quarta-feira, 13 de maio de 2020

"Até o outro dia", conto de Luciana Frank


Aconteceu aos poucos. Ela não saberia responder se fora em questão de meses, semanas ou dias. Mas, estava apaixonada por ele, disso tinha certeza. Reconhecia sua figura ao longe. As roupas surradas pelo árduo trabalho no campo, o machado sobre o ombro, a expressão cansada, voltando na companhia de seu irmão. Ele sempre encostava por uns instantes. Bebia a água que ela lhe oferecia, limpando os lábios na manga da camisa. Nunca um olhar mais demorado. Nenhum sinal naqueles pequenos instantes diários. Apenas agradecia em silêncio. Com um leve aceno de cabeça ou um riso sem jeito. Aprendeu a colecionar as coisas que a encantavam nele: o modo tímido como recebia um elogio, a forma correta de pronunciar as palavras como se não pertencesse aquele lugar, seus cabelos e olhos escuros como carvão molhado, a expressão humilde, a maneira como lia poesias, os dedos a deslizarem sobre as cordas do antigo violão, a sombra da fogueira sobre suas feições. Sempre acrescentava. Nunca diminuía. Quando tudo isso foi se agregando até seus sonhos terem o formato de um rosto. A figura de uma pessoa. Tanto querer guardado a angustiava, a ponto de estarem próximos aos lábios. Encontrando covardemente o caminho de volta para o seu coração. Temia que não fosse compreendida ou mesmo rejeitada, em uma terra onde só se pensava em fazer fortuna. Onde a morte beirava a vida, não existia tempo para uma história de amor. O intervalo entre a claridade e a escuridão eram preenchidos ante a ausência ou a presença dele. Aprendeu a escrever com a professora solitária que perdera seu marido há muitos anos naquela mesma guerra pela incansável busca ao ouro. Somente a ela confessou que queria escrever cartas para um rapaz que havia roubado o seu coração. Mas, ele partira pouco tempo depois. Sem qualquer aviso. Ninguém sabia informar para onde teria ido. Seu irmão de nada sabia sobre sua vida, além do tempo que trabalharam juntos e as escassas informações sobre sua parentela. Essa constatação tardou a ser absorvida, acostumar seus olhos a não o procurar tanto ao fim do dia, encher o filtro de barro imaginando que viria para beber de sua água. Ao raiar do sol, seus dedos escreviam contínuas cartas que nunca chegariam a seu destino, seu coração procurando entender o porquê de sua partida repentina. Ele foi, mas existia nela. Em tantas vezes em que se imaginou colhendo os beijos de sua boca, de vestido branco, vendo-o por trás de um véu, trocando alianças com ele na pequena igreja, prendendo entre as mãos um arranjo de margaridas, esperando na porta de uma casa simples de barro, colocando seu jantar sobre a mesa, a observar seu rosto sob a luz de uma lamparina. A realidade que abria seus olhos pela manhã, a obrigava a enterrar seus sonhos. A perda não era apenas para a morte, como um dia chegou a pensar. Se perdia também para a vida. Nos seus caminhos tortuosos. Quando as estações se repetiam, quando os dias corriam e os anos passavam guardando sempre o mesmo rosto. Cansou de recolher todos o pôr do sol com a mesma tristeza e amargura. Calou-se por dentro e deixou suas mãos guiarem os seus pensamentos. Encontrou um local onde poderia guardá-los e não enterrá-los naquele solo infértil daquela terra de ilusões. Um cenário feito a luz de um candeeiro, uma velha mesa da época que seus pais ainda eram vivos, uma cadeira de madeira caprichosamente esculpida por seu irmão, um cômodo de paredes de barro batido. Papel, lápis e a escrita. Ali era onde sentava todas as noites e transformava as lágrimas em palavras, que guardavam toda a saudade do que não chegou a ser revelado ou mesmo existir. Até sentir que estava refeita, curada... Até o outro dia.

*Luciana Frank é uma jovem escritora maranhense, com uma escrita sensível e tocante. Esperamos que tenham apreciado este momento literário aqui no blog ;)

Natércia

3 comentários:

  1. Muito tocante o conto e bela escrita. Parabéns!

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  2. Gente, que coisa mais linda! Parabéns pelo lindo conto Luciana.

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  3. Que maravilha, mais uma mulher na nossa literatura. Eu a conheço.

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