domingo, 5 de março de 2017

Pausa poética: "O tempo que não se perdeu", Pablo Neruda

(Porto Alegre: L&PM, 2010)

O TEMPO QUE NÃO SE PERDEU

Não se contam as ilusões

nem as compreensões amargas,
não há medidas pra contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.

Perder até perder a vida

é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nós mesmos caímos.

Ai! o que esteve tão perto

sem que pudéssemos saber.

Ai! o que não podia ser

quando talvez podia ser.

Tantas asas circunvoaram

as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.

Terminaram-se os lamentos.
(In: O coração amarelo)
Em um contexto mais subjetivo, é interessante entender a mensagem que se encontra no poema desde o início, desde a primeira estrofe: não temos controle sobre o que poderia ter acontecido de bom ou de ruim em nossas vidas no passado. O que é externo a nós, não controlamos. Até nossas decisões, que achamos ter poder sobre elas, não imaginamos muitas vezes os rumos que elas podem tomar. Por isso as ilusões ou amarguras nem podem ser contadas, assim como também não podemos contabilizar aquilo que apenas nos rondou sem que pudéssemos perceber. A única certeza que temos do nosso passado é o que fizemos com ele, assim como suas consequências no tempo presente.
"Ai! o que não podia ser/ quando talvez podia ser": é pensar no que poderia ter acontecido se soubéssemos o que o presente nos aguardava. Teríamos feito diferente? Se conhecêssemos o futuro, negaríamos alguma de nossas convicções e certezas? Mudaríamos nossos passos? Talvez não.
Em um contexto mais político-social, podemos  refletir sobre o poema à luz das questões políticas com as quais se deparou Pablo Neruda na época da instauração do regime militar no Chile, o qual ele não aprovou e consequentemente foi perseguido por suas convicções de cunho mais populistas, em defesa mesmo do povo e contrário às injustiças.
No fim das contas, independente do que poderia ter acontecido ou não, de nossas decisões terem sido acertadas ou não no passado, não nos cabe agora lamentar, pois "tantas rodas sacudiram a estrada do destino que já não há nada a perder." E sim, bola pra frente pois "terminaram-se os lamentos."


domingo, 26 de fevereiro de 2017

O duelo - Anton Tchékhov

( Barueri, SP: Manole/Amarilys, 2011)

"E o que é a raça humana? Uma ilusão, uma miragem..." (p.87)

Aqui abro espaço para a leitura de um clássico; não só a obra, mas o autor também. Na minha lista pessoal de clássicos, o russo Anton Tchékhov é presença eterna e seus textos são sempre revisitados. A seu respeito, o escritor e crítico russo Vladimir Nabokov nos diz que ele é um daqueles autores de "fôlego curto", que não se permitem textos muito compridos, no que eu concordo inteiramente; porém, há uma exceção com O duelo, uma novela literária de 21 capítulos. Ainda é um texto curto mas longo se comparado à maioria dos contos de Tchékhov.

Publicado em 1891 no formato de folhetim, O duelo possui uma história pautada no pensamento de uma corrente filosófica que estava bastante em voga na segunda metade do século XIX: o darwinismo social, que prega a seleção natural de seres humanos que poderão contribuir para o progresso social e da humanidade.

"[...] O que protegia a humanidade primitiva de tipos como Laiévski eram a seleção natural e a luta pela sobrevivência; agora a nossa cultura afrouxou a luta e a seleção e nós mesmos devemos cuidar da eliminação dos débeis e inaptos [...] " (p.52) 

Laiévski é essa pessoa jovem extremamente passional, inconstante, inconsequente e um funcionário público relapso e preguiçoso. Aliado à isso, vive há 2 anos com Nádia, mulher casada com quem fugiu de Petersburgo para uma cidadezinha litorânea na região russa do Cáucaso: eles fugiram pra viver um sonho de amor que fracassou. Apesar de sua personalidade e de suas ações não serem tão nobres, Laiévski tem a consideração e amizade de várias pessoas na cidade, como o médico Samóilenko. Porém é desprezado pelo zoológo Von Koren, jovem convicto de que pessoas como Laiévski deveriam ser exterminados do convívio social pois são fracos.

Nem as ponderações gentis e tolerantes de Samóilenko e nem as argumentações teológicas do jovem e alegre diácono Pobédov são capazes de minimizar o julgamento que Von Koren faz do caráter de Laiévski. Diante do desenrolar de outros fatos paralelos, e no auge do desespero de sua própria insatisfação - tanto consigo quando com o relacionamento com a companheira Nádia - Laiévski acredita que o melhor é ir embora e largar tudo pra trás. Mas como, se não tem dinheiro e deve muitas pessoas?

Ele vai até a casa de Samóilenko e ao encontrar Von Koren, inicia uma discussão que termina com a fatídica frase: "Eu vou me bater!" Ou seja: Laiévski propõe um duelo, no afã do momento, a seu desafeto, a fim de resolver logo suas diferenças.

Parece cômico se não fosse trágico, e essa é uma das características de que mais gosto em Tchékhov: a capacidade de fazer humor a partir da tristeza e da tragédia de seus personagens. Para leitores um pouco degenerados como eu, ler o texto tchekhoviano é como saborear um prato bem requintado. Fãs de Machado de Assis, como eu, também fatalmente se apaixonam pelo autor russo. Pra quem nunca leu um texto dele, sugiro começar pelos contos famosos "A dama com o cachorrinho" e "Vanka". Garanto que a partir daí a literatura russa ganhará espaço em sua vida, caro leitor.

"Não entendo como é possível se ocupar seriamente com bichinhos e vermezinhos, enquanto o povo está sofrendo." (p.77)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

As sombras de Longbourn, de Jo Baker

(São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2014.)

O dia de lavar roupa era inadiável, mas ainda assim a lavagem semanal da roupa de cama e mesa da casa era uma perspectiva desalentadora para Sarah. O ar estava gélido às quatro e meia da manhã, quando ela começou a trabalhar. [...] Seria um longo dia de labuta, e aquilo era só o começo. (p.13)

Me interessei em ler As sombras de Longbourn justamente porque seu enredo retoma um de meus romances favoritos de todos os tempos: Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Mas retoma de um jeito diferente, que não pretende distorcer nenhum dos fatos que nós, que já lemos o famoso romance de Austen, conhecemos tão bem; não, não. As sombras retoma o mesmo enredo sob o ponto de vista da criadagem, principalmente de Sarah, a jovem empregada da família Bennett – família esta dona da propriedade Longbourn e pertencente à pequena aristocracia rural.

Órfã, Sarah foi levada ainda criança para trabalhar para os Bennett – foi acolhida pela governanta / cozinheira da casa, a sra. Hill, e pelo cocheiro, sr. Hill, ambos casados e que sempre a trataram como filha. Apesar da jornada diária de trabalho que logo lhe foi imposta e à qual cresceu acostumada, Sarah sempre soube que ali era o melhor lugar para ela, pois tinha abrigo, comida e compartilhava das gentilezas das senhoritas Bennett, principalmente de Elizabeth.

Porém, sua convicção é abalada quando seus patrões contratam o jovem e calado James Smith, para trabalhar como lacaio e ajudar o já cansado sr. Hill. Smith surge do nada procurando por emprego e ali encontra não só acolhimento mas também a simpatia de Sarah.

Dentre os vários percalços que se desenrolarão sob o olhar da jovem empregada, no que diz respeito às vidas de seus patrões, ela mesma terá que amadurecer e perder a ingenuidade, inclusive se perguntando: servir aos outros é realmente a que se resumirá toda sua vida? E quanto ao amor? Ela também não será merecedora, tanto quanto Jane e Elizabeth?

Ler As sombras permite conhecer o universo da criadagem de fins do século XVIII, tanto aquela que habitava o mundo dos Bennett quanto a que cercava a grande aristocracia, representada pelos senhores Bingley e Darcy (futuros maridos das primogênitas Bennett).

Por meio de suas pesquisas (até porque se declara megafã de Austen), a autora Jo Baker reconta Orgulho e Preconceito do backstage: por meio de uma linguagem fluida e gostosa, somos transportados para as pequenas alegrias e desejos assim como os infortúnios e angústias de pessoas que deviam passar despercebidas da rotina diária de seus amos.

Viver assim, inteiramente à mercê dos caprichos e das fantasias de outras pessoas, ela pensou, não era viver. (p.229)


domingo, 29 de janeiro de 2017

Flores Azuis - Carola Saavedra

(São Paulo: Companhia das Letras, 2008)

Sempre é possível perder o que não se tem, sempre é possível afastar-se mais ainda, a possibilidade ilimitada da falta. (p.45)

Pois vamos lá: mais um romance contemporâneo na resenha, meus amores. E de uma autora, sim. A Carola Saavedra (1973-   ) nasceu no Chile mas depois veio com a família pro Brasil aos 3 anos de idade. Além de ter outras obras publicadas, ela também tem um site onde fala sobre seus textos, processo de criação e sobre a recepção crítica deles, além de veicular entrevistas etc. Se você quiser conhecê-la um pouco mais, é só clicar aqui.

Duas coisas me chamaram a atenção em Flores Azuis: o estilo de Saavedra é cru e direto, o que rechaça logo de cara essa história de que existe uma tal de "escrita feminina"; se eu não soubesse que o autor do romance era uma mulher, eu acharia que era um homem. De verdade. E aí chegamos no segundo ponto: a construção da personagem Marcos, que desnuda por completo toda a figura do macho e as expectativas femininas em torno do homem moderno.

Vamos à história: Marcos acabou de se separar da esposa e, ao se mudar pra um apartamento, tem que se adaptar à nova vida de solteiro - além de demonstrar inabilidade paterna em lidar com a filha de 3 anos, Manuela, quando a menina vai passar os fins de semana com ele. Um dia Marcos começa a receber cartas de uma mulher, que assina como A.; uma carta por dia, cartas de uma mulher abandonada pelo companheiro nas quais tenta narrar e rememorar cada pedaço de seu relacionamento na expectativa de que seu amado retorne.

Obviamente que as cartas não são pra Marcos, e logo ele se pergunta quem foi o morador do apartamento anterior à ele e se dispõe a tentar rastrear esse ex-morador assim como a autora das cartas. É que ao viver uma rotina aparentemente sem sentido e vazia, Marcos começa a ansiar pela chegada desses escritos íntimos - eles vão dar um novo colorido, ainda que meio estranho, à vida dele. Marcos quer conhecer esse casal dilacerado pela violência. Sim, pois se você achou que encontraria aqui uma história de amor, se enganou. Flores Azuis retrata muito mais a falência das relações entre homem e mulher, que não conseguem se entender pois nenhuma das partes alcança as expectativas do parceiro a contento. E nesse aspecto é que a linguagem do narrador se mostra crua e sem rodeios.

Um homem recém-separado precisa de uma mulher com um mínimo de compreensão. [...] e que o deixe em paz quando a solidão se faz novamente indispensável. (p.49)

A estrutura de Flores Azuis me encantou pois é parcialmente epistolar - e aí não há nada de novo, pois romances epistolares (histórias narradas por meio de cartas trocadas entre os personagens) existem na literatura desde o século XVIII. Os meus preferidos são os famosos As ligações perigosas (1782), do francês Chordelos de Laclos, e Lady Susan (1794), da minha megadiva inglesa Jane Austen. Mas resgatar esse tipo de estrutura em um romance brasileiro contemporâneo me parece bem interessante, para não dizer inusitado.

Quero adverti-lo/la que você vai passar uns bons dias ruminando os caquinhos dos seus pensamentos depois de ler Flores Azuis (vai ler rápido como eu, com certeza); sim, você sofrerá um belo impacto. E depois desse impacto, já que estamos falando de cartas e relacionamentos, indico que você assista o lindíssimo Possessão (2002); dá uma olhada aqui no trailer do You Tube (desculpa, só encontrei em inglês ;)






domingo, 15 de janeiro de 2017

Pausa poética: Soneto 121 - William Shakespeare

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Soneto 121

É melhor ser vil do que vil considerado,
Quando não se é, e ser repreendido por sê-lo,
E o prazer justo perdido, que é tão caro
Não por nós, mas pela opinião alheia.
Por que a visão falsa e adulterada dos outros
Deve julgar o meu sangue ardente?
Ou minhas fraquezas, enquanto o mais fraco espia,
Que por eles seja mau o que acredito bom?
Não, eu sou quem sou, e eles que julgam
Meus erros reconhecem em mim apenas os deles;
Posso ser reto, embora eles sejam tortos;
Diante desses pensamentos, meus atos se ocultam,
A menos que esse mal geral que eles mantêm:
Todos são maus e em sua maldade reinam.
(trad. aqui)

Pra quem não sabe, Shakespeare escreveu 154 sonetos, dos quais alguns são bens famosos, dada a extrema consonância com os tempos tortos em que vivemos. E o soneto 121 é um deles - que fala sobre as injustiças do mundo e de como somos julgados pelos olhos tortos dessas pessoas. Não importa como fazemos o bem ou agimos de forma correta; para algumas pessoas sempre estaremos errados - pois elas nos julgam por seus próprios atos.

Observamos aqui pela própria ótica renascentista que o eu poético pensa e analisa o mundo à sua volta, e o ato de cogitar revela a ânsia de entender as razões de tantas incongruências - deve-se questioná-las, para o bem ou para o mal. Tampouco somos vítimas ou vilões; somos humanos, cheios de falhas. Então por que tantos dedos apontados para nós se todos são passíveis de falhas?

É ruim ter seus atos julgados por quem não tem moral para apontar o caminho correto. É importante lembrar também que o julgamento dos outros sobre nós não deve ter força para anular nossa essência, quem somos de verdade. Por isso gosto muito desse trecho: "Eu sou quem sou" (I am that I am) e isso basta. Se de fato nos conhecemos, apesar de nosso atos se perderem no julgamento podre dos "tortos" que presidem a sociedade, ainda assim o mal que reina pode ser combatido. Ainda que todos sejam "maus e em sua maldade reinam".


domingo, 8 de janeiro de 2017

Vitória, de Joseph Conrad

(Porto Alegre: Dublinense, 2016)

O mundo é um cão raivoso. Vai mordê-lo, se você der uma oportunidade. (p.72)

Estou muito feliz em poder resenhar pra vocês o romance Vitória, pois esta edição foi feita especialmente para os associados da TAG Experiências Literárias. Esta foi a obra escolhida para o mês de novembro de 2016 e contou com a curadoria/indicação e posfácio do escritor e filósofo político John Gray, além de vir com a revista do mês, um postal e um marcador de livros. Sobre como funciona a TAG, indico que vocês olhem a proposta no site deles, mas a minha opinião, de quem já recebeu até agora 4 obras, é a mais positiva possível! Sou leitora voraz, professora de Literatura e bibliófila, como vocês sabem, então livros são sempre muito bem vindos na minha vida! Mas vamos à obra.

Essa foi uma segunda chance de poder (re)descobrir o estilo de Joseph Conrad (1857-1915): escrita envolvente, que nos presenteia com uma narrativa cheia de ação, aventuras e cenários exóticos, combinando tensão, suspense e susto com uma bela sensibilidade. O romance Vitória (Victory,1915) é o último livro escrito pelo autor de origem polonesa que imigrou bem jovem para a Inglaterra com sua família. Ele tem não só em seu currículo mas como experiência de vida o fato de ter passado quase 20 anos na Marinha e viajado muito por terras/países que foram inseridos, após a metade do século XIX, no processo de (re)colonização pelos países europeus - a isso os historiadores chamam de Neocolonialismo. A obra mais conhecida de Conrad, no entanto, é o romance Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899), a única obra dele que até hoje eu havia lido - e que indico, claro.

O cenário exótico de Vitória se projeta em algum lugar do arquipélago do Mar de Java, na região das Índias Ocidentais, em meio aos chineses (nativos) e aos europeus (brancos), cada um tentando conviver e sobreviver neste processo político-econômico neocolonizador. Ali mora o sueco Axel Heyst, homem que viaja pelo mundo sozinho e que adotou como filosofia de vida a solidão e o desapego. Ele conduz sua vida sem demonstrar nenhum sinal de esperança na humanidade, sendo bem indiferente a ela, na verdade. Essa atitude reflete um sentimento niilista próprio dos homens de fim de século e muito condizente com a filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer, influência que identifiquei logo de cara. Por ironia, o fato de ser mero expectador da vida bem como ser descrente das ilusões mundanas não exclui Heyst dos problemas que o mundo lhe traz, o que demonstra que é bem difícil esse negócio de viver sendo indiferente e desdenhoso das coisas. E das pessoas.

Nesse método, ele percebera um meio de passar pela vida sem sofrimentos e quase sem ter nenhuma preocupação no mundo - evasivo, logo invulnerável. (p.104)

Heyst salva da falência o comerciante Morrison, livrando-o de ter seus bens adquiridos pelos colonizadores portugueses que ali haviam fixado território. Em sinal de gratidão, Morrison lhe convida pra ser sócio de uma companhia de extração de carvão instalada na solitária ilha de Samburan. Morrison fica doente e morre e o empreendimento não dá certo, pois na ilha não há nenhum recurso natural a ser explorado. Heyst resolve ficar por ali mesmo, na ilha isolada, e isso por si só causa estranhamento perante as pessoas que moram nas outras ilhas habitadas: elas o definem como excêntrico, e um comerciante, Davidson, depois resolve se aproximar do sueco, oferecendo-lhe qualquer ajuda caso um dia precise.

E ele precisou. Heyst pede uma "carona" no navio de Davidson pois tem que ir até o centro comercial (em outra ilha, onde se concentra a maior parte dos estrangeiros) para finalizar os negócios da companhia de carvão. Apesar de ser coisa rápida, ele tem que esperar quase um mês pela "carona" de volta, e nesse meio tempo fica hospedado no hotel do fofoqueiro e maldoso Schomberg. Ali Heyst conhece a jovem Lena, que trabalha em uma companhia artística contratada para divertir os estrangeiros da cidade. Encantado pela tristeza da moça, resolve chamá-la pra fugir com ele rumo à ilha solitária. Cansada da vida de exploração que leva, Lena segue aquele homem enigmático que lhe inspira confiança. 

Pois o objetivo da razão é justificar os desejos obscuros que movem nossa conduta, nossos impulsos, paixões, preconceitos e loucuras, e também os nossos medos. (p.97)

Ferido por sua vaidade machista, porque foi rejeitado por Lena, e movido por vingança, Schomberg diz a um grupo de aventureiros que Heyst guarda uma grande fortuna na ilha, e incita-os a ir até lá, garantindo que será um negócio dos mais fáceis. O líder do grupo, Mr. Jones, seu secretário Ricardo Martin e seu ajudante negro Pedro resolvem seguir as pistas e...bom, já deu pra ver que o romance de quase 400 páginas é cheio de ação, né? 

Matar, amar...os maiores empreendimentos que a vida apresenta a um homem. (p.214)

Essa resenha não ficou grande à toa: além de ser um romance ainda no formato/estilo do século XIX (o que eu, particularmente, adoro), contém muitas reflexões e ideias já com o sabor do século XX - não esqueçamos também que a I Guerra Mundial acontecia à época da publicação de Vitória.

Outro ponto que destaco: a gente pensa que, por ser um romance em que predominam as personagens masculinas, as figuras femininas de Lena e da Sra. Schomberg não terão muita importância na história: pois lhes digo que se enganam redondamente! Elas tem tanta importância que as ações principais do enredo assim como o clímax são definidos justamente por essas mulheres corajosas de aspecto frágil.

A principal reflexão que faço ao fim da leitura de Vitória é sobre o fato de buscarmos como solução pras nossas vidas a negação da esperança e da crença das chamadas "ilusões mundanas": acreditar que tudo pode dar certo no final e ter esperança no homem é um exemplo dessas crenças. Cabe aqui questionar se o ato de se isolar do mundo, de se "proteger" do convívio humano e ser mero expectador da realidade que nos cerca corresponde a, de fato, viver. Vale a pena viver assim? Ou poderemos nos permitir ser transformados pelo amor, pela amizade e pela solidariedade, dadas a nós sem precisar de nenhuma moeda de troca? 

As pessoas ficam de certa forma ligadas a quem faz algo por elas. (p.203)







domingo, 4 de dezembro de 2016

A filha perdida - Elena Ferrante

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(Rio de Janeiro, Ed.Intrínseca, 2016)

"O corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota [...]" (p. 45)

A autora italiana Elena Ferrante, que não sabemos quem é, pois este nome é seu pseudônimo, nos presenteia com uma rara e emocionante visão sobre a maternidade neste romance curto e de linguagem envolvente, bem longe de ser piégas. Leda é uma bela mulher na faixa dos 40 anos, independente, professora universitária, cujas duas filhas adultas foram embora para morar com o pai no Canadá. Logo ela se vê estranhamente livre e desobrigada de suas funções de mãe, e resolve passar as férias em uma cidade italiana à beira da praia, a fim de descansar e preparar suas aulas para o próximo semestre.

Por frequentar a praia todos os dias, Leda começa a observar o relacionamento entre a jovem Nina e sua filha de dois anos Elena, percebendo também a dinâmica das relações familiares (conflituosas em silêncio) de Nina com a família de seu marido, um homem bem mais velho. Essa observação faz com que Leda relembre sua própria trajetória como mulher que foi mãe jovem, revelando sentimentos contraditórios na educação das filhas, procurando detalhes do passado que pudessem justificar suas ações. Em suas lembranças, Leda também "passa a limpo" a figura de sua mãe, mulher cujas atitudes insensíveis são criticadas por ela. O amor de mãe é questionado nesse romance, por ser o tema principal.

"Como adulta, sempre tentei me lembrar do sofrimento de não poder mexer nos cabelos, no rosto, no corpo de minha mãe.[...]"(p.57)

Ocorre um fato meio "dramático" um pouco antes da metade do romance e que definirá o resto do desenvolvimento da história: a menina Elena perde sua inseparável boneca no dia em que ela mesma se perde de sua mãe, na praia. Leda é quem encontra a menina, chorando, não porque se perdeu da mãe, mas porque perdeu sua boneca. Essa boneca também se torna metaforicamente um gatilho para as várias lembranças de Leda, principalmente as ações que definiram o rumo de sua vida e a tornaram a mulher que é no tempo presente.

"Às vezes, precisamos fugir para não morrer." (p.84)

A leitura de A filha perdida não serve apenas para refletirmos sobre as questões maternas, mas acima de tudo para pensarmos em como nós, mulheres, maduras ou jovens, mães ou não, nos relacionamos entre nós; o que é que nos falta para nos tratarmos com mais gentileza e com menos obrigações imputadas a nós pelas convenções sociais? O que é que falta a nós, mulheres, irmãs, mães, filhas e avós, para que nos enxerguemos com mais humanidade, para além dessas imagens instituídas pela sociedade? 

"As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender." (p.6)