Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!
"Cruzamento da abóbada (detalhe da célula oeste)". Afresco de Cenni di Petro Cimabue. 1280.

domingo, 10 de setembro de 2017

Vá, coloque um vigia - Harper Lee

Resultado de imagem para vá coloque um vigia
(Ed. José Olympio, 2015)

Hoje vou ler o capítulo 21, versículo 6, do Livro de Isaías: "Porque assim me disse o Senhor: vá, coloque um vigia, que anuncie o que vir." (p.90)

Olá pessoal, tudo bom? Um feriadão e mais uma dica de leitura, né? Resgato hoje a Literatura Norte - Americana porque essa indicação é bem merecida: Vá, coloque um vigia, segundo romance da autora Harper Lee. Ela nunca escreveu outra obra além do famoso O sol é para todos (1961, ganhador do Prêmio Pulitzer) e de repente, antes de morrer em 2016, seus parentes encontraram e publicaram o manuscrito deste livro que vamos resenhar agora.

Vá, coloque um vigia é ambientado na pequena cidade de Maycomb, no estado sulista do Alabama, durante a década de 1950. Maycomb é a cidade natal da personagem Jean Louise Finch, que retorna de Nova York, onde mora, para passar quinze dias de férias e rever sua família  - o pai Atticus, a tia Alexandra e o tio Jack, além do namorado Hank. Imbuída de sentimentos nostálgicos da infância e adolescência, ao mesmo tempo em que é pressionada para voltar definitivamente à cidade e se casar, Jean Louise percebe ao seu redor que algo está errado - existe uma grande tensão social "gritando" na atmosfera da conservadora Maycomb.

A tensão é reflexo das crescentes lutas por igualdade de direitos civis para os negros bem como para por fim à segregação racial, há tantas décadas respaldada pelas leis sulistas. Contextualizando melhor: a sociedade civil branca sente-se ameaçada pelos avanços conquistados pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor e pelo resultado positivo do caso Brown v. Board of Education , que garantiu, em 1954, que pessoas negras frequentassem as mesmas escolas públicas junto com pessoas brancas. 

O que Jean Louise presencia é a visão de seu pai, o advogado Atticus, e de seu amigo de infância / namorado Hank - que ela acreditava que fossem justos e bondosos - participando de reuniões junto com os homens "respeitáveis" da cidade. Seu mundo "cor de rosa" de menina sulista cai por terra ao escutar um discurso de defesa da raça branca disfarçado de proteção das famílias e bens, revelado num recinto que remonta às velhas reuniões da temida Ku Klux Klan.

O conflito que se segue em sua mente é de que ela nunca de fato conheceu o mundo em que viveu a maior parte de seus 26 anos, até aquele momento de tensão social. Jean Louise terá que amadurecer como mulher e como cidadã. Ela defenderá seu ponto de vista progressista, mesmo que tenha que "cortar na própria carne"ou sucumbirá às antigas tradições de sua gente?

Após ler o romance, uma boa pedida é assistir o filme Histórias Cruzadas (2011), cuja história se assemelha muito ao enredo de Vá, coloque um vigia. Se quiserem, tem resenha do filme aqui no blog! É só pesquisar e clicar pra ler!

Mas você precisa se decidir, Jean Louise. Vai ver mudanças, vai ver Maycomb mudar completamente durante a nossa vida. (p.72)

domingo, 20 de agosto de 2017

O colar de coral - Antonio Callado

(Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2010)

Eu quero apenas fundar uma cidade. Uma cidade anarquista. Começará com duas pessoas, naturalmente, três. Aquilo é zona muito acossada pela seca. [...] (p.221)

Olá meus queridos, como vão? Todos já estão "engatilhados" nos afazeres acadêmicos do segundo semestre? Ainda estou meio "lenta", inclusive com as leituras; creio que é porque este semestre está mais cheio que aquele que passou, mas faz parte da vida de ser professora, né...

Nossa indicação de leitura é todo o livro Teatro Completo do Antonio Callado. Aqui estão 9 peças teatrais que ele escreveu e publicou na década de 1950 e início de 1960. Primeiramente quero dizer que acho impressionante o Callado ser um autor tão pouco mencionado nas aulas de literatura brasileira nas universidades...Um cara que: foi jornalista correspondente de guerra de O Globo - cobriu a 2ª Guerra Mundial e até a Guerra do Vietnã; trabalhou na BBC de Londres, escreveu uma obra emblemática e considerada maldita pelo regime militar (Quarup, 1967), pertenceu à ABL, enfim! Um autor com uma vida dedicada à arte de escrever e de informar e de ter compromisso com a justiça e a igualdade social não poderia desaparecer de nosso cenário cultural.

Dito isto, vamos a O Colar de Coral: a peça foi publicada em 1957 e está dividida em 3 atos. Narra a história de ódio entre 2 famílias, os Monteiros e os Macedos da cidade de Icó no Ceará, que no tempo da peça, ou seja, na atualidade, ambas famílias estão falidas, tendo migrado para a cidade do Rio de Janeiro. Uma noite, Cláudio Macedo adentra a casa dos Monteiro para conhecer Manuela e pedir-lhe um favor; assim como ele, a moça ouve desde criança sobre as tristes histórias de ódio que permeiam as famílias há 200 anos.

Cláudio pergunta se Manuela sabe onde está um cofre que o pai dele carregava no dia em que desapareceu - o cofre continha o colar de coral de Matilde, tia de Manuela, e as esporas de prata de Radagásio, tio de Cláudio. No passado eles se apaixonaram e morreram por esse amor, porém esses pertences haviam ficado com Jovino, pai de Cláudio.

Diante desse pedido e da declaração insistente de Cláudio, de que a única coisa que lhe importa é resgatar o pouco de terra que ainda resta de sua família para fundar uma comunidade anarquista, Manuela se vê em conflito: ela deve acreditar nas supostas palavras sinceras de um Macedo ou deve perpetuar o ódio alimentado por sua avó?

É interessante notar toda a crítica social contida no texto e a coragem de falar sobre anarquismo em plena época de intolerância e Guerra Fria; ao mesmo tempo que faz isso, Callado nos presenteia com falas líricas sobre amor, ódio e família: o que nos une no fim das contas?

Porque isto de ódio é um hábito. Aí é que o amor é diferente. Ódio e amor são feitos de fogo. A diferença está nos materiais consumidos. [...] (p.261)



domingo, 30 de julho de 2017

Orlando - Virginia Woolf

Resultado de imagem para orlando virginia woolf
(São Paulo: Ed. Landamark, 2013)

A mudança de sexo, embora alterasse seu futuro, nada fez para alterar sua identidade. Seu rosto permanecia, como provam os relatos, praticamente o mesmo. (p.67)

Olá meus leitores! Como foram de férias? Recheadas de leituras e aventuras, eu espero né ;) ? Já fazia um tempo que eu estava com vontade de ler Orlando (Orlando: A Biography - 1928), da autora inglesa Virginia Woolf, e nesse mês consegui. Não por ser, eu acho, a única obra que ainda não tinha lido dela, mas porque procurava uma edição que valesse a pena. E essa aqui, da editora Landmark, é bilíngue, então pude ler o texto em português e inglês.

Os críticos em geral dizem que Orlando é a obra que colocou Woolf no patamar de importância literária na Inglaterra, muito mais do que Mrs. Dalloway (meu preferido e publicado em 1925). E entende-se a razão. Orlando é um nobre aristocrata, bem rico, que vive plenamente o período elisabetano, período este caracterizado por ter a rainha Elizabeth I no poder. É o Renascimento inglês, considerado a época de ouro das artes e da economia inglesa (época de Shakespeare e da descoberta do "Novo Mundo"). Pois bem. Orlando possui todas as benesses de um jovem de seu tempo - favores reais, mulheres a seus pés e beleza. Por acreditar que possui tudo, inclusive o amor de todos, ele crê que sua paixão por Sacha, uma nobre russa, tornará sua vida completa. Só não estava contando que a moça só queria se divertir com ele, afinal de contas, para ela era apenas diversão.

A desilusão no amor leva ao descrédito nas pessoas dali em diante, e por isso Orlando resolve se trancar para sempre em sua mansão no campo. Resolve também terminar de escrever seu poema "O Carvalho", pois como um bom aristocrata Orlando amava a poesia e queria também ser reconhecido por sua inteligência e louvor às artes. Ele pede que o poeta Nicholas Greene, considerado "o gênio", leia seu manuscrito, porém este escreve uma sátira ridicularizando a figura de Orlando e banalizando a pretensão do jovem de ser reconhecido como um bom poeta. Então, totalmente arrasado, Orlando aceita ser embaixador em Constantinopla, e é lá que se opera a coisa mais fantástica da história: ele dorme por sete dias, como se entrasse em um estado de coma, e após acordar descobre que seu sexo mudou - Orlando era agora uma mulher!

Como seria sua vida dali pra frente? Mudaria sua essência, seu modo de pensar, já que seu sexo mudou? Orlando, o romance, é filho do século XX pois coloca em discussão a importância da mulher na sociedade, questionando essa figura tão subestimada. Mas não somente isto. A narrativa de Woolf é irônica, obriga o leitor a participar do discurso, e o narrador da história se apresenta como biógrafo da vida de Orlando dizendo que sabe tudo mas ao mesmo tempo fica se explicando por não conhecer detalhes ou razões para as atitudes do rapaz. É um biógrafo fajuto, que ao invés de afirmar, duvida. 

E muito mais o romance Orlando nos ensina, principalmente aos profissionais da área de Letras: o tempo todo o narrador paga um lindo tributo à importância da arte e da poesia no mundo; muitas vezes o narrador dá uma lição de história de literatura inglesa e de crítica literária também, o que torna o romance quase que uma metaficção.

Imagino as dúvidas que devem ter dilacerado a mente brilhante da autora ao decidir abordar, sendo mulher, temas tão difíceis para as primeiras décadas do século XX. E olha que ela era até bem aceita nos círculos intelectuais londrinos - e tinha total apoio do marido, Leonard Woolf, para se entregar à escrita. Ele era seu editor e ela confiava completamente nele. É por isso que adoro tanto os romances e os pensamentos de Virginia Woolf: eles revelam  a mulher que só agora, em pleno século XXI, estamos conseguindo enxergar - como um ser humano.

Sobre a natureza da poesia em si, Orlando só descobriu que era mais difícil de vender que a prosa, e embora os versos fossem mais curtos, levavam mais tempo para serem escritos. (p. 44)


domingo, 9 de julho de 2017

Cazuza - Viriato Correa. Resenha crítica de *Caio Carvalho.

Download Cazuza  - Viriato Correa    em ePUB mobi e pdf

- Pergunta você o que é o Brasil? É tudo que temos feito em prol do progresso, da moral, da cultura, da liberdade e da fraternidade. O Brasil não é o solo, o mar, o céu que tanto cantamos. É a história de que não fazemos caso nenhum.(p.185)

Neste texto, objetivamos levantar uma análise crítica a respeito da clássica obra Cazuza (1938) do aclamado escritor maranhense Viriato Correa. A trama nos traz a história do garoto que dá nome ao livro. Em um tom memorialístico ele nos conta a sua infância em uma narrativa dividida em três partes, nas quais são alterados os personagens, o espaço e até a temática expressa. Seguindo uma ordem cronológica, a infância do menino é situada no livro, agregando a isso sua perspectiva diante do que ele presencia.

Ao ler Cazuza, é impossível caracterizá-lo como um livro homogêneo referente à sua temática, pois a diversidade de traços que compõe o estilo do autor, atrelado ao imaginário da época é gritante. Dessa forma, pontuamos na obra uma reflexão específica: o patriotismo. O narrador nos traz, especialmente na parte 3, um relato do desejo que ele tem de que o brasileiro assuma sua verdadeira identidade, fazendo uma crítica aos que cantam a brasilidade de uma forma equivocada e contida, ao passo que defende que ela é muito mais que isso.

A culpa não é de vocês, é de quem lhes ensina noções falsas. Para muita gente, patriotismo é elogiar as nossas coisas mesmo quando elas não merecem elogios. É um erro. O verdadeiro patriotismo é aquele que reconhece as coisas ruins do seu país e trabalha para melhorá-las. (p.209)

A Literatura é um dos mecanismos de maior influência quando se quer valorizar a pátria. Na tese Literatura como Missão (1981), de Nicolau Sevcenko, o autor coloca a Literatura como uma forte arma que ajuda o leitor a refletir sobre os eixos sociais que compõem o contexto em que o indivíduo está inserido. Para Sevcenko, o texto literário é um documento de ação político-social, que denuncia as mazelas vividas e sugere possíveis correções.

Viriato Correa usa e abusa desse cunho social que a Literatura possui pois nos faz refletir sobre a forma com que o brasileiro percebia sua pátria e como esse brasileiro ensinava suas crianças.  O forte tom crítico do protagonista faz o leitor enxergar o patriotismo menos da perspectiva natural e mais do cunho identitário que os próprios brasileiros lutaram para que seu país possuísse.

Para além da questão patriótica, o livro retrata fielmente a cultura maranhense, além de nos fazer refletir a respeito do ensino formal nas escolas da época, do preconceito e desvalorização com a gente pobre - questões altamente sociais. Com uma linguagem concisa e diálogos rápidos, o leitor consegue devorar as 229 pág. bem rápido! Lembremos que acima de tudo, a leitura de Cazuza demonstra que Literatura não é apenas deleite; Literatura também é denúncia.

*Caio Carvalho é aluno do curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA, Campus Timon (MA).

domingo, 2 de julho de 2017

Wicked - Gregory Maguire

Resultado de imagem para wicked
(São Paulo: Ed.Leya, 2016)

A feitiçaria [...] não rasga, ela remenda. É síntese, em vez de análise. Gera o novo em vez de revelar o antigo. Nas mãos de alguém verdadeiramente qualificado [...] é Arte." (p.182)

Olá meus leitores, tudo bom? Depois de um mês festivo como junho (pelo menos pra nós aqui do Nordeste é assim!), ufa! chegamos em julho, mês de férias! E isso significa colocar o lazer em primeiro lugar, isto é, a leitura, né? Bom, vamos à uma gostosa indicação que serve pra todas as idades, especialmente os adolescentes!

Wicked (malvada/o em inglês) narra a história da vida cheia de preconceitos e dificuldades de Elfaba, antes de se tornar a famosa Bruxa Má do Oeste da terra encantada de Oz. Desde criança a moça tem que lidar com olhares desconfiados por conta de sua aparência meio sinistra: cor da pele esverdeada e uma magreza extrema contrastando com belos olhos e cabelos negros e sedosos. Seu pai, Frex, um pastor que prega o monoteísmo, gosta de exibi-la a seus fiéis seguidores como prova da misericórdia de Deus, já que em nenhum momento Elfaba demonstra ter má índole. Sua mãe, Melena, rejeita-a constantemente. 

Crescendo no ambiente pobre, rural e pantanoso da província de Quadling, sendo negligenciada por seus pais e seus dois irmãos, Nessarose e Casco, Elfaba se volta para a leitura - seu único prazer é adquirir mais e mais conhecimento. Assim ela chega à universidade e o destino faz com que divida o mesmo quarto com a burguesa Glinda, que mais tarde se tornará a Bruxa Boa do Norte. Apesar das diferenças profundas as duas se tornam amigas: Elfaba segue acreditando que sua essência é má, sempre questionando qual sua verdadeira missão. Já Glinda segue afirmando que a feitiçaria pode ajudar a trazer o bem a Oz, salvando o país das tiranias comandadas pelo famoso mágico.

Mas muitas coisas acontecem não só a Elfaba como a seus amigos, após os anos da universidade: eles aprendem que os atos tem consequências. Cada um tem seus ideais de vida colocados à prova, para testar se suas essências são de fato más ou boas. À medida que Elfaba, Glinda, Boq, Fiyero e Nessa assumem responsabilidades e dão um direcionamento a seus destinos, suas personalidades também se delineiam. E suas identidades se formatam em figuras de bruxas e homens da elite de Oz.

A temática principal da obra gira em torno dos conceitos de bem e mal, principalmente deste último, assim como as suas respectivas personificações. Wicked demonstra de forma crua como algumas facetas do mal se apresentam na sociedade: na escravização de mentes, na imposição de ideologias tirânicas, na hipocrisia e no silêncio condescendente que apóia o governo ilegítimo do mágico de Oz.

É lógico que eu sugiro que você leia logo em seguida (ou antes mesmo) o clássico da literatura infantil e juvenil O maravilhoso mágico de Oz (1900) do norte-americano L.Frank Baum: todos os elementos que estão nesta obra reaparecem em Wicked, como a menina Dorothy, seu cachorrinho Totó e os amigos que ela faz em Oz: o homem de lata, o espantalho e o leão covarde. Ah! E vocês entenderão finalmente, assim como eu, a razão de os famosos sapatos prateados serem encantados! Garanto que a leitura será de fato maravilhosa!

"[...] Ou o mundo simplesmente se descortina aos seus olhos, repetidas vezes, assim que você está pronto para vê-lo de maneira diferente?" (p.255)



domingo, 18 de junho de 2017

No alto da ladeira de pedra - Carvalho Jr.

Resultado de imagem para no alto da ladeira de pedra
(São Paulo: Patuá, 2017)

"cadeira, óculos, agulha...

no alto da ladeira de pedra,
vô Quirola remenda
as redes de pesca. [...]" (p.51)

Olá leitores! Hoje é dia de poesia, meu assunto preferido...Chegou-me às mãos ainda em maio deste ano a obra poética do jovem autor caxiense Francisco de Assis Carvalho da Silva Jr - ou simplesmente Carvalho Jr., cidadão de Caxias - MA. O poeta é bastante conhecido por aqui e já possui um reconhecimento merecido para além da região dos Cocais, o que não me surpreende, uma vez que seus versos tem qualidade. E ter qualidade na arte poética não é apenas escrever poemas que falem ao coração. É ter riqueza de linguagem. É ter coragem de expressão. É saber ser significativo hoje e sempre. E Carvalho Jr. pode se gabar de reunir esses adereços.

O livro em si, enquanto objeto-poético, é bem convidativo: o layout e a disposição interna dos poemas, bem como a escolha das epígrafes na abertura de cada uma das partes do livro salta aos olhos. É gostoso de ver, e depois a leitura torna-se mais prazerosa ainda.

Quanto à temática, eu dividiria esta obra em dois momentos: primeiro temos poemas que nos ligam à infância, ao corpo-erótico, à solidão. Porque se conhecer e (re)conhecer sua essência é necessário; o medo e o silêncio são latentes, mas a coragem de viver é maior:

"teu nome é uma tejubina - libélula - borboleta
que dança os meus arco-íris da infância
nas armadilhas e incêndios de uma bolha de sabão." (p.30)

Em um segundo momento, o "índio fantasma da tribo Quirola" (que é como se define o eu poético) nos mostra um espaço muito bem traçado, com elementos que se voltam para a memória da cidade, com a denúncia recorrente de sua decadência e o descaso de seus habitantes; temos também o rio que perpassa tudo e todos e que, juntamente com o povo, tenta resistir às violências do cotidiano. É sempre interessante ler poetas que nunca se esquecem de sua função social. Porque a palavra bem dita tem força; ela se espalha e não se perde: 

"passa o rio como um cachorro magro...
tudo que bebe são assobios de socós
e a seca indiferença dos bocós." (p.39)

Finalizo por aqui, me permitindo dizer o que eu mais gosto nos poemas de Carvalho Jr.: é o uso da explosão de cores e de neologismos com que ele burila a palavra; sua concisão e ironia me agradam muito. Abusar da linguagem assim é um exercício que requer prática para não parecer óbvio. Porque, na verdade, como disse o poeta francês moderno Paul Valéry, o poema é uma espécie de máquina de produzir o estado poético através das palavras, muito embora não saibamos o efeito da ação dessa máquina a longo prazo em nossos espíritos. O efeito dessa "máquina" em mim hoje é de êxtase e de contemplação. Só posso me emocionar com o que é verdadeiro para meus olhos:

"pare,
olhe,
escute:
nem o trem
nem a fome 
do mundo
passaram 
ainda."(p.27)


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ainda estou aqui - Marcelo Rubens Paiva

Resultado de imagem para Ainda estou aqui
(Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2015)

Tentava, a todo custo, ser tratada não como uma doente, uma demente, mas como um ser igual a todo mundo, que, com a idade, é traído pela memória, fica velho, fica esquecido, fica esclerosado, velhinha.(p.27)

Olá meus leitores da vida, tudo bom? Vamos a mais uma resenha de uma ótima leitura! Ainda estou aqui (2015), romance do Marcelo Rubens Paiva, vocês podem adquirir sem medo aqui.

Por meio de um relato bem memorialista porém marcado pela objetividade de fatos verídicos, em que ficção e compromisso com a verdade se entrelaçam fortemente, o narrador tem como ponto de partida a descoberta de que sua mãe possui mal de Alzheimer. Por iniciativa própria, ele aceita ser seu tutor e, consequentemente, questiona como uma mulher como Eunice Paiva em breve não se lembrará mais de sua vida. 

E que vida, hein? Poucas pessoas podem se gabar de terem chegado aos 77 anos de forma tão ativa quanto Eunice, que teve que se reinventar aos 41 anos, com 5 filhos pra criar, no auge da década de 1970 e do regime militar; que teve que aceitar que o suposto desaparecimento do marido Rubens Paiva, engenheiro e ex-deputado federal, na verdade, foi um assassinato perpetrado por torturadores do DOI.

 A revolta transmutou-se em uma luta na persistência de existir: a moça de ascendência italiana e que adorava ler, formada em Letras, resolveu fazer faculdade de Direito e refazer a vida, triste por dentro mas alegre por fora. Terminou de criar os filhos, driblou as questões burocráticas legais por não conseguir provar sua viuvez - já que o corpo de Rubens nunca foi encontrado, abraçou a causa do Direito Indígena nos anos 1980...ufa! Tem mais, muito mais.

Histórias como a de Eunice devem ser lidas para que nos lembremos que uma vida inteira ainda é pouco pra quem quer realizar tanto. Histórias que tem como pano de fundo o período negro do regime militar no Brasil devem ser resgatadas e discutidas sempre que possível, já que somos, em grande parte, um país sem memória, tanto para fatos longínquos quanto para os fatos recentes. Também pudera. Quem nos educou de fato nos ensinou a pensar, a lutar? Quem nos educou nos deu o conhecimento das verdades não-oficiais? Um pessoa sem memória a gente aceita, pois a doença é algo involuntário. O que não se aceita mesmo é um país sem memória; sem olhos para o passado.

Assim era o Brasil da ditadura: o órgão que deveria defender os índios defendia os fazendeiros que invadiam as terras indígenas; a polícia federal, que deveria defender o direito do cidadão, defendia o Estado e o poder, que se sentia ameaçado pelo cidadão. (p.205)