meandros da escrita: o colonialista septuagenário Bartolomeu (que odeia o comunista Saramago), a jovem imigrante cabo-verdiana Lídia (que é fã de Saramago) e o alemão dono de livraria Fritz, de quem uma vez José roubou um livro - de Saramago! Cada uma dessas personagens traz suas próprias narrativas e memórias, que se amalgamam à narrativa de José - ou seria de Saramago? Percebem como os fios da metaliteratura nos deixa em território instável, porém instigante, como eu disse no início desse texto? E requer de nós, leitores, olhares mais que atentos: críticos.

Eu imagino que para um assinante da TAG Experiências Literárias, que se depara pela primeira vez com o estilo de José Luís Peixoto, não deve ter sido fácil percorrer este romance de 246 páginas, pois não é para ser lido de forma displicente assim como não dá para prever os rumos que o enredo nos leva. Se você o ler no futuro (já já sai a edição da Companhia das Letras, que fez a parceria com a TAG), sugiro atenção especial ao capítulo 20. É o capítulo mais lindo desse romance, pois aí reside sua essência, a qual gira em torno da eterna pergunta: de que fala a literatura? E como apresentá-la a alguém? Só ouso devanear sobre essas respostas em sala de aula, com meus alunos e professores beletristas.;)

Um adendo: se você também é assinante da TAG Experiências Literárias como eu e leu esse romance, deixa seu comentário aqui abaixo pra gente conversar um pouco, tá certo?


Como posso saber se eu sou eu ou eu? (p.215)

REFERÊNCIAS:

*Revista da TAG Experiências Literárias, p.5.

** Para beletristas que queiram conhecer mais sobre prosa contemporânea e a questão da metaficção, sugiro a leitura dos seguintes teóricos (alô alunos/ professores de Teoria e Crítica Literária):
1. HUTCHEON, Linda. Narcissistic narrative: the metafictional paradox. Canadá: Wilfrid Laurier, 2013.
2. BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.
3. SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. São Paulo: Civilização Brasileira, 2010.

***Essa expressão aparece de forma recorrente no romance Autobiografia.