quarta-feira, 4 de abril de 2012

Dica de filme: Poucas cinzas


Poucas cinzas (Little ashes, 2008) é uma produção EUA/Espanha que tem no elenco, entre outros, o improvável Robert Pattison representando o excêntrico artista plástico Salvador Dalí. Digo improvável porque com um certo esforço e com o desenrolar da trama Pattison até convence com os trejeitos, caras e bocas, que são marca registrada de Dalí. A história foca no relacionamento deste e de Federico García Lorca, do momento em que se conhecem na Madri no início dos anos 20 até a descoberta da admiração mútua e consequente envolvimento passional. Ao redor dos dois transitam outros jovens efevercentes como o cineasta aspirante Luis Buñuel e a jornalista feminista Magdalena, esta por sua vez apaixonada por Lorca.


O filme foi baseado nas cartas trocadas entre Dalí e Lorca e é inevitável pensar que realmente existiu algo além da amizade normal entre os dois; mas devido às convenções da sociedade espanhola, em que por exemplo o homossexual descoberto era condenado a 15 anos de cadeia, tornava-se impossível para Lorca externar seus sentimentos e emoções. A não ser, é claro, através da literatura, como ele tão bem o fez. Eventualmente Dalí se muda para Paris influenciado por Buñuel, que acreditava que a Espanha não estava preparada para as idéias avant garde daquela geração; Lorca discordava desse pensamento e deu início a seu projeto de educar as massas, levando o teatro para ser encenado pelo interior do país. Neste projeto obteve muito sucesso a trilogia rural Yerma, A casa de Bernarda Alba e Bodas de Sangue (esta última minha preferida; quando Lorca a escreveu parecia saber de seu destino cruel).


 Com as caravanas teatrais, todos reconhecem Lorca como o poeta e dramaturgo da nação, a voz dos camponeses; mas isso também o expõe e o fragiliza diante do crescente governo fascista de Francisco Franco; a Guerra Civil Espanhola que se sucede, em 1936, vai logo atrás de seus opositores e Lorca é um dos primeiros a ser executado. 


"Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.[...]"
(Romance sonâmbulo)



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