terça-feira, 16 de junho de 2020

"Acaso", crônica de Vilton Soares



Foto: Marimbondo na janela. Foto do arquivo do autor (2020). 
ACASO

Crônica de Vilton Soares*

Acordei sobressaltado. Zumbidos trouxeram-me à realidade aflitiva do embargo das nossas vidas ... um olhar seletivo procura as atualizações das redes sociais, evitando tragédias, tão frequentes ultimamente. O desejo (in)controlado de não-ver antecipou o número de mortos pela COVID-19 no Brasil:42.802 mortos e 851.321 casos confirmados e, imediatamente, pensei no que nos liga uns aos outros. As subjetividades que a visita daquele marimbondo, ou caba para os amazônicos, me trazia ... Acordar-me às 6h30, isto é,  na madrugada de um domingo e naquele zum-zum-zum, foi providencial. Ocorreu-me fotografá-lo e ao ouvi-lo, ouvi-me ...
Foi-me segredado muita coisa. Atônito com a interferência nos meus pensamentos, sem tirar os olhos daquele bulício alado, ouço, sussurrada, a voz da minha ex-vizinha em Recife ... Morávamos eu e ela, sozinhos, cada um em sua casa, compartindo, por meio dos combongós das respectivas áreas de serviço, os silvos e burburinhos do domingo de manhã. Eu tinha 20 anos e estava na universidade, ela era uma ativa costureira, saía raríssimas vezes, já passara dos 70, vivia sozinha. 
Domingo de manhã era o espaço-tempo em comum de nós dois. Eu, preparando o sagrado café à italiana e pronto para “ganhar o mundo”, como repetia a minha mãe. Café e tapioca prontos, sentava e concentrava-me para ouvi-la cantar-se. Ela, ao mesmo tempo em que aguava suas plantas ... segredava-se ... distorcendo alguns versos de uma música muito tocada na época. O que me dava prazer era o conjunto da ópera ! Eram os cheiros de café e terra molhada, o burburinho, o alvoroço, os silvos, os sibilos, o rechino da sua voz ... e as mensagens subliminares que no silêncio e em outras semioses trocávamos ... Naquela época, compreendia como um sinal de que a discretíssima e circunspecta vizinha-amiga continuava sua sina, e entrava em profundo diálogo comigo, sob as rígidas coerções socioculturais que se impunham, mais a ela.  De um lado do muro o cheiro de café; do outro, os bulícios e solfejados, graças aos combongós ...  
A cada domingo eu escutava com clareza uma parte dos versos que ela repetia ... em um, marcava-me o “já não sei mais por que vivo a sofrer”;  em outro, “não sei por que, mas acho que é falta de compreensão”... hoje o zum-zum do marimbondo acordou e misturou várias memórias em interferência. 
Em uma das minhas idas ao Recife, fui ao bairro onde morei quando jovem, na tentativa de vê-la. Pelas minhas contas ela já teria passado dos 90 ... talvez nem me reconhecesse. Fui informado que ela morrera, por alguém que já lhe ocupava a casa. Perguntei por detalhes, já que a mesma não tinha parentes, desconversou. Doeu-me muito ser chacoalhado pelo zizio da sua máquina de costuras e do rechino da sua voz aos domingos ... retardou-me em dez anos esse estado de anojamento e uma sensação de réu ... ecoam os seus versos, em estridor, neste domingo. 
Com tantas almas partindo na velocidade da luz, como a da minha solitária ex-vizinha e sempre amiga, dói-me pensar na subjetividade das relações que (inter)ligam as mais de 42.000 vítimas da COVID-19 e que espalham pelo Brasil o atual estado de nojo. Ai, quanto nojo !  
Que dor me trouxe esse zumbido de marimbondo hoje de manhã ... e que foi respondido por memórias tão segredadas. Hoje ouvi na íntegra a música que ela cantava, descobri versos ainda não perscrutados e, o mistério do acaso distorceu mais uma vez minha percepção ... “Não sei por que meu Deus, sozinha eu vivo a penar”,  “Não tenho nada a pedir, também não tenho nada a dar”,  “por isso é que eu vou me mandar!”, “Vou-me embora agora, embora pra outro planeta, na velocidade da luz, ou quem sabe de um cometa”, “eu vou solitária e firme, onde a morte me aqueça” ... com a voz embargada, cantei em sua homenagem e escrevi como redenção. 

Domingo, 14 de junho de 2020, em São Luís do Maranhão, Brasil, 6h50 da manhã.

 

* Vilton Soares (viltonsoares@ifma.edu.br) é Professor de Português e Francês do Instituto Federal do Maranhão - IFMA e Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP); é pernambucano de nascimento e maranhense de coração, onde reside há vários anos. É um ser humano incrível, de sensibilidade e perspicácia aguçadas; por seus olhos e em seu íntimo navegam memórias de tempos de outrora. Espero que tenham gostado desse texto, que nos faz refletir sobre o presente e sobre nossa própria humanidade.

Beijos,

Natércia

sábado, 23 de maio de 2020

"Jude, o obscuro", romance de Thomas Hardy

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019)

"Mas a natureza humana não pode evitar ser o que é" (p.335)

O autor inglês Thomas Hardy é considerado pela crítica literária um dos últimos autores da era vitoriana, época em que a literatura inglesa floresceu enormemente, dos textos românticos das irmãs Brontë aos textos realistas de Charles Dickens. A sociedade vitoriana também provou das críticas ácidas contidas nas maravilhosas peças teatrais de Oscar Wilde e por fim, do pessimismo e da crítica ao puritanismo e conservadorismo nos romances e contos de Hardy.

Em seus textos ele se mostra muito mais um naturalista, no sentido de que retrata as vidas, os vícios e as desilusões das classes trabalhadoras e como essas pessoas não conseguem ascender socialmente por meritocracia, por mais que desejem. Daí se origina o pessimismo diante das vicissitudes da vida, tão bem apontado pela crítica como característica inerente dos textos de Hardy. A denúncia recorrente nos romances dele é que não há como fugir de algo que o indivíduo já está predestinado por vários motivos: porque é pobre; porque vem de uma família de degenerados; porque a moral e os bons costumes cerceiam o poder de decisão, escolha e liberdade que o indivíduo possui.

Considerando tudo isto, quero dizer que quando selecionei esse romance para ler eu já estava preparada espiritualmente para o que iria encontrar pela frente em suas quase 400 páginas. Eu já conheço a escrita desse autor desde quando li sua obra mais famosa, "Tess of the D'Ubervilles" (1891), que inclusive recomendo. Então pensei que gostaria de conhecer a triste história (sim, eu já imaginava que era triste) de "Jude, o obscuro" (1895).

O romance acompanha toda a trajetória de Jude, desde menino pobre e órfão criado pela tia-avó. Influenciado pelo sonho de seu professor, Mr. Phillotson, Jude também queria ser Doutor em Teologia e estudar na universidade de Christminster. Ele acreditava firmemente que conseguiria alcançar esse objetivo com esforço e afinco. E como Jude se dedicou. Ele estudava sempre à noite, pois de dia trabalhava muito, primeiro entregando os pães que sua tia avó fazia, depois como aprendiz de entalhador e restaurador de edifícios, fachadas e lápides. 

Aos 19 anos Jude se apaixona pela esperta Arabella, que o induz a casar-se com ela insinuando uma suposta gravidez. Já casado, ele descobre que as coisas no casamento não parecem assim tão românticas, porém está disposto a manter sua palavra. Daí em diante são muitas as reviravoltas que a vida pregará em Jude, fazendo com que ele sucumba inclusive ao vício da bebida,  entendendo que a realidade para pessoas como ele é muita dura e que o sonho de estudar em uma universidade é uma grande ilusão que ele construiu para si mesmo. 

No entanto, um fato ainda maior acontecerá: Jude conhece a prima Sue Bridehead, uma mulher inteligente e questionadora de vários princípios sociais aos quais, como mulher, está imposta, como a indissolubilidade do matrimônio ( o divórcio era permitido mas moral e socialmente condenado) e os dogmas da igreja anglicana. Leitora de filósofos e de poetas nada ortodoxos, Sue exercerá o fascínio e a atração que levarão Jude a algumas felicidades e a muitas tragédias.

A narrativa é muito bem escrita, desnecessário dizer isso para um grande autor como Thomas Hardy: a sucessão dos capítulos e o desenrolar dos fatos surpreendem o leitor a todo momento, até o final. Lembro que o tempo todo eu me pegava refletindo: "meu Deus, coitado do Jude", ou então, "gente, o Jude não merece isso". Um outro ponto que gosto nos romances de Hardy é que as personagens femininas tem VOZ e expressam bastante suas angústias, seus medos e suas intenções, que muitas vezes são bem diferentes daquelas que se esperavam de uma mulher vitoriana. Arabella e Sue não são submissas e à sua maneira, se impõem perante uma sociedade marcada, como já disse, pelo puritanismo e patriarcalismo. 

Ao final da leitura a impressão que fica, porém, é que não se pode fugir de um pré julgamento e de uma pré determinação social imposta a esses personagens, no caso Jude, Arabella, Sue e Phillotson. Por mais que eles lutem contra sua própria natureza e contra essa imposição moral vitoriana, no fim das contas eles perdem, de uma certa forma, esse jogo trágico que aceitaram apostar e contestar. 





quarta-feira, 13 de maio de 2020

"Até o outro dia", conto de Luciana Frank


Aconteceu aos poucos. Ela não saberia responder se fora em questão de meses, semanas ou dias. Mas, estava apaixonada por ele, disso tinha certeza. Reconhecia sua figura ao longe. As roupas surradas pelo árduo trabalho no campo, o machado sobre o ombro, a expressão cansada, voltando na companhia de seu irmão. Ele sempre encostava por uns instantes. Bebia a água que ela lhe oferecia, limpando os lábios na manga da camisa. Nunca um olhar mais demorado. Nenhum sinal naqueles pequenos instantes diários. Apenas agradecia em silêncio. Com um leve aceno de cabeça ou um riso sem jeito. Aprendeu a colecionar as coisas que a encantavam nele: o modo tímido como recebia um elogio, a forma correta de pronunciar as palavras como se não pertencesse aquele lugar, seus cabelos e olhos escuros como carvão molhado, a expressão humilde, a maneira como lia poesias, os dedos a deslizarem sobre as cordas do antigo violão, a sombra da fogueira sobre suas feições. Sempre acrescentava. Nunca diminuía. Quando tudo isso foi se agregando até seus sonhos terem o formato de um rosto. A figura de uma pessoa. Tanto querer guardado a angustiava, a ponto de estarem próximos aos lábios. Encontrando covardemente o caminho de volta para o seu coração. Temia que não fosse compreendida ou mesmo rejeitada, em uma terra onde só se pensava em fazer fortuna. Onde a morte beirava a vida, não existia tempo para uma história de amor. O intervalo entre a claridade e a escuridão eram preenchidos ante a ausência ou a presença dele. Aprendeu a escrever com a professora solitária que perdera seu marido há muitos anos naquela mesma guerra pela incansável busca ao ouro. Somente a ela confessou que queria escrever cartas para um rapaz que havia roubado o seu coração. Mas, ele partira pouco tempo depois. Sem qualquer aviso. Ninguém sabia informar para onde teria ido. Seu irmão de nada sabia sobre sua vida, além do tempo que trabalharam juntos e as escassas informações sobre sua parentela. Essa constatação tardou a ser absorvida, acostumar seus olhos a não o procurar tanto ao fim do dia, encher o filtro de barro imaginando que viria para beber de sua água. Ao raiar do sol, seus dedos escreviam contínuas cartas que nunca chegariam a seu destino, seu coração procurando entender o porquê de sua partida repentina. Ele foi, mas existia nela. Em tantas vezes em que se imaginou colhendo os beijos de sua boca, de vestido branco, vendo-o por trás de um véu, trocando alianças com ele na pequena igreja, prendendo entre as mãos um arranjo de margaridas, esperando na porta de uma casa simples de barro, colocando seu jantar sobre a mesa, a observar seu rosto sob a luz de uma lamparina. A realidade que abria seus olhos pela manhã, a obrigava a enterrar seus sonhos. A perda não era apenas para a morte, como um dia chegou a pensar. Se perdia também para a vida. Nos seus caminhos tortuosos. Quando as estações se repetiam, quando os dias corriam e os anos passavam guardando sempre o mesmo rosto. Cansou de recolher todos o pôr do sol com a mesma tristeza e amargura. Calou-se por dentro e deixou suas mãos guiarem os seus pensamentos. Encontrou um local onde poderia guardá-los e não enterrá-los naquele solo infértil daquela terra de ilusões. Um cenário feito a luz de um candeeiro, uma velha mesa da época que seus pais ainda eram vivos, uma cadeira de madeira caprichosamente esculpida por seu irmão, um cômodo de paredes de barro batido. Papel, lápis e a escrita. Ali era onde sentava todas as noites e transformava as lágrimas em palavras, que guardavam toda a saudade do que não chegou a ser revelado ou mesmo existir. Até sentir que estava refeita, curada... Até o outro dia.

*Luciana Frank é uma jovem escritora maranhense, com uma escrita sensível e tocante. Esperamos que tenham apreciado este momento literário aqui no blog ;)

Natércia

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A ingênua libertina, romance de Colette

(Rio de Janeiro: Ed.Nova Fronteira, 2019)

"Eu realizo muito bem a ideia que se faz de uma mulher da sociedade" (p.100)

Olá beletristas, tudo pom? Espero que todos vocês estejam conseguindo lidar com o isolamento / distanciamento social nestes tempos muito loucos, e que tenham encontrado um caminho do meio para equilibrar a mente, pois é necessário. Por aqui seguimos bem e fortes, de vez em quando surtando - o que é normal também, porque ninguém é de ferro. A indicação de leitura da vez é o romance da autora francesa Colette, A ingênua libertina, publicado originalmente em 1909.

Eu sempre tive vontade de ler algo de Colette (1873-1954), sabe. Ela é uma das escritoras mais celebradas da primeira metade do século XX na França, muito por causa dos temas que aborda em suas obras e que se direcionam à questão da liberdade feminina e à conquista do amor e do prazer. E são esses temas que encontramos e que norteiam a história de A ingênua libertina. O romance é dividido em 2 partes e protagonizado por Minne, uma jovem da pequena burguesia parisiense extremamente entediada e possuidora de uma mente imaginativa...bastante ilusória.

A primeira parte nos mostra Minne com 15 anos sonhando em ser raptada pelo bandido Cabelo de Anjo, de quem ela acompanha as histórias de fugas espetaculares pelos folhetins. Fortemente vigiada pela mãe viúva e tutelada à distância pelo tio Paul (irmão da mãe), Minne quer se libertar daquela rotina sem graça que vive. No auge de sua distorção da realidade, ela foge de casa de madrugada pois acredita que viu Cabelo de Anjo passando embaixo de sua janela. Ela segue-o até os guetos afastados de Paris, repletos de prostitutas, bêbados e outras espécies de criminosos. Percebendo o erro grave que cometeu, Minne volta aos trancos e barrancos pra casa; é encontrada desmaiada e suja na porta por sua mãe, que acredita que ela foi raptada e violentada. Solução para este fato? Casar Minne com o primo Antoine, apaixonado eternamente por ela e que acredita em sua ingenuidade.

Na segunda parte do romance encontramos Minne casada e levando uma vida...novamente entediada! 

"Esta é minha sorte, a minha vida, até que eu me canse!..." (p.76)

Aos olhos de todos ela é uma mulher recatada, mas por trás já contabiliza alguns amantes, que não a satisfazem. Minne os humilha, certificando-os de que eles não representam nada pois não sente nada por eles. Uma das falas mais lacradoras desta "ingênua libertina" é quando ela joga na cara do jovem Barão Couderc que não o ama (após uma tarde de sexo), muito embora ele ameace até se matar por esse amor não correspondido:

"Eu não o amo bastante para voltar. Ontem eu não tinha certeza. Anteontem não sabia nada. Você ontem não sabia que me amava. Nós dois fizemos descobertas." (p.98)

Bum! Uma mulher humilha o amante na alcova hahahaha. Taí o porquê de Colette ser tão celebrada e amada por suas leitoras da época - e creio que as de hoje também. A Minne casada e respeitada busca não só o amor, mas também o direito de satisfação sexual. Essa abordagem feita ainda no início do século XX por certo escandalizou muito a sociedade parisiense. Não darei spoiler sobre os caminhos que Minne percorrerá até encontrar o que procura, mas de todo modo gostei do final da história. 

A escrita de Colette ainda é muito marcada por influências das estéticas Realista e Naturalista dos grandes autores franceses; não é de se estranhar por causa da época, claro (primeira década de 1900), em que A ingênua libertina foi publicado. Lembrei-me muito dos romances Madame Bovary (1856, de Gustave Flaubert) e Therèse Raquin (1867, de Èmile Zola) - fica a dica de leitura desses clássicos, caso não tenha lido ainda ;) Mas principalmente enxergo várias características do Naturalismo presentes nesse texto de Colette. Por exemplo, a descrição de cenas picantes e com um certo erotismo, como nesse trecho em que Minnie não goza e ela odeia o amante por não saber lhe proporcionar esse prazer. :

"Enquanto fala, ele a despe. [...] detesta ferozmente o êxtase dessa criança fogosa, o desmaio que ele não sabe lhe dar. Esse prazer ele o rouba de mim!" (p.96-97)

As analogias de atitudes humanas com animais (a tal da zoomorfização):

"É principalmente alguma coisa indefinível, um ar agressivo e desolado, esse cinismo e esse relaxamento de animal que vive, alimenta-se, coça-se  e se satisfaz ao ar livre..." (p.57)

 E a descrição de cenas de bairros pobres de Paris bem como as pessoas que lá habitam (os excluídos da sociedade: prostitutas, bêbados, homossexuais, bandidos etc.):

"Minne, ofendida, humilha o aborto com um olhar majestoso" (p.58) 

O termo "aborto" é utilizado para se referir a um homossexual; nada mais naturalista, no sentido de que as pessoas possuem vícios sexuais, pois nessa época pensava-se e julgava-se assim. 

De vanguarda mesmo só a temática que falei anteriormente: a busca da liberdade feminina, pelo amor e prazer, até porque Minnie o faz sem nenhum remorso ou medo das consequências. 
Ao fim da leitura cabe refletir sobre as atitudes de Minne antes de julgá-la tão duramente: será ela uma vilãzinha egoísta e mentirosa ou ela apenas tem coragem suficiente para ir atrás de sua felicidade e satisfação enquanto mulher, recusando-se a se conformar com tão pouco?







sexta-feira, 20 de março de 2020

"O xará", romance de Jhumpa Lahiri

(São Paulo: Biblioteca Azul, 2017)

"O nome que ele detestava tanto, ali escondido e preservado - essa tinha sido a primeira coisa que o pai lhe dera." (p.334)

Olá beletristas! Em tempos de pandemia, uma das melhores formas de aguentar uma quarentena é ler um bom livro, né? E principalmente um livro que nos faça pensar em nossa cultura, nossas origens. Saber de onde viemos é importante para saber para onde vamos e para reforçar nossos princípios e convicções. E quem sabe também, aprender com o outro, pois um dos grandes desafios dessa globalização pós - moderna é refutar a individualidade e exercitar a solidariedade.

A autora inglesa de ascendência indiana/bengali Jhumpa Lahiri nos traz muitas reflexões com seu romance O xará, publicado em 2003. A história gira em torno da vida de Gógol Ganguli, nascido norte-americano porém filho de um casal de imigrantes bengali, Ashoke e Ashima, que tentam a todo custo manter suas tradições e raízes vivas para os filhos, apesar de eles estarem o tempo todo fugindo dessa cultura que não se acham pertencentes. Para complicar toda a situação existencial de Gógol, existe a tradição de se nomear um filho na cultura bengali que é bem peculiar - pode-se levar anos até que se decida o nome correto para a criança, sendo que o normal é que ele tenha dois nomes: um familiar e outro "oficial", que reafirma sua existência para o mundo exterior.

Gógol teve o nome escolhido por seu pai por causa de uma história trágica que aqui não falaremos para não dar spoiler; desde já adianto que no início do romance levamos um soco no estômago. Mas à medida que cresce, Gógol percebe o quanto seu nome lhe parece esdrúxulo demais: primeiro porque ele não é russo, segundo porque não gosta de literatura russa nem sente afinidade com seu xará, o famoso autor russo Nikolai Gógol. Terceiro, seu nome nem é prenome, é um sobrenome. Está feita aí a confusão que acompanhará o jovem rapaz ao longo de sua vida, levando-o a considerar de fato a mudança de nome na maioridade, algo super comum nos EUA.

Mas o que a narradora no fundo quer nos fazer enxergar por meio da história de Gógol são questões muito mais profundas e que retomam a temática do deslocamento físico e emocional vivenciado por imigrantes e filhos de imigrantes, no caso aqui os da cultura bengali. O nome de Gógol é a ponta do iceberg para puxar reflexões sobre pertencimento cultural mais complexas: os pais de Gógol vivem num círculo fechado de amigos bengali, estando sempre num "limbo" intercultural (americana x bengali) ; os filhos desses pais imigrantes, representados por Gógol e sua irmã Sonali e depois pela noiva de Gógol, Moushumi,  são aqueles que vivem a cultura americana e fogem da cultura de seus pais, e sendo assim, permanecem deslocados, buscando seu lugar no mundo. 

A escrita de Lahiri consegue nos fazer visualizar, como um filme, a vida de Gógol Ganguli até o início dos 30 anos, que é quando ele começa a perceber o que o une e o que o distancia de sua cultura. Claro que essa percepção se dá devido a algumas reviravoltas em sua vida, como acontece de praxe na vida de todo ser humano. O certo é que ao lermos sobre as lutas internas, percalços e memórias de Gógol, descobrimos que, no fundo, somos o resultado daqueles que nos geraram e/ou nos conduziram pela vida. Em suma, não importa muito o que fazemos nem para onde vamos, o quão longe seja: estamos sempre impregnados daqueles que vieram antes de nós, nossos ancestrais. Não há como escapar. 

sábado, 1 de fevereiro de 2020

"O demônio da garrafa", conto de Robert Louis Stenvenson

Lido no Kindle (comprado por R$4,90)

"E mais uma vez vou usufruir o bem que acompanha o mal".

Olá beletristas, tudo bom? A dica de leitura hoje é do conto de quase 50 páginas O demônio da garrafa, do autor escocês Robert Louis Stevenson. Publicado ali pela década de 1880, o conto traz algumas caraterísticas que marcam a escrita do autor: as viagens a lugares exóticos e o flerte com o fantástico, em específico a temática bem x mal. Muitos de vocês devem conhecer ou ter lido seu romance mais famoso: O médico e o monstro (1886, o qual recomendo fortemente).

A leitura flui rápido não só porque é curta mas porque a história é instigante: o marinheiro havaiano Keawe, em uma de suas inúmeras viagens, chega à cidade norte-americana de San Francisco e é estranhamente convidado a adentrar uma bela mansão. O dono do local diz que ela está à venda, mas como Keawe não tem dinheiro para comprá-la, aquele lhe oferece uma garrafa, dizendo que quem a possuir será um homem muito rico pois ali mora um demônio que satisfará todos os desejos de seu dono. Diz também que pessoas muito famosas e poderosas foram donas dessa garrafa, como Napoleão Bonaparte e o Capitão Cook.

 Sem acreditar muito na história, Keawe compra a garrafa e ao mesmo tempo já toma conhecimento das desvantagens da aquisição: se ele quiser revendê-la, terá que ser por um preço menor do que comprou (ou seja, menor que U$ 50,00) e se não se desfizer da garrafa antes de morrer, irá para o inferno. Durante a viagem de volta para sua casa no Havaí, Keawe relata o caso ao amigo Lopaka, que também não acredita nos poderes do demônio da garrafa mas diz que comprará o objeto de Keawe se ele quiser. Mas Keawe faz seu pedido ali: de ser um homem muito rico e dono de uma bela mansão na praia.

Ao aportar, Keawe descobre que seu tio rico morreu e ele é seu único herdeiro. Ou seja, seu desejo é atendido. Agora dono de uma vasta fortuna e de uma bela casa, ele aceita vender a garrafa ao amigo, livrando-se assim, de um pesadelo maior. Após alguns anos, Keawe conhece a linda Kokua e um amor avassalador apodera-se dele. Mas infelizmente nesse mesmo dia ele descobre estar com lepra e se desespera. A solução para curar-se de uma doença sem cura, para posteriormente casar-se com o amor de sua vida, é recomprar a garrafa com o demônio dentro. Agora Keawe terá que empreender uma jornada rumo ao mal, tentando manter o resto de bem que há em si mesmo.

A história tem várias reviravoltas e é isso que torna a leitura instigante, como falei no início; outro plus são as descrições de cenários exóticos que nos levam ao Havaí e à Polinésia Francesa, tudo pra nos fazer pensar repetidamente: vale a pena vender a alma ao diabo?



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Todos nós adorávamos caubóis, romance de Carol Bensimon

(São Paulo: Companhia das Letras, 2019)

"Todas as ótimas ideias já pareceram más ideias em algum momento" (p.17)

Olá beletristas, tudo bom? O primeiro post do ano traz para vocês a resenha do romance aí da foto, com o título inusitado Todos nós adorávamos caubóis da jovem autora gaúcha Carol Bensimon. Em 2018 ela ganhou o principal prêmio literário brasileiro, o Jabuti, pelo romance O clube dos jardineiros de fumaça. Não o li, mas lembro que na época muitos bloggers e booktubers o resenharam e houve muitas opiniões divididas pelo tema um tanto polêmico: cultivo ilegal da maconha. Atualmente Bensimon mora na Califórnia (EUA) e para mais informações sobre ela vocês podem acessar seu site oficial AQUI.

Todos nós adorávamos caubóis foi publicado em 2013 e alia dois estilos que eu particularmente gosto em romances: o road novel ("romance de estrada", em uma tradução bem grossa) e o de formação. E explico porquê. A narradora-personagem Cora é uma jovem brasileira que estuda Moda em Paris e resolve passar suas férias na terra natal junto de sua velha amiga da faculdade de Jornalismo, Julia. Elas combinam de se encontrar em Porto Alegre (Julia mora e estuda em Montreal, no Canadá) para realizarem um antigo sonho: pegar a estrada e percorrer as cidadezinhas do interior do Rio Grande do Sul, sem muitas expectativas. Taí configurado o estilo road novel.

Mas e o romance de formação? É que ambas vão usar a "desculpa" da viagem para tentar entender não só seus problemas particulares, como o próprio relacionamento que elas tem uma com a outra, e que foi abalado por um acontecimento na época da faculdade. Essa viagem é uma tentativa de resgatar o que foi perdido ou ficou obscuro no passado, apesar de Cora achar que essa viagem já estava fadada ao fracasso desde o início.

Cora é bissexual e ainda apaixonada por Julia; Julia não tem bem certeza sobre esse relacionamento. Cora precisa enfrentar o fato de que seu pai casou de novo e terá um filho; ao invés de chegar a Porto Alegre e acompanhar o nascimento do meio-irmão e matar as saudades da mãe, ela se embrenha com Julia rumo a cidades de nomes cômicos, como se fugisse da realidade. Essa é uma viagem de amadurecimento para as duas; elas não sairão ilesas ao fim - taí o romance de formação.

A temática mais latente na história é a questão da descoberta e afirmação da sexualidade. E ela vai se revelando aos poucos para o leitor, pois a viagem que acontece no presente é entrecortada por lampejos do passado das jovens, remetendo a fatos ocorridos na infância, adolescência e faculdade, e como elas lidaram com eles. Percorrer e conhecer a dinâmica das cidadezinhas apenas aumenta a lupa de como elas enxergam o que ficou para trás. Algumas cidades possuem importância histórica (caso de Bagé) ou são portas de denúncia (ou apreciação) por suas riquezas naturais, como Minas do Camaquã. O certo mesmo é que esses lugares são meros coadjuvantes para suas experiências e questionamentos sobre um futuro incerto.